TRADIÇÃO ALIADA AO DESPORTO NO FESTIVAL DOS BARCOS-DRAGÃO - Plataforma Media

TRADIÇÃO ALIADA AO DESPORTO NO FESTIVAL DOS BARCOS-DRAGÃO

Em terra onde o futebol está longe de ser rei, o desporto assume outras manifestações. O Festival de Barcos-Dragão é, para muitos, o principal evento desportivo de Macau logo a seguir ao Grande Prémio. Competição tipicamente chinesa, chegou a estar proibida no continente por Mao Tse Tung, mas sobreviveu em Hong Kong e Macau. No território, realiza-se oficialmente desde 1979, mas só três anos depois assumiu um caráter internacional. As suas origens remontam, todavia, aos anos 30 e 40, quando era disputada nas águas do Porto Interior.

Desenrola-se por três dias, este ano durante o fim-de-semana de 4 e 5 de Junho, com prolongamento no dia 9, o dia mais aguardado, pois permitirá ver em ação algumas das melhores equipas estrangeiras. O evento, disputado no Centro Náutico da Praia Grande, tem a chancela do Instituto do Desporto de Macau em conjunto com a Associação de Barcos de Dragão de Macau e a colaboração do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais. 

As regatas são um bom exemplo de como se pode misturar desporto com cultura e tradição. A competição é apenas um aspeto de uma festa carregada de história, que junta também gastronomia e espetáculos, num bom exemplo de comunhão e sã-convivência entre participantes e população em geral. O certame cativa também muitos turistas e, este ano, não foi exceção: as bancadas estiveram repletas. O entusiasmo do público foi, aliás, uma das imagens marcantes do certame, especialmente das claques dos operadores de jogo, que apostam forte na parte competitiva. A profusão de cores, com predominância do amarelo, laranja e vermelho, trouxe uma espécie de arco-íris às margens do Lago Nam Van. Nem a chuva, que ainda caiu, atrapalhou a dinâmica do festival. Afinal, parece que já é tradição ela aparecer por estes dias em Macau. 

As provas organizam-se, geralmente, em duas categorias, a Pequena Regata de Barcos-Dragão e a Grande Regata de Barcos-Dragão. A primeira envolve uma distância de 200 metros e é disputada por um total de 12 elementos, um no tambor, outro ao leme, e 10 a remar. Muitas empresas, associações, escolas e departamentos do Governo organizam as suas próprias equipas para participar nas regatas, com objetivos que podem ir da simples participação à disputa dos lugares cimeiros do pódio. Na grande regata, a distância aumenta para os 500 metros e a tripulação sobe para 22 membros. É a prova mais aguardada e disputada do torneio. 

As corridas dos profissionais são mais espetaculares, mas o verdadeiro espírito sente-se nas equipas informais, representativas dos mais variados setores de atividade da sociedade macaense. Aqui não se defendem bairros, como nas marchas populares portuguesas, mas antes classes de trabalhadores, e há, até, uma divisão entre setor público e privado. Neste último dominaram o Corpo de Bombeiros ,tendo vencido também a prova de 500 metros, em grandes embarcações, na categoria open. Na mesma competição, mas na categoria feminina, o MGM Macau arrecadou o primeiro lugar. 

Já no que toca à variante de pequenas embarcações, houve novo triunfo do Corpo de Bombeiros na prova masculina e, para não variar, mais uma operadora de jogo venceu nos femininos, neste caso, o clube de canoagem Baía do Mar. Na Regata Universitária em Pequenas Embarcações a Universidade de Macau foi a instituição que melhores resultados obteve, com um primeiro e um segundo lugar. A Universidade de Ciência e Tecnologia encerrou as contas da prova, na terceira posição. 

No dia anterior às corridas cumpriu-se a tradição, que levou as equipas participantes ao Templo de A-Má, onde ofereceram incenso à deusa. Também cumprindo um costume antigo, há quem ate folhas de toranja e gengibre à proa dos barcos, para afastar os maus espíritos. De tipo piroga, estreitos e com cerca de 10 metros de comprimento, os barcos personificam o dragão graças à cabeça colocada na proa e à cauda que fica na popa. 

DA LENDA À COMPETIÇÃO 

O Festival de Barcos-Dragão ultrapassa, como já referimos, a dimensão do mero desporto. As suas origens são tão antigas que há diferentes versões sobre os acontecimentos que o espoletaram. Certo é que as corridas estão profundamente enraizadas na cultura chinesa, e poderão ter tido como base lembrar a morte trágica de um grande poeta e ministro, Qu Yuan, que nasceu no ano 340 a. c., no distrito de Zi Kuai, província de Hubei. No início, aconteciam no 5º dia do 5º mês do calendário chinês, ou seja, em Junho. Atualmente, mantem-se o mês, mas os dias podem não coincidir. 

Qu Yuan era letrado e as suas obras literárias, sobretudo poesia, tinham um lugar de relevo na literatura chinesa da época. Com apenas 20 anos foi nomeado responsável pela administração interna e negócios estrangeiros, um dos mais importantes cargos do reino. O período em que viveu, na dinastia Zhou, foi marcado por violentos conflitos entre os sete reinos chineses, ficando conhecido como Período dos Reinos Combatentes. 

Os motivos para o suicídio de Qu Yuan são imprecisos. Uma versão fala de uma deslocação que fez com o imperador a um reino vizinho, enquanto conselheiro real, que foi mal sucedida. Outra aponta para a possibilidade de não ter suportado a tristeza de ver a capital do seu país – o Reino Chu — invadida pelas tropas do Reino Qin. Uma terceira possibilidade defende que se tratou da consequência do exílio a que foi condenado. Crítico, nos seus poemas, em relação à corrupção e decadência que assolava o seu estado, acabaria perseguido e acusado injustamente pela aristocracia local – até ao afogamento no rio Mi luo. 

Mas naquilo em que todas as interpretações históricas coincidem é na reação do povo à sua morte. Os pescadores varreram as águas em busca do corpo e, quando se preparavam para o resgatar, começaram a atirar bolinhos de arroz para saciar os monstros marinhos, ou simples peixes, ao mesmo tempo que batiam com os remos para os afugentar. O barco, neste contexto, simbolizaria o dragão, que representa a virilidade, o vigor e a fertilidade, mas também sabedoria, força, poder, proteção e riqueza. É um ser benéfico, um apanágio dos deuses. 

Qu Yuan marcou a literatura chinesa pelo emprego do estilo Sao Ti e é a principal referência do período Chu Ci. Os seus poemas, fortes em ideais nobres e de grande valor estético, destacam-se pelo recurso recorrente a mitos, lendas, fantasias, sentimentos arrebatados e de glorificação. Além disso, era um poeta que nutria um profundo amor pela pátria e pelo povo, em suma, foi um grande patriota. A sua obra exerceu, e continua a exercer, uma influência positiva na literatura e no espírito do povo. Hoje em dia, pelas façanhas e sofrimento que suportou, Qu Yuan é símbolo do espírito e da cultura da nação chinesa. 

BOLINHOS DE ARROZ PARA TODOS OS GOSTOS 

O Festival de Barcos-Dragão é também conhecido pelo Festival Tuen Ng, ou Duanwu, e é o dia (feriado) em que as famílias se reúnem para comer os tradicionais bolos de arroz, chamados zhongzi, acompanhados de vinho xiong huangjiu. De norte a sul da China, nas grandes cidades ou no interior, conforme o lugar, o recheio, a forma e o sabor da iguaria são diferentes. Há os salgados, à base de carne de porco, ou doces, feitos com feijão encarnado. Também podem ser chamados de «dumpling» (massa com recheio), em inglês, feitos com um arroz gelatinoso, e embrulhados em folhas de bambu ou de bananeira. 

A data está também ligada a certas crenças chinesas e assinala o início de um período importante na mudança das estações: espera-se que o ano seja abundante e tranquilo, livre da má sorte que está presente, por exemplo, nos desastres de verão. As cerimónias teriam, assim, como objetivo apaziguar o grande Dragão do Mar Oriental e outros deuses para evitar secas, inundações, pragas de insetos, ou epidemias. O lançamento de zhongzi ao rio era, por isso, inicialmente, uma oferenda na esperança de fertilidade e bons frutos durante o período estival. 

A festa dos barcos-dragão será, em suma, muito anterior ao suicídio de Qu Yuan – terá apenas coincidido com a data das festividades –, assim como o consumo dos bolos de arroz, que lhes está associado. No fundo, seriam uma especialidade sazonal, destinada a assinalar a chegada do Verão, e inserida no culto do Sol, numa época em que os agricultores faziam preces e ofertas para obter proteção para as sementeiras, colocando-as a salvo dos rigores da natureza. 

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Ícone na cultura desportiva

China NanHai Jiujiang foi no último fim-de-semana a grande vencedora da última edição das Regatas Internacionais de Barcos Dragão de Macau, tendo vencido as duas grandes finais: 500 metros, quer na categoria Open quer na competição feminina. Entre os concorrentes locais, o Corpo dos Bombeiros fez a festa na categoria Open, tendo o troféu das senhoras ficado nas mãos da MGM Macau.

Este ano, a exemplo dos anteriores, o público marcou forte presença no Centro Náutico da Praia Grande, quer no primeiro quer no segundo fim-de-semana. Nos dias 4 e 5 deste mês de Junho tiveram lugar as corridas de barcos-dragão destinadas aos concorrentes locais; tendo as regatas internacionais sido realizadas na quinta-feira, dia 9. Muito para além da competição, a festa em torno do evento faz já parte da tradição local, contando com um público entusiasta e muitas vezes composto por famílias, o que dá uma cor especial ao evento, sobretudo por força da presença de crianças entre a assistência.

As corridas dos barcos-dragão eram inicialmente organizadas em Macau por organizações não governamentais que, com esforço e paixão, garantiam anualmente a realização do evento. A partir de 1979, embora mantendo sempre o ritmo anual, o evento passou então a incluir regatas internacionais, organizadas a partir de convites endereçados a equipas de renome internacional, tais como a China, Hong Kong, Japão, Estados Unidos, Filipinas, Tailândia, Singapura, Coreia do Sul ou Austrália. Países, esses, que desde então têm marcado presença regular em Macau, contribuindo dessa forma para a afirmação internacional de um evento cuja organização é regra geral elogiada não só pelo público mas também pelos atletas e representantes dos países participantes.

Desde o estabelecimento da Região Administrativa Especial de Macau, para além da competição local, a Regata Internacional de Barcos-Dragão é organizada em conjunto pelo Instituto do Desporto e pela Associação de Barcos-Dragão de Macau/China. A junção das corridas dos barcos-dragão, muito apreciadas pela população local, com as Regatas Internacionais, transformou o evento num dos grandes ícones do IDM, dada a sua forte implantação na cultura desportiva chinesa. O nível da competição tem sido cada vez maior, atraindo milhares de atletas chineses e estrangeiros. A partir de 2001, as categorias de homens e senhoras da Universidade Internacional de Estudantes de Barcos-Dragão foram também integradas na competição.

No passado, as corridas foram realizadas quer na Baía da Praia Grande quer no Lago Sai Van. Mas desde a sua inauguração o Centro Náutico da Praia Grande passou a ser o local das competições. 

Os atletas sentam-se lado a lado, remando com pás de madeira, ao ritmo de tambores e gongos. O papel do tamboreiro é, de resto, muito importante. É ele que impõe o ritmo aos remadores que, tendo na sincronia e organização o grande trunfo, tentam fazer avançar a embarcação o mais depressa possível. 

A modalidade tem ganho adeptos nos mais diversos países, e não apenas na Ásia. Inclusive na Europa: em Portugal, por exemplo, já existem várias equipas, normalmente «alimentadas» por clubes de canoagem, que começaram a integrar a especialidade. A seleção de Macau, em particular, tem conseguido resultados encorajadores e a respetiva federação internacional bate-se por elevar estas corridas à categoria de disciplina olímpica. 

Macau brilha, Jiujiang dá festival

Com um orçamento de 15 milhões de patacas, a organização das Regatas Internacionais de Barcos-Dragão de Macau conseguiu este ano a maior edição de sempre deste evento. O número de participantes foi o mais elevado de sempre, come 3.580 remadores, distribuídos por 168 equipas, numa competição que por tradição alia o sentido de festa e sensação de pertença à cultura chinesa.

Do ponto de vista desportivo, apesar do brilharete conseguido pelas seleçõers de Macau de Macau, com um terceiro lugar na prova principal – Open – e um Segundo posto na prova feminina, o destaque vai claramente para domínio impressioante da formação de Jiujiang, cuja performance não tem qualquer paralelo na história da competição. Quer na categoria Open, quer na competição feminina, a China Nanhai Jiujiang voltou a bater os recordes em ambas as provas, somando agora sete vitórias nas onze edições para as quais se desloca a Macau. 

Do ponto de vista local, destacaam-se na leitura dos resultados os dois lugares no pódio conseguidos pelas seleções da Região Administrativa Especial de Macau. Na final mais importante da competição – Open –  disputada por seis equipas compostas por 14 remadores em cada embarção, a China Nanhai Jiujiang superou toda a concorrência, tendo percorrido os 500 metros da pista em 1m51s761. Em segundo lugar cortou a meta a Seleção Nacional da Tailândia, com um tempo cronometrado em 1m52s343. Os dois primeiros classificados receberam prémios no valor monetário de dez mil e cinco mil dólares norte-americanos, respetivamente. Nesta prova rainha do evento, a Seleção de Macau terminou no terceiro e último lugar do pódio, a cerca de três segundos do segundo lugar; resultado, esse, que, para além do mérito desportivo, lhes valeu também um prémio no valor de três mil dólares.

A China Nanhai Jiujiang somou desta forma a sétima vitória na categoria Open de grande embarcações, onde participa desde 2005, tendo recuperado uma tradição de vitórias e de títulos que lhes escapava desde 2012.

As remadoras da China Nanhai Jiujiang voltaram também a passear a classe já demonstrada no ano passado, exibindo uma superioridade incontestada em relação a toda a concorrência. Demonstração disso mesmo é que a Selecção de Macau, segunda classificada, ficou a mais de oito segundos de distância; à frente da equipa da MGM Macau, quer foi a terceira classificada. Os prémios monetários para os três lugares no pódio são idênticos aos da categoria Open: dez mil, cinco mil e três mil dólares, respetivamente. 

Paulo Rego

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