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UM CERTO MILAGRE AFRICANO

Retalhado por 10 ilhas, com apenas 500 mil habitantes e um território belo mas inóspito, a prosperidade em Cabo Verde é surpreendente. Impulsionado pela forte diáspora, pelo turismo europeu e pela identidade musical, o arquipélogo é hoje uma marca que, mesmo com a crise das contas públicas, permanece forte e singular: a alternância democrática e a pujança das instituições são exemplos continentais.

Quando Adriano Bettencourt Pinto sugeriu a criação de uma 11.ª ilha, em 1976, ninguém o levou a sério. Uma ilha verde, mais precisamente, com pouco mais de 10% de superfície arável. Cabo Verde precisava desesperadamente de área de cultivo. Bettencourt Pinto, engenheiro agrónomo, ainda se virou para o estado brasileiro do Paraná, mas o preço da terra desviou a tal “ilha”, com 10 mil hectares, para o Paraguai.
Só em Novembro de 2013 chegaria o primeiro carregamento de milho: 15 mil toneladas. Um pequeno passo para a auto-suficiência alimentar e controlo da flutuação dos preços nos mercados internacionais. Embora 40% da população viva no campo, 80% dos alimentos são importados. A pesca é incipiente, apesar dos bons stocks de lagosta e atum.
A ideia de Adriano Pinto espelha bem a paciência e a tenacidade de Cabo Verde, retirado em 2007 da lista dos Países Menos Desenvolvidos das Nações Unidas. Entre 2000 e 2010, o índice de pobreza recuou de 37 para 27%.
Quatro décadas de democracia  e pluralismo, com a alternância entre o Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) e o Movimento para a Democracia (MpD). É dos poucos países africanos onde não há golpes de Estado, o registo em matéria de liberdades civis, transparência e ambiente de negócios é exemplar. Nos rankings de boa governação continental, Cabo Verde surge normalmente na segunda posição, apenas batido pelas Maurícias.
A esta imagem junta-se uma decidida aposta cultural levada a cabo pelo ministro da tutela, Mário Lúcio Sousa.
A música vem à cabeça, naturalmente. Cesária Évora, desaparecida em 2011, eterniza-se como uma das principais vozes da worldmusic. Os funanás, mornas e coladeiras são hoje património mundialmente reconhecido.
Daí a importância da AtlanticMusic Expo, que anualmente junta músicos unidos pelo Atlântico. Na segunda edição, há um mês, o Brasil compareceu em força. Em paralelo, o Kriol Jazz Festival mostra-se nas ruas da Praia, a capital do país. Já vai na sexta edição.

CULTURA E TURISMO

Cabo Verde é mestiçagem. Ou, como sublinha Mário Lúcio Sousa: “Dez ilhas a meio caminho de três continentes; uma língua materna que absorveu palavras de todas os idiomas; um arquipélago seco, nem cabo nem verde.”
A economia de Cabo Verde assenta no turismo. Três aeroportos internacionais foram inaugurados nos últimos anos – ao do Sal juntam-se os da Boavista, Santiago e São Vicente, todos construídos por consórcios portugueses. Entre 2000 e 2010, o turismo cresceu seis vezes mais depressa do que o Produto Iinterno Bruto (PIB). Representa hoje quase 20% da economia e emprega 5% da população activa.
A taxa de desemprego atinge os 16%.
Sol, mar e morabeza, a proverbial hospitalidade cabo-verdiana. Grandes investimentos italianos e portugueses, principalmente do Grupo Pestana, catalisaram esta expansão. Em 2011 nasceu a Escola de Hotelaria e Turismo, em parceria com a cooperação luxemburguesa. O turismo de cruzeiros duplicou em 2013 e há vários resorts de luxo em construção, com capitais britânicos, alemães e espanhóis, entre outros.
As secas são periódicas, mas a volatilidade no Mediterrâneo desvia turistas para Cabo Verde, que apregoa a sua posição estratégica: água do mar entre 22 e 25 graus o ano inteiro, a quatro horas de voo da Europa e das Américas e a meros 500 quilómetros da costa africana.
O mercado britânico lidera, com mais de 20%, seguido de um trio com cerca de 12% cada: França, Portugal e Alemanha.  Entretanto emerge o nicho dos casamentos no arquipélago, promovido por grandes operadores como a Thomson ou a FirstChoice.
A meta é duplicar a cifra e atingir em 2020 um milhão de turistas – o dobro dos habitantes. A pobreza e o desemprego fomentaram a emigração.

A FORÇA DA DIÁSPORA

Há cerca de 700 mil cabo-verdianos espalhados pelo mundo. A maior comunidade vive na Nova Inglaterra, Costa Leste dos EUA (500 mil). Seguem-se Portugal (100 mil), Holanda, Angola e Senegal. As remessas emigrantes equivalem a 20% do PIB.
Portugal é de longe o maior parceiro comercial, representando quase 45% das importações de Cabo Verde. Também por isso, a crise na Europa fez baixar o crescimento económico. Dos antigos 6%, estagnou em 2013. As contas públicas estão desequilibradas e o Fundo Monetário Internacional propõe a redução do investimento em infraestruturas, o que afeta severamente o desenvolvimento.
Com uma dívida pública acima dos 100% do PIB, a preocupação instala-se: há menos investimento estrangeiro, menos turistas de bolsos cheios, menos assistência internacional – Cabo Verde é vítima do seu próprio sucesso.

GLOBALIZAÇÃO

A adesão à Organização Mundial de Comércio, em 2008, espelha bem a aposta na globalização. Foi o primeiro país africano a fazê-lo. De resto,  os Presidentes da República – Pedro Pires até 2011, Jorge Carlos Fonseca desde então – apostaram na captação de investimento estrangeiro para aliviar a permanente tensão da aridez natural.
Tal como com a paraguaia Ilha Verde, plantada junto ao lago Itaupu, o arquipélago pressente que a solução pode vir de longe. Os mercados americanos, como os asiáticos, são essenciais para a necessária deseuropeização. Urge diversificar. Em África, o tema é sensível, como há dias lembrava a DeutscheWelle: “Cabo Verde recebeu de Luanda dez milhões de euros para o Orçamento de Estado de 2014. O porquê do reforço da presença de Angola no país em dificuldades financeiras suscita alguma polémica.” Solidariedade lusófona, ou ambição da elite angolana em toda a costa ocidental africana? Eis a questão.

João Lopes Marques

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