O GIGANTE E AS SUAS CIRCUNSTÂNCIAS - Plataforma Media

O GIGANTE E AS SUAS CIRCUNSTÂNCIAS

A prodigiosa década de Lula da Silva e o consulado de Dilma Rousseff retiraram da pobreza 40 milhões de brasileiros. Antes de abrandar, em 2011, o crescimento do PIB tocou os 7%. O prejorativoBelíndia, das décadas de 80 e 90 – metade Bélgica, metade Índia – tornou-se obsoleto.

De um lado Romário, do outro Ronaldo. O despique é diário. Às portas do Mundial de Futebol, em 12 de Junho, os dois ícones da sua geração de futebolistas desdobram-se em entrevistas. Ronaldo é o rosto do Governo, sublinha o efeito multiplicador do investimento público num evento desta grandeza; Romário, o eterno rebelde, agora deputado federal em Brasília, justifica os multitudinários protestos no Rio de Janeiro e em São Paulo, denunciando que o apregoado “padrão FIFA” está longe de ser cumprido em matéria de segurança, saúde ou educação.
A contestação nas ruas era esperada. O investimento directo na copa ronda os 12,4 mil milhões de dólares americanos. Em 2016 o Rio de Janeiro receberá os Jogos Olímpicos.
Com Lula da Silva, a média anual de crescimento da economia brasileira oscilou entre os 4 e os 7%. A expansão do PIB arrefeceria para metade após a crise financeira de 2008 e 2009. O otimismo também, sendo hoje claro que o destino do Brasil se entrelaça com o dos Estados Unidos e, sobretudo, com o da China.

CHINA GLOBAL

Quando uma borboleta bate as asas em Xangai, há um vendaval no sertão. A erupção de uma classe média chinesa não é despicienda num país de 1,3 mil milhões de habitantes. E o Brasil, com os seus mais de 200 milhões, é um dos principais beneficiários dessa nova procura. Consequentemente, os preços das matérias-primas subiram em toda a América Latina, trazendo generosas mais-valias.
Ferro, soja e milho. Petróleo, muito petróleo, especialmente após a descoberta da megajazida de Tupi, em 2007, na Bacia de Santos. Só na primeira década do milénio, as exportações do Brasil para a China quadruplicaram. Em 2009, o gigante asiático destronou os EUA, tornando-se o principal cliente dos produtos brasileiros. Mas as relações com Pequim são muito mais que de compra e venda. Desenrolam-se a um nível eminentemente político. Pragmatismo ao mais alto nível. Não é raro ver um ministro dos Negócios Estrangeiros chinês em périplos pela América Latina. Venezuela, Chile e Peru também têm a China como seu melhor comprador. No caso argentino, Pequim é segundo do ranking.
O modelo de negócio – ou de desenvolvimento – é linear. Pequim compra matérias-primas, exporta tecnologia e, a troco da adjudicação de obras públicas, financia investimentos com juros bem mais baixos que o dos bancos e governos ocidentais.
Como sublinha a recém-inaugurada edição brasileira do diário espanhol El País, outro sinal dos tempos: “Entre 2004 e o primeiro semestre de 2012, a China anunciou 121 projectos em território brasileiro, que somaram mais de 25 mil milhões de dólares. No ano passado, os chineses marcaram presença no leilão do Campo de Libra, com perspectivas de exploração de petróleo da camada do pré-sal brasileiro.
Juntamente com a francesa Total, e a anglo-holandesa Shell, as petrolíferas chinesas CNOOC e CNPC uniram-se à Petrobras para garantir o fornecimento no longo prazo.”
Sucedem-se exemplos. Em Fevereiro, um consórcio liderado pela chinesa StateGrid conseguiu a adjudicação da Interligação Elétrica Belo Monte, no estado do Pará. Dois mil quilómetros de linha com duas estações conversoras de extra-alta tensão. Um modelo pioneiro para acabar de vez com os apagões.
A tendência é as encomendas chinesas se diversificarem nos cinco países do Mercosul (Brasil, Uruguai, Paraguai, Argentina e Venezuela). Por outro lado, o enriquecimento gradual do gigante asiático fará com que da proteína vegetal se caminhe para a animal. Mais negócio à vista, com o Brasil sempre à cabeça. Só em 2013, o sector agropecuário disparou 7%.

ROUSSEFF RESISTE

Num país imenso e pejado de megalópolis, a mobilidade é chave. Omnipresente. Na sequência dos protestos populares, Dilma Rousseff prometeu investir 22,8 mil milhões de dólares nos transportes públicos. A dependência das políticas monetárias adoptadas pela Reserva Federal em Washington é um dos calcanhares de Aquiles. A descida das taxas de juro e a redução dos estímulos à economia nos EUA poderão ter um impacto negativo sério nos países emergentes, alerta o ministro da Fazenda, Guido Mantega.
O desemprego está em mínimos históricos (5%), o salário mínimo subirá em 2015 para 311 dólares (mais 7,7%), a inflação – batalha histórica – parece razoavelmente controlada. Permanece alta, embora Guido Mantega assegure que ficará aquém do teto pré-definido de 6,5%. Dilma Rousseff assume-se como paladina da nova ordem digital. O caso Snowden, que expôs as escutas norte-americanas a vários chefes de Estado e de Governo – Rousseff incluída – faz com que o Brasil se bata pela gestão partilhada da Internet, contra a hegemonia norte-americana.
Quando se é o centro de todas as atenções as críticas chovem. A revista Forbes estima que, só em 2013, os brasileiros tenham perdido 53 mil milhões pela corrupção. TheEconomist, por seu turno, apelidava o Brasil de país “gloriosamente improdutivo”., por razóes que vão da subvenção governamental a empresas pouco rentáveis à contratação de amigos e familiares menos qualificados, porque os patrões têm medo de ser roubados.
O Fundo Monetário Internacional reduziu as projeções de crescimento económico – de 2,3 para 1,8% – o Índice do Clima Económico regista um recuo no optimismo dos empresários, mas o Brasil volta a confiar na locomotiva chinesa. A bazuca exportadora brasileira é de longo alcance e em Brasília fala-se de um crescimento do PIB, em 2014, de 2 a 2,5%. Mais umas décimas em 2015.
Dilma Rousseff parece resistir a todas as vicissitudes. As eleições presidenciais são já em outubro e, se nenhum cataclismo ocorrer, continuará no Palácio do Planalto.

João Lopes Marques

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