As recentes previsões da Autoridade Monetária e Cambial apontam para a recuperação do crescimento económico, no curto e no médio prazo; a evolução positiva do EBITDA – resultados antes de impostos, juros e amortizações – em operadoras como a MGM, ou a aposta renovada no segmento VIP, assumida por Lawrence Ho, evidenciam uma nova respiração no pulmão dos casinos; o mercado imobiliário procura ainda patamares de sanidade, uns furos abaixo da loucura dos últimos anos, mas não há dramas nem bolhas a rebentar… Depois da tempestade, a viragem do semestre anuncia a bonomia.
A economia é a fórmula básica da magia social. Quando os números são maus, servem de panaceia para todos os males; se são bons, já os males tendem a ser esquecidos. E é por isso que, tantas e tantas vezes, a boa esperança depressa retorna à tormenta. A queda nas receitas do jogo tem razões que a razão bem conhece, mas que a política não quer ver: as fichas mortas não rolam na China com o facilitismo de outrora, os casinos não sabem por as fichas em mercados alternativos, a elite governante não tem imaginação nem energia – talvez nem tenha interesse – para diversificar a economia, os empresários vivem à sombra do vício palaciano, o ensino é frágil, a massa-crítica é escassa, a política laboral anquilosada e protecionista…
A lista, interminável, é conhecida e repetida à exaustão. Quem quiser que acredite: que a China fará sempre tudo para que nada falte a Macau, que os turistas serão eternos e aos magotes, que não faltará aos junkets financiamento nem músculo para cobranças difíceis, que os governantes, familiares e conselheiros, podem tudo, podem mesmo continuar a fazer nada, cheios do ar insuflado pelo superavit. Há mesmo quem acredite que em plena orgia no Olimpo, quando tremem os pilares do dinheiro fácil, o melhor é cortar massa circulante e suspender mecanismos de redistribuição, erguendo o martelo da austeridade e, aí sim, impondo a crise ao comum dos mortais.
O que é muda com os números da bonança? Provavelmente nada, pelo que tudo não passa de um sopro para respirar.
Paulo Rego