Paulo Rego - GRÁFICOS INVERTIDOS - Plataforma Media

Paulo Rego – GRÁFICOS INVERTIDOS

 

Algo está definitivamente a mudar na relação de forças da União Europeia. Os líderes dos governos italiano (Matteo Renzi) e francês (François Hollande) endurecem posições contra o pacto de austeridade que Angela Merkel continua a defender, antes clamando pelas autonomias nacionais e pelo direito a políticas orçamentais em contraciclo. Ou seja, abandonam a lógica do Banco Central germânico, privilegiando a injeção de capital estatal e a recuperação do crédito privado como fatores prioritários de promoção do crescimento económico. Mas é no seio do próprio governo alemão que emerge o maior foco de discórdia: o vice-chanceler da coligação governamental, Sigmar Gabriel (SPD) esteve recentemente em Lisboa, ao lado do socialista português António Costa e do novo líder da oposição espanhola, Pedro Sanchez (PSOE), no lançamento da Aliança Progressista. A tese essencial desta nova plataforma política está na crítica a uma estratégia que, supostamente, usaria a austeridade como instrumento circunstancial para a recuperação do crescimento, estando contudo a dar mostras de que mais não faz do que aprofundar a recessão.

Países como o Brasil e a China têm há muito chamado a atenção para as dificuldades acrescidas que a austeridade europeia tem provocado também nas economias emergentes, que em grande parte dependem das exportações. Mas há outras consequências sociais e políticas anexas aos males da austeridade cega – particularmente preocupantes – que se prendem com a proliferação de teses nacionalistas e de protecionismos retrógrados tradicionalmente fomentados em ambientes de crise e que se têm feito notar em vários países europeus. O que está hoje em causa é muito mais do que a mera sanidade das finanças públicas, mas sim a constrangedora incapacidade do Velho Continente em representar um papel globalmente positivo, quer no desenvolvimento económico, quer enquanto sistema de valores e de conquistas civilizacionais com influência planetária.

O controlo das contas públicas e a racionalidade da gestão da dívida não devem ser nunca descurados, mas é cada vez mais urgente recuperar uma consciência política humanista e mais sofisticada – por oposição aos excessos do chamado liberalismo – com a noção global de tudo o que está verdadeiramente em causa. A falência do Estado Social e a perda de direitos económicos, mas também de liberdades individuais e de garantias políticas afeta negativamente todo o mundo, numa altura em que a emergência de novas potências – em particular a China – aconselharia a um equilíbrio global de poderes com base na paz, na segurança, no crescimento económico e no multiculturalismo.

Se na Ásia vinga a tese da Quadratura do Círculo (Norbert Elias), segundo a qual não se podem perseguir direitos sociais e políticos, sem antes conquistar os direitos económicos, é conveniente que as elites políticas europeias percebam que, em sentido inverso, a perda de direitos económicos arrasta consigo a falência de muitas outras conquistas. A salvação da banca transnacional e do sistema financeiro não pode ser feita exclusivamente à custa do aumento dos impostos, da perda de direitos sociais e do fim do Estado Social, para além da suspensão de outros valores humanistas plasmados nas constituições europeias. O debate que isto lança é mais radical do que possa parecer. Porque o mundo parece estar virado do avesso, quando verificamos que o gráfico das conquistas, como aliás o das expectativas, é claramente depressivo a ocidente e crescente a oriente.

 

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