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A voz feminina do Nüshu

No Dia da Mulher, o Festival Literário de Macau - Rota das Letras - deu voz ao Nüshu, uma antiga escrita feminina chinesa, num workshop orientado por Pan Shengwen - fundadora do Projeto de Desenvolvimento Artístico Nüshu -, que resumiu o espírito da sessão numa frase: “Todas as mulheres do mundo formam uma só família de irmãs”.

Carol Law

Participantes de diversas nacionalidades trauteavam suavemente cânticos em Nüshu com a ajuda do pinyin – sistema oficial de romanização do mandarim, enquanto se familiarizavam com esta caligrafia singular, ou desenhavam os caracteres, experienciando esta antiga forma de “confidência entre amigas íntimas”.

“Macau é uma cidade plural e inclusiva, onde as culturas do Oriente e do Ocidente se cruzam”, diz Pan Shengwen. “O workshop [realizado no âmbito do Festival Rota das Letras] conta com participantes que falam diferentes línguas, mas todos aprendem a mesma cultura e sentem uma identificação mútua. Esta é precisamente a materialização do conceito de ‘irmãs de uma só família’”, explica ao PLATAFORMA.

O Nüshu é um sistema de escrita exclusivo para mulheres que, no passado, era popular na região de Jiangyong, na província de Hunan, tendo sido incluído, em 2006, no primeiro lote do Património Cultural Imaterial a nível nacional. Os caracteres apresentam-se em formato de losango inclinado, assemelhando-se a folhas de salgueiro.

O Nüshu não se limitava a ser escrito em papel ou seda; podia ser tecido em cintos e lenços, bordado em rendas ou inscrito em leques, sendo também transmitido oralmente sob a forma de baladas. O seu conteúdo abrangia confidências íntimas, votos de irmandade, entre outros, constituindo um precioso património vivo para o estudo da história das mulheres chinesas e da cultura popular.

Macau é uma cidade plural e inclusiva, onde as culturas do Oriente e do Ocidente se cruzam – Pan Shengwen, fundadora do Projeto de Desenvolvimento Artístico Nüshu

Transmitido de geração em geração, de mães para filhas e nunca para homens, e devido ao rigoroso costume de “queimar os escritos após a morte da autora”, as obras sobreviventes são extremamente raras. O registo mais antigo encontrado até à data, é uma moeda de cobre cunhada nos finais da dinastia Qing (1644 – 1912), na qual se encontra gravada em Nüshu a frase: “Todas as mulheres do mundo formam uma só família de irmãs”.

Nascida na década de 2000, Pan Shengwen fez desta prática a sua vocação desde que teve o primeiro contacto com a cultura Nüshu, há quatro anos. A sua criação artística centra-se na caligrafia Nüshu, tendo também lançado um projeto artístico de cariz solidário baseado no conceito “Património Cultural Imaterial + Cocriação Pública”. O seu objetivo é sensibilizar mais pessoas para os dilemas do desenvolvimento feminino e ajudar as mulheres a crescerem e a tornarem-se nas suas melhores versões.

Salvação digital

Em 2002, foi inaugurado o Museu Ecológico do Nüshu de Jiangyong, em Hunan, que ao longo dos anos tem divulgado e preservado esta cultura através de diversos meios. Recentemente, o museu foi alvo de obras de renovação, passando a promover e a transmitir o Nüshu através de Realidade Aumentada (RA) e de outras apresentações digitais. O governo de Jiangyong tem também organizado cursos de formação em Nüshu, onde Pan Shengwen assume o papel de formadora.

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He Yanxin, a última transmissora natural do Nüshu (uma praticante nativa que viveu a cultura Nüshu no seu ambiente original), faleceu em outubro do ano passado. Atualmente, existem apenas 11 herdeiras desta escrita.

Relativamente à salvaguarda do Nüshu, Pan Shengwen mostra-se otimista, graças aos projetos de intervenção social desenvolvidos pelo governo e por um grupo de estudantes universitários, em colaboração com diversas instituições de ensino, levando o Nüshu a sair dos museus e integrando-se na comunidade.

“A nossa intenção inicial era criar um projeto solidário com impacto na vida das pessoas. Já organizámos dois festivais de arte e realizámos vendas de beneficência, cujos fundos foram doados para ajudar mais pessoas, como mulheres que lutam contra o cancro ou raparigas de regiões montanhosas isoladas”, diz Pan ao PLATAFORMA.

Respeitar a cultura

À medida que o Nüshu ganha maior visibilidade, um número crescente de pessoas tem utilizado este tema para as suas criações. Face às diferentes interpretações, Pan Shengwen sente que, no passado, havia quem extrapolasse a sua cultura de sofrimento e lamentação; contudo, na nova era, o foco tem-se deslocado gradualmente para uma perspetiva mais positiva, demonstrando que “a cultura assume diferentes formas de expressão consoante a época”.

A redução do Nüshu a meros símbolos revela, na sua essência, uma falta de respeito pela cultura; quem a respeita verdadeiramente, procura compreender a sua origem e evolução – Pan Shengwen, fundadora do Projeto de Desenvolvimento Artístico Nüshu

Pan sublinha também um conceito proposto pela Professora Zhao Liming, da Universidade de Tsinghua: vivemos atualmente a “Era Pós-Nüshu”, e o desenvolvimento e a transmissão corretos desta cultura na nova era constituem um desafio de extrema importância: “O objetivo é não permitir que a cultura se desvirtue, um trabalho que exige o esforço conjunto de todos nós”, afirma.

Assim, o Nüshu não é um mero acessório, mas sim “o registo dos sentimentos autênticos de pessoas que existiram de facto naquela época”. E “a redução do Nüshu a meros símbolos revela, na sua essência, uma falta de respeito pela cultura; quem a respeita verdadeiramente, procura compreender a sua origem e evolução”, diz Pan ao PLATAFORMA.

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No entanto, reitera que não se opõe à criação artística inspirada no Nüshu. Deu como exemplo a obra Nüshu, do conceituado compositor chinês Tan Dun: “Os criadores alargam as fronteiras culturais, promovendo a interseção entre a música, a dança e o Nüshu, dando origem a algo totalmente novo”.

A sociedade e a época estão em constante avanço, não se podendo exigir que o Património Imaterial permaneça estritamente no seu ambiente original: “O Mestre Tan Dun disse que, na salvaguarda do Património Imaterial, a inovação é o mais importante – inovar com base na tradição”.

“Ao adotarmos uma abordagem de cocriação no workshop de hoje [dia 8 de março], esperamos também inspirar ideias inovadoras nos participantes, de modo a proteger e a transmitir melhor esta cultura”, diz.

“Na Gala da Festa da Primavera deste ano, foi citado um verso da poetisa Li Qingzhao: ‘Não precisa de tons de verde claro ou vermelho escuro, pois é, por natureza, a flor de primeira classe’. As flores apresentam-se em múltiplos estados; não importa se é uma peónia, um lírio ou uma flor de lótus, cada uma pode desabrochar com a sua própria beleza”, conclui Pan.

 

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