Gilberto Lopes - PARA BOM ENTENDEDOR... - Plataforma Media

Gilberto Lopes – PARA BOM ENTENDEDOR…

Quando, em 2016, deixar a Presidência da República, Cavaco Silva terá na ligação a Macau e à China uma das vertentes mais marcantes do seu legado político. Nas funções de primeiro-ministro assinou a Declaração Conjunta luso-chinesa e tratou de alguns aspectos mais polémicos da transição – em 1994, desbloqueou com Li Peng a questão da nacionalidade e abriu a porta à discussão, no Grupo de Ligação Conjunto, do dossiê Fundação Oriente.

Esse contributo e intervenção política não foram, de resto, esquecidos pelos dirigentes chineses que o receberam agora no Palácio do Povo. XiJinping e Li Keqiang fizeram questão de o lembrar, o que representa que Cavaco Silva tem um capital político junto dos líderes da China.

Têm o Presidente e Portugal aproveitado essa simpatia e reconhecimento?

Parece-me que não. Hoje, como no passado, Lisboa não tem tido a arte e o engenho para tirar partido do excelente relacionamento político existente com Pequim. Cavaco Silva disse agora que as relações estão num patamar nunca alcançado, mas o que mudou, por exemplo, desde que, em 2005, Portugal e a China assinaram a parceria estratégica?

A questão das exportações de alguns produtos portugueses para a China não foi ainda totalmente ultrapassada, embora se fale agora em avanços no sector agro-alimentar.

As exportações portuguesas para o maior mercado mundial sofreram no último ano um recuo. Os primeiros meses deste ano podem ser animadores, mas a China representa apenas 1,7 por cento para as exportações portuguesas. Muito pouco, apesar de Pires de Lima, o ministro da Economia, se mostrar muito confiante em que se ultrapasse a fasquia dos mil milhões de euros em 2014.

Num mercado tão competitivo como o chinês, há lugar para as empresas portuguesas. Mas talvez fosse bom que uma política concertada em torno da marca Madein Portugal apostasse mais em cidades de menor dimensão e não se pensasse apenas em entrar em Xangai, Pequim ou Cantão, onde a concorrência é maior e a entrada mais complexa.

Na visita oficial à China, Cavaco Silva colocou grande tónica no turismo. Na captação de turistas e de investidores asiáticos, que começaram a comprar unidades hoteleiras na Europa, nomeadamente em Espanha.

As ligações aéreas directas são, por enquanto, um entrave ao desenvolvimento desse desiderato. O Presidente percebeu isso e revelou que os voos vão ser assegurados por companhias chinesas. Um dos empresários chineses que falou com Cavaco Silva disse que há 450 mil chineses interessados em visitar Portugal. Um número grande, como é norma na China, que por si só justificará as ligações. Vamos ver se na próxima visita oficial do Presidente da República ou do primeiro-ministro a comitiva pode utilizar já esse voo ou vai ser obrigatório recorrer a um percurso que faz escala em outros países, como sucedeu agora.

O ministro Rui Machete vai ter que pôr as barbas de molho, já que para responder aos desafios levantados pelo visto gold vai ser necessário reforçar os postos diplomáticos na China e não há dinheiro para isso. Vítor Sereno e os seus colegas devem ter ficado satisfeitos com as promessas deixadas pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, mas estamos habituados a que depois no terreno a situação seja diferente.

Positivo parece-me a cooperação e intercâmbio entre as universidades portuguesas e chinesas. Foram assinados vários acordos, mas mais do que isso devemos valorizar o que já está a ser feito.

No ensino e divulgação da língua, na investigação científica e na captação de alunos chineses. As melhores universidades lusas podem beneficiar do interesse existente na China de formar os seus quadros no exterior.

Nos últimos anos, Portugal beneficiou de três grandes investimentos chineses em sectores estratégicos. Fruto da situação que o país atravessa, do excelente momento financeiro chinês e da sua opção em comprar empresas europeias ou tomar fortes posições no seu capital social. O plano de privatizações portuguesas, designadamente ao nível dos transportes, poderá vir a concretizar outros investimentos chineses. O capital não tem nacionalidade e o papão chinês não deve assustar os portugueses.

Cavaco Silva não se fartou de sublinhar que o acompanhou em Xangai e em Pequim a mais importante comitiva empresarial de sempre. Peço desculpa, senhor Presidente, mas não concordo. Em 1994, fiz a cobertura da visita oficial do então primeiro-ministro português e apesar de o número de empresários ser inferior, a sua importância no tecido empresarial luso era totalmente diferente. Onde estavam agora homens de negócios como Ricardo Salgado, Belmiro de Azevedo ou Américo Amorim?

Por último, Macau. Portugal e a China têm motivos para manifestarem o seu apreço pelo que sucedeu em Macau desde Abril de 1987. E, sobretudo, pelos 15 anos da Região Administrativa Especial.

O acordo assinado entre os dois países que resolveu a questão de Macau é um exemplo para o mundo. Uma decisão sábia, como lhe chamou Cavaco Silva, que deverá contribuir para que Lisboa e Macau aprofundem ainda mais a relação, tendo em vista os interesses de ambas as partes.

Desde logo, que Portugal e Macau saibam tirar pleno aproveitamento das potencialidades do Fórum Macau. Nem Lisboa, nem a RAEM o têm feito. A propósito do reforço do ensino da língua portuguesa chamo a atenção para as declarações da professora Fernanda Gil Costa que alerta para a visão diferente dos responsáveis da Universidade de Macau e do Governo. Na reitoria há demasiada presença do eixo Hong Kong-Estados Unidos, mas Pequim e o Executivo da RAEM querem mais lusofonia. Como quem manda na Universidade de Macau é o Governo e o Chefe do Executivo, importa, portanto, tomar medidas para evitar males maiores.

No assunto mais aguardado pela comunidade portuguesa, o Presidente da República fez questão em sublinhar que as dificuldades existentes na obtenção dos pedidos de autorização de residência contradizem o que lhe foi dito pelo Chefe do Executivo. Fernando Chui Sai On foi claro na importância dada a comunidade portuguesa, portanto, nada pode justificar eventuais entraves à vinda de mais portugueses para Macau. Por outras palavras, os serviços competentes devem resolver o problema, caso contrário haverá choque entre o discurso político e o andamento dos processos.

O Chefe do Executivo disse ao Presidente português que Macau estimula a presença lusa em Macau. Não podemos, pois, assistir a uma prática diferente.

Em suma, um tema que não se deve protelar ou agravar, de modo a que num próximo encontro ao mais alto nível político seja necessário incluí-lo nas negociações.

Agora, não terá sido, já que o Chefe do Executivo foi claro no que disse sobre a comunidade.

Para bom entendedor… uma declaração deve chegar para acelerar a apreciação dos pedidos.

 

Gilberto Lopes

 

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