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Europa quer reduzir dependência da China sem rutura económica. O que está a travar Bruxelas

A União Europeia endureceu nos últimos anos o discurso sobre dependências estratégicas ligadas à China, mas continua longe de uma separação económica estrutural de Pequim. Entre preocupações geopolíticas, pressão industrial e crescimento económico fraco, vários governos europeus mantêm uma abordagem pragmática em relação à segunda maior economia do mundo

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A posição oficial europeia tem sido resumida através do conceito de “de-risking”, ou redução de riscos, e não de “decoupling”, expressão utilizada para descrever uma separação económica total. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou em março de 2023 que a relação com Pequim precisava de ser “recalibrada”, mas sublinhou que “não é viável, nem do interesse da Europa, separar-se da China”, num discurso dedicado às relações entre a União Europeia e Pequim antes de uma visita oficial ao país.

Desde então, Bruxelas tem procurado reduzir dependências consideradas críticas, sobretudo em áreas como semicondutores, baterias, matérias-primas críticas e tecnologias verdes. Ainda assim, os números mostram que a interdependência económica permanece elevada.

A China manteve-se como o principal fornecedor de bens da União Europeia e o terceiro maior destino das exportações europeias, segundo dados do Eurostat referentes a 2024. As importações provenientes da China atingiram cerca de 525,74 mil milhões de euros, enquanto as exportações europeias para o mercado chinês rondaram os 213,5 mil milhões.

A dependência é particularmente visível em setores estratégicos. A China controla cerca de 90% da capacidade global de refinação de terras raras, segundo um relatório publicado pelo Parlamento Europeu em novembro de 2025. Pequim domina também grande parte das cadeias globais de produção ligadas a painéis solares, baterias elétricas e minerais críticos necessários à transição energética.

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Ao mesmo tempo, grandes empresas europeias continuam fortemente expostas ao mercado chinês. A China permanece um dos principais mercados mundiais para grupos automóveis alemães como Volkswagen, BMW e Mercedes-Benz, que mantêm operações industriais e comerciais relevantes no país.

A Alemanha surge assim como um dos exemplos mais claros da dificuldade europeia em reduzir dependências económicas. Apesar do endurecimento gradual do discurso político em Berlim, setores industriais alemães continuam a defender estabilidade nas relações económicas com Pequim.

Em maio deste ano, a ministra alemã da Economia, Katherina Reiche, deslocou-se à China para reuniões económicas bilaterais. A governante afirmou que a relação económica entre os dois países continua a exigir “cooperação e concorrência”, segundo a Reuters. As divisões internas na União Europeia também dificultam uma estratégia comum mais agressiva em relação à China.

Bruxelas tem reforçado investigações sobre subsídios estatais chineses, excesso de capacidade industrial e concorrência considerada desleal, incluindo no setor dos veículos elétricos. Ainda assim, vários Estados-membros continuam cautelosos em relação a medidas que possam desencadear retaliações comerciais chinesas.

A Alemanha continua a resistir a uma linha europeia mais confrontacional em relação à China devido à forte exposição da sua indústria ao mercado chinês, segundo a Euronews.

Hungria e Grécia mantêm igualmente relações económicas relevantes com Pequim, sobretudo em áreas ligadas a investimento industrial e infraestruturas. A presença chinesa no porto grego do Pireu, operado pela empresa COSCO, continua a ser frequentemente apontada como um dos principais exemplos da influência económica chinesa no sul da Europa.

Portugal mantém igualmente uma relação económica relevante com a China, sobretudo nas áreas da energia, banca, seguros e infraestruturas. Ao longo da última década, empresas chinesas adquiriram posições em grupos portugueses como a EDP, REN, Fidelidade e BCP, num período em que Portugal procurava captar investimento estrangeiro após a crise financeira.

Apesar de Bruxelas ter vindo a reforçar mecanismos de controlo sobre investimento estratégico estrangeiro, Lisboa continua a defender uma abordagem relativamente pragmática em relação a Pequim. A China representou também um dos principais mercados asiáticos para exportações portuguesas ligadas ao vinho, cortiça e produtos alimentares.

Nos últimos anos, o Governo português tem procurado equilibrar a relação económica com Pequim com o alinhamento estratégico europeu e transatlântico, sobretudo em áreas sensíveis como telecomunicações, infraestruturas críticas e segurança tecnológica.

Por outro lado, países como a Lituânia adotaram posições mais críticas em relação à China nos últimos anos. Em 2021, Vilnius autorizou a abertura de um gabinete de representação de Taiwan utilizando a designação “Taiwan” em vez de “Taipé”, decisão que levou Pequim a impor restrições comerciais à Lituânia, segundo a Comissão Europeia.

Para Alicia García-Herrero, economista sénior do centro de estudos Bruegel, a Europa enfrenta uma dificuldade estrutural: reduzir riscos sem comprometer setores industriais altamente dependentes da China.

Num relatório publicado pelo Bruegel em 2024, García-Herrero e Abigaël Vasselier defendem que a estratégia europeia deverá passar por uma lógica de coexistência com redução de riscos, combinando proteção industrial, diversificação de fornecedores e maior coordenação estratégica entre Estados-membros.

A incerteza em relação aos Estados Unidos também influencia o cálculo europeu. O regresso de Donald Trump à Casa Branca reacendeu receios sobre tarifas comerciais, tensões transatlânticas e possíveis mudanças no compromisso norte-americano com aliados europeus.

Em janeiro deste ano, Katherina Reiche afirmou que “alianças em que confiávamos começam a desmoronar-se”, numa referência às crescentes tensões comerciais e estratégicas internacionais.

Nesse contexto, vários governos europeus procuram evitar uma dependência excessiva tanto de Washington como de Pequim, mas sem provocar uma rutura económica que poderá ter custos elevados para a própria Europa.

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