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Matar jornalistas é matar a verdade

Fernando M. Ferreira*

Seis jornalistas foram mortos em Gaza num ataque direcionado contra uma tenda de imprensa junto ao hospital Al-Shifa. Não foram vítimas colaterais: foram deliberadamente visados, segundo organizações internacionais, por exercerem o seu direito — e o nosso — de informar. A sua morte junta-se a quase 200 jornalistas assassinados na Faixa de Gaza desde o início da guerra, um massacre sem precedentes.

Num detalhe tão revelador quanto perturbador, as Forças de Defesa de Israel (IDF) disseram que as “provas” que justificariam o ataque que matou seis jornalistas são classificadas. A opacidade é total: morrem jornalistas, “acreditem nas provas que temos, mas não mostramos”.

Enquanto silencia quem dá testemunho da realidade, Israel discute com o Sudão do Sul a possibilidade de “transferir” palestinianos de Gaza naquele país africano devastado por conflitos. É parte de um esforço mais amplo para facilitar uma “emigração” em massa. Para um Sudão do Sul financeiramente depauperado, qualquer aliança (Israel, Estados Unidos), benefício económico e segurança diplomática é bem-vinda.

Muitos palestinianos desejam sair temporariamente para escapar à guerra e a uma fome à beira da catástrofe, mas rejeitam de forma unânime uma reinstalação permanente fora da sua pátria. Temem que Israel nunca permita o regresso e aproveite uma saída massiva para anexar Gaza e avançar com colonatos judaicos – ilegais, de acordo com a lei internacional. Ainda assim, mesmo quem quer sair, dificilmente arriscará viver num dos países mais instáveis e perigosos do mundo.

Estes jornalistas mortos eram testemunhas diretas dessa catástrofe humanitária e dos dilemas existenciais que o povo de Gaza enfrenta. Nas páginas centrais da nossa edição de hoje, damos voz a Abdulrahman e Hadeel, o casal por detrás da conta @Two_Gazans, que mostra ao mundo, através das redes sociais, a fome extrema, a escassez de água e o desespero que se vive no enclave. A vida que descrevem — cozinhar com plástico e roupa velha, escolher entre regar culturas ou beber água, assistir a corpos que colapsam pela falta de nutrientes — é precisamente o tipo de realidade que jornalistas como os que foram mortos documentavam.

Numa entrevista recente, Netanyahu declarou sentir-se numa “missão histórica e espiritual” de construir a Grande Israel — tése sionista de expansão territorial e soberania sobre a Palestina e partes da Jordânia, Líbano, Síria e Egito.

Este supremacismo étnico, marginalização e limpeza étnica do povo palestiniano, é o verdadeiro objetivo final de Netanyahu: expansionismo religioso, custe o que custar. E isso diz tudo sobre o que vemos todos os dias acontecer na Palestina. E sem jornalistas, fica bem mais fácil.

* Editor-chefe do PLATAFORMA

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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