Debaixo de sol e chuva, mais de 300 povos originários participaram de uma marcha de cerca de cinco quilómetros até à Esplanada dos Ministérios, no âmbito do Acampamento Terra Livre (ATL), a maior mobilização indígena do Brasil.
Entre os participantes estavam estudantes indígenas universitários, muitos oriundos da Amazónia, na região Norte, que estudam nos grandes centros do país, a milhares de quilómetros das suas comunidades.
“Não basta só colocar indígenas nas universidades, também é importante ajudá-los a permanecer”, disse à Lusa o estudante de sociologia Genival Laranhaga, de 26 anos, do povo Ticuna, ao lado de outros 50 colegas da mesma faculdade do interior de São Paulo.
Também estudante, Emerson Chaves de Oliveira, do povo Baré, aluno de uma pós-graduação em língua indígena numa universidade pública no Rio de Janeiro, defendeu a importância de políticas de permanência no ensino superior e da ocupação desses espaços pelos povos originários.
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Na sua opinião, os direitos indígenas resultam da luta dos seus ancestrais e precisam de ser preservados. “Temos que estar nesses espaços, porque, caso contrário, perdemos o nosso protagonismo e a possibilidade de ‘territorializar’ a universidade através da nossa voz e da nossa presença”, destacou o educador.
Além de cartazes com denúncias sobre a violência contra indígenas, a mobilização incluiu discursos de lideranças ao longo do percurso, com apelos à demarcação de territórios e ao reforço da presença indígena na política brasileira.
A deputada federal Célia Xakriabá, de Minas Gerais, em conversa com a Lusa, alertou para a ausência de reeleição de indígenas no Congresso e defendeu estas candidaturas como forma de ação climática. “Votar pela candidatura indígena é votar por uma candidatura climática real no Brasil”, declarou Xakriabá.
Durante a marcha, os manifestantes entregaram uma carta de reivindicações, com sete páginas, à Presidência brasileira e ao Ministério de Minas e Energia, denunciando ameaças aos direitos indígenas e exigindo o fim de políticas que permitam a exploração de recursos naturais em territórios indígenas sem consulta prévia.
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No Ministério das Relações Exteriores, foi também apresentado um documento com uma proposta global para a eliminação dos combustíveis fósseis, alinhado com os debates do ATL 2026 e centrado na proteção dos territórios indígenas e na justiça climática.
Em comunicado, o coordenador-executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Dinamam Tuxá, afirmou que não existe transição energética justa sem garantir os territórios indígenas.
“São medidas concretas de enfrentamento à crise climática. Quando o mundo ignora isso, escolhe manter um modelo que destrói a vida”, sublinhou.
A edição deste ano do ATL decorre sob o lema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”, colocando em foco as eleições de 2026 e o avanço da mineração em terras indígenas.
Durante o protesto, também houve referências ao Presidente brasileiro, Lula da Silva, com elogios a medidas como a criação do Ministério dos Povos Indígenas, mas críticas à defesa da exploração de combustíveis fósseis, nomeadamente do petróleo, na Amazónia.
O cantor Chico César, presente na marcha sublinhou em declarações à Lusa a importância da causa indígena para a preservação ambiental e apelou ao apoio da sociedade brasileira.
“Sou descendente de indígenas também e também sou parente. Acho que marchar pelo povo indígena é marchar com a vida. A vida inteira do planeta está ameaçada e o principal defensor do meio ambiente e da natureza é o povo indígena”, declarou o artista do Estado da Paraíba.
A mobilização, que teve início no domingo, prossegue até sábado, com assembleias, fóruns e ações políticas, reforçando a pressão sobre o Governo brasileiro para a proteção dos povos originários e dos seus territórios.