O mundo que hoje nos assalta atira-me a cabeça para a reflexão de Agnes Lam na Voz do Cidadão, secção que co-assina neste jornal: “A força anti-globalização está a consolidar-se em várias partes do mundo. Qual é a relevância disto para Macau? O certo é que, enquanto cidade que se apresenta como ‘plataforma’ e ‘porta de entrada’, Macau sempre esteve na vanguarda da globalização”. Belíssima questão; até porque, se todos os blocos políticos virarem costas uns para os outros, menos espaço haverá para Macau andar no seu ADN global.
Não há palavras para esta diplomacia das armas: Washington ameaça negociar – dispara a matar. O regime iraniano não faz sentido; contudo, o farol antes democrático, multilateral e humanista, extingue-se neste novo terror de Estado. O belicismo atlântico não é pior na Palestina, Venezuela, ou Irão… do que o de Putin na Ucrânia; mas já não tem defesa nem explicação. Trump é o que é; Netanyahu o braço anjo mau; e este é o inferno que nos queima a todos.
Que papel pode – e quer – ter Macau neste contexto? Já agora, que espaço está Pequim disposta a dar-lhe? Certo é que uma pequena região administrativa, por muito especial que seja, só pode dar asas à política se tiver rede e mandato para isso. E, já agora, se for capaz de construir essa imagem junto do resto do mundo.
Está encerrado o ciclo do futuro sem fim: baby boom; direitos políticos, económicos e sociais; humanismo, multilateralismo e globalização… tudo ao mesmo tempo e sempre a crescer. A realidade hoje é a do défice de expectativa; inversão de ciclo; espaço público minado por dislates nacionalistas, protecionistas, xenófobos e discriminatório; poder belicista… Que medo!
Como pode Macau atrair investimento para a Grande Baía, ligar mundos separados? Talvez a resposta “não passe por lutar contra a maré”; mas, “tal como fizeram os nossos antepassados, por refletir e procurar um novo lugar e papel num cenário em transformação”, diz Agnes, novamente com razão.
Ser ou não ser mediador – eis a questão. Mas que outra coisa pode ser quem nasceu para não ser outra coisa? Afinal, é a fraca política que ergue os muros que fecham as portas ao entendimento. Se tudo tem de ser repensado – e parece que tem – não tem necessariamente de ser em recuo; quiçá possa mesmo ser com passos em frente.
Macau nunca foi realmente palco de mediação internacional, apesar da experiência acumulada entre Lisboa e Pequim. Foi muitas vezes local de refúgio, convívio, consensos… Nunca foi, de facto, como em tempos foi Viena de Áustria; como ainda hoje é Genebra: círculos de eficiência, com know-how de gestão, capazes de reunir massa crítica de vários quadrantes; multiplicar fóruns económicos, culturais… e políticos.
A oportunidade é abrir as portas do entendimento a um conceito mais vasto e premente: fazer da paz e da globalização um eixo da própria diversificação económica de Macau. Em primeira instância, com rede e mandato da China; depois, atraindo Portugal, Brasil, toda a Lusofonia – e, aqui sim, também o mundo hispânico – a um palco que, pela sua História, cultura, e geografia, se entrega à busca de novos consensos. O mundo precisa muito disso – e não pode excluir a China.
Respondo a Agnes com esta proposta: alargar o conceito do Fórum Macau à criação de diversos fóruns de mediação académica, diplomática, científica, comunicacional… muito para lá das trocas comerciais e financeiras. Claro está que, não tendo política externa, a RAEM só pode ser o palco que a China oferece ao mundo como local de encontro. Uma coisa é certa: MICE mais importante que este não há.