As “Duas Sessões”, que recentemente tiveram lugar em Pequim, clarificaram o enquadramento político do futuro da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM). Mais do que novas diretrizes, documentos e discursos frisam o contributo que se exige à cidade para o desenvolvimento nacional. E é nesse caminho que se ergue também a diversificação económica. A síntese é clara: o desenho está feito e a pátria vai ajudar… mas não quer ambiguidade, aumenta pressão e exige resultados.
Há uma linha de duplo sentido no relatório do Governo apresentado pelo primeiro-ministro Li Qiang: por um lado, sublinha-se o apoio contínuo de Pequim a Macau; por outro, reforça-se a necessidade de integrar a RAEM na estratégia e nos objetivos do desenvolvimento nacional. Diz o documento que se deve explorar as vantagens únicas de um duplo suporte: apoio da Mãe-Pátria e ligação histórica ao mundo.
A orientação política teve reflexo imediato no discurso em Macau, onde o Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, reconhece e explicita os dois desígnios estratégicos da RAEM: integração regional e abertura internacional. Certo é que, nesta fase, tem dado foco prioritário ao compromisso de assumir um papel mais ativo na estratégia de desenvolvimento nacional.

A mensagem de Pequim consiste em duas dimensões inseparáveis: apoio político e exigência estratégica. E é neste contexto que se organiza o futuro de Macau, em torno de três eixos fundamentais: diversificação económica, integração regional e afirmação da plataforma sino-lusófona, agora com potencial de extensão ao espaço ibérico.
O verbo é fazer
A diversificação económica deixa de ser mero desígnio local; passa definitivamente a constituir uma prioridade inscrita no próprio enquadramento político nacional. O relatório apresentado em Pequim garante apoio ao desenvolvimento de novas indústrias, incluindo finanças modernas, inovação tecnológica e saúde. Mas é no contexto da economia chinesa que enquadra a exigência de um crescimento em qualidade, menos dependente da expansão quantitativa.
A mudança de paradigma coloca a Macau uma exigência estrutural: transformar o seu modelo económico, de forma consistente e mensurável. Estando há muito definida a estratégia “1+4”, que aponta a direção; o desafio não é o de identificar setores prioritários; mas na capacidade de os executar, transformando-os em motores reais de crescimento. Mais do que um exercício programático, é um teste à capacidade de reposicionamento no contexto da economia chinesa.
A diversificação define objetivos, mas a integração regional, por excelência, é o mecanismo que a concretiza. Pequim sublinha a necessidade de aprofundar a integração como fórmula para acelerar a diversificação, enquadrando-a no desenvolvimento integrado do país. Naturalmente, com particular ênfase na articulação com a Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau.

A visão é clara: o desenvolvimento de Macau não se entende de forma isolada, mas sim como parte de um sistema económico regional mais amplo. Hengqin assume papel central nesse discurso orientador central, que assume a ilha – pelo menos em parte – como extensão funcional de Macau, que de outra forma não acederia a atividades que ultrapassam a sua escala territorial.
A integração regional está longe de se limitar à sua dimensão física e geográficas. Antes implica coordenação institucional, circulação de capital, partilha de dados e de talento, bem como um alinhamento progressivo de regras e práticas. O Governo Central nesta altura acredita que a profundidade e a velocidade da integração acabarão por definir a capacidade de Macau transformar a intenção estratégica em realidade económica.
O terceiro eixo – plataforma sino-lusófona – continua a ser o elemento mais distintivo do posicionamento da RAEM, embora seja também o que enfrenta mais pressão para evoluir. Pequim mantém a orientação de reforçar o papel da cidade como plataforma de cooperação com os Países de Língua Portuguesa e ponto de ligação ao exterior, no contexto de iniciativas mais amplas de abertura. Contudo, a natureza dessa função está a mudar.
Ambição e complexidade
Já não se trata apenas de facilitar trocas comerciais ou de sustentar uma dimensão diplomática. A cooperação sino-lusófona está a deslocar-se para áreas mais complexas, tais como serviços financeiros, harmonização de normas, arbitragem e redes conhecimento. Evolução, essa, que exige interações mais sofisticadas, capazes de operar entre sistemas distintos e de gerar valor, precisamente pela força motriz dessa interseção.

Neste contexto surge uma hipótese estratégica adicional: a extensão desta lógica ao espaço ibérico, nomeadamente a Espanha. Não para substituir a vocação lusófona, mas sim para a ampliar, por via de modelos de intermediação que podem ganhar escala europeia e reforçar a relevância internacional da RAEM. Transição que implica uma mudança qualitativa: de plataforma ancorada na História para uma infraestrutura contemporânea de articulação entre sistemas económicos, jurídicos e financeiros.
As “Duas Sessões” não apresentam qualquer rutura estratégica na trajetória de Macau; contudo, tornaram mais exigente e complexa a sua execução. O enquadramento político está definido, as prioridades conhecidas e o apoio garantido. O ponto-chave é agora o da capacidade: da orientação estratégica aos resultados concretos.
Num contexto de crescente competição entre cidades e plataformas internacionais, Macau mantém vantagens únicas. Contudo, esse ativo só é relevante se for mobilizado com clareza de propósito, coerência estratégica e consistência na execução.
Mais do que um ponto de chegada, a visão que emana das “Duas Sessões” é a da hora do teste. Não ao potencial de Macau, amplamente conhecido – e reconhecido – mas à sua capacidade de o concretizar.