Embora a data oficial não esteja ainda confirmada, a escolha de Portugal como primeiro destino oficial do Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, não é um mero gesto protocolar, muito menos um ato isolado: é uma declaração estratégica. Ou seja, consolida a missão de Macau ser plataforma com os Países de Língua Portuguesa.
Logo no início do seu mandato, o líder da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) assumiu a prioridade relacional com Lisboa; consolidando uma prioridade alinhada com Pequim: Macau como ponte entre a China e os Países de Língua Portuguesa; ambição, essa, agora alargada também ao espaço ibero-americano.
Em declarações oficiais; e, por maioria de razão, em deslocações institucionais a Portugal, o Executivo da RAEM tem repetidamente sublinhado que “Macau continuará a desempenhar o papel de plataforma de serviços para a cooperação económica e comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, promovendo benefícios mútuos e desenvolvimento partilhado”. Fórmula que se repete em comunicados conjuntos e enquadra politicamente a prioridade atribuída a Lisboa.

A base desta relação é histórica. Por um lado, após a transferência de Administração, em 1999, o princípio “Um País, Dois Sistemas” preservou a matriz jurídica e cultural que distingue Macau no contexto chinês; por outro, Portugal mantém-se como interlocutor europeu natural da RAEM, quer pela circunstância da herança jurídica comum, quer pela centralidade na articulação com o espaço lusófono.
Neste contexto, a primeira visita oficial de Sam Hou Fai a Lisboa é entendida como sinal de continuidade institucional e de confiança bilateral.Mais que mera consequência da memória histórica, o simbolismo diplomático serve uma estratégia concreta, com epicentro no Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa.
Sediado na RAEM desde 2003, o Fórum Macau reúne representantes da China e de todos os países lusófonos sob uma lógica de cooperação nas áreas do comércio, investimento, finanças, infraestruturas, agricultura e formação de quadros. Nos seus planos de ação plurianuais, o Fórum Macau identifica a RAEM como “plataforma de serviços” e centro de coordenação multilateral.
A legitimação política deste papel tem sido reiterada ao mais alto nível. Em diferentes intervenções, o Presidente Xi Jinping vem reafirmando que a RAEM deve “aproveitar plenamente as suas vantagens únicas e reforçar o papel de plataforma entre a China e os Países de Língua Portuguesa”. Na sua última visita oficial à Região, Xi frisou que Macau deve consolidar-se como “ponte de ligação para a abertura do país”; expressão repetida em vários comunicados do Governo central, e amplamente citada pelas autoridades locais.

Sam Hou Fai tem alinhado o seu discurso por essa orientação estratégica. Em intervenções públicas, logo após ter tomado posse no cargo, vem sublinhando que Macau irá “aprofundar a cooperação com os Países de Língua Portuguesa e expandir o alcance da plataforma, reforçando a integração na estratégia nacional de desenvolvimento”.
Em várias notas oficiais, o Chefe do Executivo tem defendido que a diversificação económica de Macau passa pelo fortalecimento dos serviços financeiros, mediação comercial e cooperação internacional – pilares diretamente ligados à função de plataforma.
Na prática, a plataforma lusófona assenta em três dimensões operacionais: a primeira é institucional – coordenação de missões empresariais, facilitação de investimento, serviços de tradução jurídica e económica e articulação com câmaras de comércio e agências públicas. A segunda é financeira – promoção de liquidações em yuan, desenvolvimento de produtos financeiros transfronteiriços e apoio a serviços profissionais capazes de interligar empresas chinesas e lusófonas. A terceira é humana e cultural – bolsas de estudo, formação bilingue e intercâmbios universitários que sustentam uma geração de quadros com competências em português e chinês.

Portugal desempenha aqui um papel charneira: para empresas interessadas em África ou no Brasil, Macau pode funcionar como ponto de contato com investidores chineses; para empresas chinesas que pretendem entrar em mercados lusófonos, a articulação com Lisboa facilita enquadramentos jurídicos e parcerias estratégicas.
De resto, também as autoridades portuguesas; por si, ou em comunicados conjuntos, têm reiterado que a cooperação com Macau constitui via privilegiada para intensificar relações económicas com a China.
Nos últimos anos, esta estratégia que inclui Macau como um dos eixos da política externa chinesa conheceu uma evolução: a abertura a países de língua espanhola. Embora o núcleo do Fórum Macau mantenha a sua composição lusófona, a RAEM tem promovido contatos e iniciativas que integram também parceiros hispano-falantes, sobretudo na América Latina.
A lógica que sustenta esta extensão geoestratégica é sobretudo económica, uma vez que muitas cadeias de valor regionais cruzam mercados lusófonos e hispânicos. Ao ampliar o seu escopo, Macau aumenta a sua relevância potencial também como intermediário ibero-americano.
Este alargamento alinha-se com as prioridades de conectividade internacional da China e reforça a utilidade estratégica da RAEM. Ao combinar herança histórica, enquadramento jurídico próprio e apoio político central, Macau procura transformar capital simbólico em influência económica tangível.
A visita inaugural a Portugal assumida por Sam Hou Fai sintetiza essa equação: é um gesto de memória histórica, mas também um movimento de posicionamento geopolítico. Ao reafirmar Lisboa como primeira paragem, o Chefe do Executivo projeta continuidade institucional e ambição renovada: consolidar Macau como ponte credível entre a China, a Lusofonia e, progressivamente, o espaço ibero-americano – com respaldo político explícito de Pequim e enquadramento multilateral no Fórum Macau.