Henrique Raposo - O MUNDIAL É DOS DERROTADOS - Plataforma Media

Henrique Raposo – O MUNDIAL É DOS DERROTADOS

Sou um apaixonado por derrotados. A vitória sempre me pareceu desinteressante, insonsa, lisa. Ganha-se e pronto. A derrota, ao invés, tem tempero, é trágica, vai mais fundo. Não é por acaso que os grandes romances e filmes são sobre derrotados e não sobre vencedores. No fundo, a vitória é para a estatística, a derrota é para a literatura. Sim, o derrotado é o meu herói literário. Quando era pequeno, apoiava secretamente os alemães dos filmes de guerra e sempre tive um fraquinho pelos sulistas das séries sobre a guerra civil americana. Sem surpresa, mantive o fetiche perverso no futebol.

Quando um grande jogo termina, as faces dos vitoriosos compõem um quadro de pasmaceira. Na equipa vencedora encontramos onze réplicas do mesmo sorriso. É aquele sorriso monótono da criança que ainda se baba. Um babete para a equipa vencedora, por favor. O semblante da equipa derrotada é outra coisa. Tal como as impressões digitais, todos os rostos derrotados são diferentes uns dos outros. Na equipa perdedora não vemos uma monotonia colectiva, vemos dramas individuais, onze dramas pessoais e intransmissíveis. O primeiro chora parado no relvado, qual esfinge melodramática, o segundo chora a caminho do balneário, o terceiro está a formar uma úlcera porque reprime o choro, o quarto come a relva, o quinto quer empalar o árbitro, qual canibal em chuteiras, o sexto chora porque sabe que a mãe está a chorar numa aldeia do sertão brasileiro, o sétimo mete as mãos nos quadris, o oitavo fica de cócoras, o nono não chora, qual besta quadrada, o décimo informa o massagista que vai à bruxa e o décimo primeiro xinga o treinador no recato do seu pensamento.

É esta sinfonia de sofrimento que me interessa na história dos Mundiais, a começar precisamente pelo primeiro Mundial organizado pelo Brasil. Com a Europa destruída, os nossos irmãos tropicais organizaram o primeiro Mundial pós-II Guerra (1950). O escrete de Jair, Zizinho, Jair e Ademir era o grande favorito e atropelou os adversários (7-1 à Suécia, 6-1 à Espanha) antes do jogo decisivo com o Uruguai, de Obdulio Varela, Juan Alberto Schiaffino e Alcides Ghiggia. Num novíssimo Maracanã cheio até ao céu, o Brasil só precisava do empate para ser campeão, mas Ghiggia fez o 2-1 final para o Uruguai. O Maracanã emudeceu. Uma mosca teria soado a carga de elegantes. Duzentos mil espectadores desceram à condição de múmias naquele que foi o mais belo anti-clímax da história do futebol. Como era possível, meu Deus? O Brasil era a melhor equipa, o Rio já tinha milhões nas ruas numa espécie de Carnaval antecipado, a imprensa carioca gozava com os perna-de-pau defensivos e inofensivos do Uruguai, os nomes de Zizinho e demais craques já estavam gravados nas medalhas, Jules Rimet (Presidente da FIFA) até tinha um discurso em português para felicitar a equipa da casa. Mas, ao minuto 79, Ghiggia alterou as leis da gravidade, provocando o silêncio mais ensurdecedor da história brasileira, uma verdadeira vuvuzela de túmulo. Naquele dia, 16 de Julho de 1950, o Brasil falhou a sua primeira Copa e cometeu suicídio emocional. O país inteiro chorou como se tivesse perdido uma guerra apocalíptica. Como foi possível, Meu Deus? Ghiggia, a némesis, explica: “Três pessoas silenciaram o Maracanã: o Papa, Frank Sinatra e eu.” Todavia, o uruguaio não comemorou. Olhou para a arquibancada, emudeceu e percebeu logo ali que a figura central de 1950 seria sempre a dor brasileira.

Trinta e dois anos depois, o Brasil já tinha três Copas no bolso: 1958, 1962 e 1970, os três títulos mundiais da geração de Garrincha e Pelé. No Mundial de Espanha (1982), uma nova geração prometia esmagar o resto do mundo: Falcão, Sócrates e Zico tricotavam o meio-campo de forma sublime, era impossível não ficar maravilhado com o seu talento e também era impossível esconder a arrogância brasileira. Tal como em 1950, os brasileiros voltaram a pensar que a Copa era sua por direito divino. Mas Deus não esteve nem aí, fez gazeta futebolística, e a estética brasileira esbarrou novamente numa máquina defensiva.

Desta vez não foi o Uruguai composto por descendentes de italianos, foi mesmo a Itália a desfazer o sonho brasileiro. Um perna-de-pau italiano, Paolo Rossi, apeou o grande Brasil nos quartos-de-final. A Itália acabou por vencer o troféu, mas ninguém se lembra desta squadraazzurra.

Ninguém. No século XXI, o Mundial de 1982 ainda é recordado por causa da equipa mais elegante da história dos Mundiais, o Brasil de Zico e Sócrates. Não levaram o caneco para casa, mas entraram no Olimpo da bola. Uma mão-cheia de vitórias em Mundiais não chega aos calcanhares desta derrota lendária.

Novamente traumatizado, o Brasil começou a duvidar da sua arte e, em consequência, italianizou o seu futebol nos anos 80 e 90. Em 1994, apresentou-se ao mundo com uma roupagem irreconhecível. Se fosse vivo na época, Nelson Rodrigues teria escrito que o Brasil de Parreira e Zagallo era o anti-Brasil. A classe de Sócrates e as fintas de Garrincha deram lugar a três trincos trogloditas, Dunga, Mauro Silva e Mazinho. A prostituição, porém, deu resultado. Jogando com o ferrolho italiano, o Brasil serviu bem fria uma vingança à Itália, vencendo a final nos penáltis. Mas a grande imagem deste Mundial não foi a alegria dos brasileiros retranqueiros. Foi, isso sim, a tristeza do jogador mais talentoso da prova: Roberto Baggio. O italiano falhou o penálti decisivo, mas ninguém lhe tira a aura de génio. Baggio foi o Zico ou Zizinho de 94. Sim, o derrotado foi o herói daquele torneio. E o mesmo se passou no Mundial de 1966, o nosso Mundial. Aquela Copa devia ter sido nossa, e o resto do mundo também tinha essa consciência. É por isso que as lágrimas de Eusébio, no final da meia-final com a Inglaterra, correram mundo. Aquele choro embrulhado na camisola foi mais belo, místico e poderoso do que qualquer canto de vitória inglês. A Inglaterra levou o caneco, mas nós ficámos com a lenda.

Se calhar, o meu fetiche pelos derrotados não é assim tão estranho ou pervertido.

 

Henrique Raposo

 

 

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