As moedas digitais dos bancos centrais são versões digitais da moeda oficial emitidas diretamente por autoridades monetárias. Ao contrário das criptomoedas privadas, como a Bitcoin, as CBDC são controladas pelos bancos centrais e representam uma obrigação direta dessas instituições.
Segundo um levantamento do Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) publicado em 2025, 91% dos 93 bancos centrais analisados estavam a explorar uma CBDC de retalho, de uso público, ou uma CBDC de grosso, destinada a instituições financeiras. O estudo indica que muitos projetos avançaram sobretudo para aplicações relacionadas com pagamentos entre instituições e operações transfronteiriças.
A discussão sobre o impacto das CBDC no dólar surge num contexto em que a moeda norte-americana mantém uma posição dominante no sistema financeiro internacional. O dólar continua a ser a principal moeda de reserva mundial e desempenha um papel central no comércio internacional, na faturação de bens e nos mercados financeiros globais, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Uma das áreas onde as moedas digitais podem introduzir mudanças é nos pagamentos internacionais. Atualmente, muitas transferências entre países dependem de redes de bancos correspondentes, que podem envolver vários intermediários. Os pagamentos transfronteiriços tradicionais enfrentam desafios relacionados com custos, velocidade, transparência e complexidade operacional, de acordo com um relatório conjunto do BIS, do FMI e do Banco Mundial.
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Projetos de CBDC transfronteiriços procuram testar alternativas a este modelo. Um dos exemplos é o mBridge, desenvolvido pelo BIS em conjunto com o Banco Popular da China, a Autoridade Monetária de Hong Kong, o Banco da Tailândia e o Banco Central dos Emirados Árabes Unidos, com a participação posterior da Arábia Saudita. O projeto testa uma plataforma baseada em tecnologia de registo distribuído para permitir transações internacionais utilizando moedas digitais emitidas por bancos centrais, segundo o BIS.
O mBridge atingiu a fase de Produto Mínimo Viável (Minimum Viable Product) em 2024, permitindo testar operações com valor real entre participantes do projeto, de acordo com o BIS. A iniciativa permanece numa fase de desenvolvimento e avaliação por parte das instituições envolvidas.
A China tem sido um dos países mais avançados no desenvolvimento de uma moeda digital soberana. O yuan digital, ou e-CNY, entrou em fase piloto em várias cidades chinesas a partir de 2019 e continuou a ser testado em pagamentos domésticos e aplicações internacionais. Pequim tem promovido o uso do e-CNY como parte da modernização do sistema de pagamentos, embora a moeda continue distante do dólar em utilização global.
Na Europa, o Banco Central Europeu (BCE) está igualmente a desenvolver o euro digital. O projeto pretende criar uma forma digital de dinheiro público para pagamentos de retalho, complementar ao dinheiro físico e aos atuais meios de pagamento privados, de acordo com o BCE.
Apesar da expansão destes projetos, a adoção de CBDC não implica automaticamente uma redução da utilização do dólar. A posição internacional de uma moeda depende de fatores como a dimensão da economia emissora, a liquidez dos mercados financeiros, a confiança institucional e o peso dessa moeda no comércio mundial.
A evolução das tecnologias financeiras pode influenciar o sistema monetário internacional, mas uma alteração da posição de uma moeda dominante depende de fatores económicos e institucionais mais amplos, segundo o FMI.
Além das CBDC, outros instrumentos digitais têm sido considerados no debate sobre pagamentos internacionais, incluindo as chamadas stablecoins, moedas digitais privadas normalmente associadas a moedas tradicionais. Estes ativos podem alterar a forma como alguns pagamentos são realizados, mas também levantam questões relacionadas com estabilidade financeira, regulação e política monetária, de acordo com o FMI.
Para já, as moedas digitais dos bancos centrais representam sobretudo uma mudança tecnológica na infraestrutura financeira. Os projetos em desenvolvimento procuram modernizar pagamentos e criar novos modelos de interoperabilidade entre sistemas nacionais, mas não alteraram a posição central do dólar no sistema monetário internacional.