À medida que a noite cai, a agitação de Macau vai diminuindo. Para o artista Filipe Dores este é o momento mais confortável do dia. “A noite é relativamente silenciosa; é possível rever realmente o que aconteceu na cidade ao longo do dia, ou até da semana”, diz ao PLATAFORMA. O hábito nasce de uma juventude algo rebelde: “Eu era bastante traquinas, saía normalmente à noite e dormia de manhã”. Essa rotina acabou por moldar a sua forma particular de observar a cidade.
Falando do ponto de partida do seu trabalho, Filipe Dores admite que começou com uma ideia “egoísta”. “Queria criar um espaço para mim próprio refletir. Um espaço muito silencioso, até algo apertado”, explica. “Em qualquer cidade há demasiadas coisas a acontecer, demasiadas distrações. No início queria apenas dar a mim próprio um lugar para pensar”.
Com o tempo, esse espaço íntimo passou a tocar muitas outras pessoas. “Fui percebendo que todos precisam de um espaço visual para passear pela cidade, acalmar-se e organizar lentamente as emoções”.
Pinto pormenores ligeiramente diferentes da perceção objetiva para expressar melhor o sentimento absurdo entre memória e realidade
As pinturas de Filipe Dores são conhecidas pela delicadeza, mas o artista sublinha que não procura a verdade objetiva: “Muitos acham que é muito realista. Para mim é antes uma apresentação de memórias”. Na sua arte, introduz deliberadamente pequenas diferenças em relação à realidade: “Pinto pormenores ligeiramente diferentes da perceção objetiva para expressar melhor o sentimento absurdo entre memória e realidade”.
Bairros antigos e edifícios não são apenas tijolo e telha para Filipe Dores, mas “a vida e as memórias de todos”. Esse vínculo vem da infância, ao observar o avô construir maquetas arquitetónicas. “O meu gosto por edifícios nasceu com o meu avô. Ele fazia modelos como o Clube Militar de Macau ou o antigo edifício dos Correios. Cresci ao lado dele a vê-lo construir, como se fossem peças de Lego”.
“Imitar o passado”
Ao falar da sua obra “Hotel Estoril”, o artista revela emoção. A pintura, que levou um ano a concluir, não estava inicialmente destinada a ser exposta ao público. “Guardei-a em casa. Depois surgiu um concurso e o espaço era a Galeria Tap Siac. Pareceu-me destino”, recorda. Exibi-la enquanto o edifício era demolido criaria, segundo o artista, uma tensão mais forte para o espectador.
“O Hotel Estoril é um lugar lendário, quase um castelo estrangeiro, um elemento crucial no desenvolvimento de Macau”. A complexidade arquitetónica foi o maior desafio: apenas os elementos decorativos exteriores consumiram grande parte do tempo de trabalho.
Cada pessoa guarda memórias diferentes do edifício. “Lembro-me de ver um carro antigo junto à entrada quando era criança. Muitos não se recordam, mas alguns mais velhos confirmam e começam a contar histórias”.
Alguns edifícios recentes já não procuram ser modernos, mas mais portugueses – uma percepção um pouco tardia
Dores observa ainda as transformações da cidade: “Perdemos um modo de vida e a mudança foi passiva”. Ao mesmo tempo, nota que a nova arquitetura tenta imitar o passado: “Alguns edifícios recentes já não procuram ser modernos, mas mais portugueses – uma percepção um pouco tardia”.
O pintor reconhece que viver exclusivamente da arte é difícil. “Ser pintor a tempo inteiro em Macau é complicado. A base de colecionadores é limitada e não pode comprar indefinidamente”. Por isso, muitos artistas recorrem ao “ensino ou a outras profissões”.
Na sua opinião, falta sobretudo educação artística. “A maioria das pessoas acredita que não precisa de arte. Poucos têm quadros ou esculturas em casa. Sem isso, o espaço de sobrevivência da arte desaparece”. Ainda assim, nunca deixou de criar: “Mesmo com menos tempo, continuo. Gosto profundamente de criar”.
Dualidade estética
De ascendência macaense, sente-se privilegiado por combinar educação ocidental e influência cultural chinesa: “Consigo compreender duas estéticas diferentes”. Essa dualidade reflete-se no seu trabalho: simultaneamente “conservador no cuidado técnico” e ousado nas “escolhas”, sem se preocupar excessivamente com “opiniões externas”.
No entanto, a morte da mãe abalou-lhe a motivação artística, levando-o a perceber que “parte do meu esforço era provar algo à minha mãe”. A experiência levou-o também a reconsiderar o papel da arte: “Sem sociedade não há artistas. Uma obra é bem-sucedida quando cria ressonância com as pessoas”, explica ao PLATAFORMA.
Filipe Dores recusa definir uma obra-prima: “A melhor obra é sempre a próxima”, diz. Estabeleceu também uma regra pessoal – nunca pintar duas vezes o mesmo lugar. Por isso nunca retratou as Ruínas de São Paulo: “Sinto-as mais como atração turística do que como ligação pessoal”.
Considera ainda que a preservação patrimonial deve ser repensada, defendendo maior investimento na manutenção dos edifícios históricos.
Sem sociedade não há artistas. Uma obra é bem-sucedida quando cria ressonância com as pessoas
Além da pintura, tenta conservar a memória urbana através da gestão de espaços. Mantém uma casa de chá, um restaurante privado e um ateliê em edifícios antigos. “Se posso manter um lugar aberto através de um negócio, preservá-lo é uma boa escolha. Nunca farei algo que viole a estética do espaço.”
Aos jovens criadores aconselha coragem, sublinhando que o “mais importante é não ter medo do desânimo”, incentivando-os ainda a viajar e conhecer outras realidades para “descobrir o seu próprio caminho”.
Quanto a si, continua fiel aos passeios noturnos. “Prefiro pintar perto da meia-noite, quando tudo fica silencioso.” Na cidade movimentada, Filipe Dores procura criar, na tela e nos espaços que habita, um lugar onde memória e emoção possam continuar a existir.