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Maria Fernanda Saraiva da Silva * – HUMOR E LIBERDADE DE EXPRESSÃO: OS PONTOS NOS IS

 

Uma coisa é o humor. Outra coisa, embora podendo estar incluída na primeira, é a liberdade de expressão. Outra ainda é a acusação infundada. E por fim, também esta distinta, a ofensa.

 

Os recentes e trágicos incidentes têm levado a acesas e apaixonadas discussões, na comunicação e redes sociais. Uma batalha dentro de outras batalhas. Parece-me, no entanto, misturar-se uma série de conceitos a criar barreiras na comunicação e importaria, por isso, esclarecê-los. Uma coisa é o humor. Outra coisa, embora podendo estar incluída na primeira, é a liberdade de expressão. Outra ainda é a acusação infundada. E por fim, também esta distinta, a ofensa. As fronteiras são ténues e nem sempre facilmente explicáveis o que leva a que, por vezes, estes conceitos se misturem e saltem as suas fronteiras fazendo-nos procurar, em vão, por uma espécie de quadratura do círculo. Ficamos baralhados, pouco esclarecidos, confusos. Vejamos então… O humor, no seu objetivo puro de nos fazer rir, revela o seu sinal de maior inteligência e evolução quando se traduz na capacidade de rirmos de nós próprios; dos nossos defeitos e feitios e fragilidades. Para este não há limites, ainda que negro – creio que, Deus, a existir, rir-se-á às gargalhadas com a nossa criatividade e ironia (não fomos feitos à sua semelhança?…). Os cartoons do jornal Charlie Hebdo, embora por vezes acutilantes, eram (são) a sua expressão no expoente máximo. Vamos rir! Dos dogmas, das verdades instituídas, das mortes, da vida – em suma: deixemos de nos levar tão a sério (e é tão bom aligeirar a vida enquanto aventura da qual, alguém dizia, não sairemos vivos)…

A liberdade de expressão é a possibilidade que temos num país democrático de expor as nossas opiniões e de as esgrimir com ideias contrárias, de forma arrostada e até, aceite-se, apaixonada. O facto de alguém criticar a opinião de outrem não é sinónimo de que não defenda essa liberdade: pelo contrário – estará a fazer valer a sua, que também existe. Coisa diferente (e neste ponto é que me parece, de facto, haver alguma confusão) será assumir como liberdade de expressão a acusação não fundamentada e a ofensa – podendo-se aplicar agora a máxima: “a minha liberdade termina quando começa a do outro”. Se eu disser que o meu vizinho muçulmano, por o ser, é assassino, isso extravaza a minha legitimidade. No entanto, para combater as acusações e as ofensas temos os meios legais ao nosso dispor. Não vamos portanto usar da força, nem cobrar “olho por olho” ou “dente por dente” à laia de tempos medievais já há muito inaceitáveis na nossa cultura ocidental. Muito menos iremos ceifar vidas de quem quer que seja – nem que de assassino se trate (por isso mesmo considerar eu uma tremenda barbaridade a pena de morte, não só pela impossibilidade de remissão implícita mas também pelo absurdo de, com a finalidade de se castigar o assassino, tornar-se o próprio Estado num deles). Criticar a cultura muçulmana, ou católica, ou evangélica é lícito e saudável.

Das grandes questões surge a evolução e abrem-se caminhos para o entendimento. Fazer humor com elas também o é – não somos a tal ponto importantes que nos possamos desprender da insignificância da nossa condição humana no mundo e no Universo. Portanto, em suma: expressemos as nossas ideias, concordando ou discordando, respeitando no entanto os limites do razoável, sejamos livres e acima de tudo, continuemos a rir, rir sempre, porque das tristezas e agruras bastarão as inevitáveis — como vaticinou Jean de Santeul: “ridendo castigat mores” — rindo, corrigem-se os costumes…

 

*P3/Portugal

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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