Jogo a subir; logo, também o Produto Interno Bruto – que dele depende – e ligeiro aumento da taxa de desemprego. Em Janeiro, a receita bruta nos casinos atingiu 22,63 mil milhões de patacas, mais 8.04% que em dezembro último; mais 24% que em período homólogo do ano passado. E o número mais estruturante é o que compara essa performance com o período pré-pandémico: mais de 90% dessa miríade. O PIB cresce 4.7%, mais de metade que em 2024 (8.08%), lidando em 2025 com uma base maior; e o desemprego aumenta pela primeira vez em seis meses, para 1.8%. Ainda assim, muito dentro do que Organização Mundial do Trabalho considera pleno emprego (3%); e cada vez mais residual entre os residentes. O setor da construção é o que dá o sinal mais preocupante de paralisia.
São números invejáveis, em qualquer geografia e modelo económico; mostram uma recuperação consistente do Jogo, desde a Covid-19; e controlo do desemprego. Mas deixam também a nú os problemas estruturais que persistem; pese o discurso oficial revelar plena consciência desse desafio do novo ciclo político: há muito poucos – ou mesmo nenhuns – sinais sérios de diversificação económica; aliás, como o próprio Chefe do Executivo tem repetidamente reconhecido.
Não há investimento local nem massa crítica para dar o salto, e o rentismo e a proteção da empregabilidade local bloqueiam essa aquisição fundamental
Há mais dois outros dois gatos escondidos: a especulação imobiliária era o maior contributo para o PIB não Jogo – alimentado pela economia paralela que ele gerava – e a deflação do metro quadrado; evidente quer em espaços comerciais, quer residenciais, prenuncia cada vez menos investimento no setor. Construtores locais queixam-se de que o preço de venda já dificilmente suporta o custo de construção; e o investimento público é sorvido pelos gigantes do Continente, que baixam radicalmente o preço proposto em concursos. Por outro lado, a empregabilidade é garantida sobretudo à custa do bloqueio à mão de obra externa; não há sinais de revitalização dos postos de trabalho, sobretudo os de alto nível de qualificação, que são a base do crescimento económico. Esse é o grande desafio no médio prazo; só que o consenso político e social prolonga o nó-górdio. Não há investimento local nem massa crítica para dar o salto, e o rentismo e a proteção da empregabilidade local bloqueiam essa aquisição fundamental.
As soluções teóricas são óbvias, mas não a capacidade de as pôr em prática. Várias cidades da Grande Baía – para não ir mais longe – apostam em programas de atração de investimento externo e massa crítica estrangeira bem mais sedutores que Macau; a ideia peregrina de que seriam os casinos a investir na diversificação cai de podre sem nunca ter sido madura; e não pode ser o Governo a empreender o futuro. Pode regular políticas, incentivos fiscais, promover o crédito e criar fundos de investimento, indicar setores preferenciais, investir em infraestruturas… mas não pode fazer os negócios nem garantir a produtividade.
Há um novo consenso que é urgente gerar: instruir bem melhor as novas gerações, da pré-primária às universidades; formar intensivamente quem já está no ativo; desburocratizar o Estado e criar um ambiente mais amigo do investimento… e, sobretudo, por mais medo que haja da concorrência e da competitividade, assumir que é mesmo preciso, no curto e no médio prazo, investimento e massa crítica de fora. A começar pelo Continente, porque é de onde tem de vir o primeiro grande impulso; mas também da Lusofonia, do mundo hispânico, seja lá de onde for; porque essa identidade é mesmo a única mais-valia que pode jogar na Grande Baía.
*Diretor Geral do PLATAFORMA