A FRELIMO QUE EU ABRACEI NÃO É A MESMA DE HOJE - Plataforma Media

A FRELIMO QUE EU ABRACEI NÃO É A MESMA DE HOJE

 

PLATAFORMA MACAU – Como observa a situação política em Moçambique, tendo em conta a recente crise político-militar e as eleições de outubro último?

MIA COUTO – Eu acho que nós estamos numa situação que é preciso arrumar a casa dentro das próprias forças partidárias. É preciso que tanto a Frelimo, a Renamo e Movimento Democrático de Moçambique (MDM) se acertem internamente para melhor percebermos que propostas trazem aos moçambicanos. Porque no fundo, a grande armadilha, é que estamos a discutir nomes e cores políticas, mas não estamos a discutir uma filosofia, uma proposta concreta para vermos o que é diferente nas ideias de cada um destes partidos.

Isso ficou claro no último congresso da Frelimo. Percebeu-se que existem propostas diferentes, mas estas linhas não são só pessoas são ideias. Em vez de discutirmos ideias, propostas do futuro, estamos a discutir nomes e isso não garante um futuro que nos habilita a sermos felizes. Agora, eu compreendo, isso são fases históricas. Por muito que eu pense que devia ser de outra maneira, a história é assim mesmo.

Há momentos que um homem só resolve os problemas de um país, como foi o caso de Samora Machel. A história pedia que nesse momento houvesse um homem que colocasse ordem. É verdade que agora não podemos pedir uma coisa que não é possível, mas temos de estar conscientes que temos de chegar lá, num momento em que nós estaremos a debater realmente ideias políticas. A campanha eleitoral, por exemplo, é uma coisa tão pobre. É uma distribuição de camisetas, música nos carros e desfile de viaturas. Mas quanto debate realmente houve sobre o país? Muito pouco.

 

P.M. – No início dos anos 70, o Mia Couto juntou-se à Frelimo, com o ideal da libertação e da construção de uma nação moçambicana. Anos depois, afastou-se do partido e, consequentemente, do cenário político moçambicano. Houve valores perdidos que o levaram a afastar-se do partido?    

M.C. – Sem dúvida,  também mudei. Eu percebi que a visão política, seja de um partido ou do outro, é sempre utilitária e imediata. É uma visão ligada ao poder. Eu não tenho nenhuma vocação para o poder, não o quero. Mesmo na vida quotidiana não quero que a minha existência se faça por imposição de um poder qualquer. Então, não foi só uma rutura política mas foi também uma rutura existencial. Eu percebi que aquele caminho não é meu, em outros termos, aquela não era minha praia. A Frelimo que eu abracei por uma causa na altura, e fui muito feliz nesse momento, não é a mesma de hoje. Não a reconheço. Esta é uma Frelimo dos empresários e dos ricos. Não que eu tenha problemas com os empresários, mas um coisa é confundir isso com a aposta política. Eu acho que tem de haver coerência dentro partido. A Frelimo não pode ser ontem comunista, depois capitalista, e agora neoliberal.

 

P.M. – São quase 40 anos de independência e 20 anos depois das primeiras eleições democráticas em Moçambique. Como observa a democracia no país atualmente?     

M.C. – Eu acho que cresceu naquilo que pôde crescer. O país não é o mesmo e aí é preciso tirar o chapéu para o governo. Criou-se um ambiente em que, apesar de ter alguns casos de apetência ao autoritarismo, as pessoas podem falar e podem pensar – o que não é comum nos países africanos. Agora, infelizmente existe essa ideia de que a democracia é uma coisa restrita ao momento de voto, mas a democracia é mais do que isso. É preciso que ela seja exercida, por exemplo, na capacidade que eu tenho de dizer coisas sobre o meu espaço e as grandes opções do meu país – o acordo ortográfico por exemplo.

 

P.M. – Atualmente, na esfera mundial, o debate sobre o potencial de Moçambique está muito ligado à questão dos recursos minerais, recentemente descobertos. Haverá outros trunfos que Moçambique pode apresentar além do potencial energético?     

M.C. – Sem dúvida. Esse país poderia oferecer outras oportunidades, caso da agricultura, do turismo, e mais. Mas isto implica possuirmos um pensamento estratégico que nós não temos. Nós trabalhamos sobre o imediato. Queremos repartir e negociar vantagens para grupos e para elites, não temos uma visão do futuro. É inconcebível, por exemplo, a agressão da polícia aos turistas em Moçambique. A forma com que os visitantes são recebidos pelos serviços alfandegários é inaceitável. É evidente que este visitante não mais voltará. Não conseguimos mudar isso, não temos força e nem poder para travar isto. Por exemplo, muita gente viria a Moçambique para ver a fauna bravia, mas temos parar a caça furtiva porque em breve não teremos mais parques.

 

P.M. – Quais são as principais ameaças à coesão social em Moçambique?       

M.C. – São as diferenças regionais, por exemplo, entre o norte, centro e sul. As diferenças por si só não são um problema, mas podem ser facilmente manipuladas por forças que fazem esse aproveitamento. A questão religiosa também pode ser manipulável. Eu não sei, por exemplo, até que ponto Moçambique vai ficar fora deste contexto em que uma certa radicalização do islamismo nos pode atingir também. Nós costumamos dizer que aqui é diferente, mas também se dizia a mesma coisa na Somália e no Quénia. Sabemos até que esse discurso de separação já está ser debatido por alguns partidos políticos, por exemplo, a Renamo (Resistência Nacional Moçambicana, maior partido da oposição) trouxe isso. Portanto, há realmente ameaças que colocam em causa à coesão social.

 

Estêvão Azarias Chavisso, Maputo 

 

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