Início » Vida e resistência em Gaza

Vida e resistência em Gaza

O conflito em Gaza dura há mais de dois anos, com o bloqueio militar de Israel e as restrições fronteiriças a provocarem uma catástrofe humanitária sem precedentes. Em plena crise, um casal, Abdulrahman e Hadeel, que geria um negócio de marketing de conteúdos, decidiu documentar, através das redes sociais, as dificuldades reais que enfrenta no dia a dia. O PLATAFORMA falou com o casal para conhecer as suas estratégias de sobrevivência e a sua vida quotidiana em tempo de guerra

Inês Lei

Abdulrahman e Hadeel destacaram-se num programa local de incubação de ‘startups’, conseguindo um financiamento de 6000 dólares para lançar a sua empresa de marketing de conteúdos, em 2022. O negócio abriu oficialmente em setembro de 2023, mas, apenas um mês depois, o ataque do Hamas a Israel desencadeou uma guerra, forçando-os a suspender o seu projeto.

Em janeiro de 2024, o casal criou a conta de Instagram @Two_Gazans. Ao contrário da visão predominante nos meios de comunicação, que mostram Gaza apenas como um cenário de ruínas e bombardeamentos incessantes, a sua conta atraiu 100 mil seguidores no primeiro dia e conta atualmente com 142 mil. Este alcance permitiu-lhes chegar a um público mais vasto — sobretudo nos países ocidentais — e mostrar ao mundo a verdadeira realidade de Gaza. “As pessoas estão habituadas a ver Gaza apenas através da lente do sofrimento — e sim, o sofrimento é real. Mas nós escolhemos mostrar outro lado: esperança e resiliência no meio da dor”, explicam ao PLATAFORMA.

Todos os dias acordamos exaustos, com dores e fraqueza. Por vezes, as pessoas parecem bem num momento e, no seguinte, colapsam — tudo por causa da fome, porque as nossas necessidades mais básicas estão a ser negadas

Segundo diversos relatórios das Nações Unidas, mais de metade dos 2,2 milhões de habitantes de Gaza enfrentam fome, enquanto o Programa Alimentar Mundial afirma que um terço da população passou dias sem comer. O casal de @Two_Gazans afirma que a “escassez de água é o problema mais crítico”. Todos os dias começam à espera dos camiões de abastecimento — se os perdem, ficam sem qualquer água potável. Mesmo quando conseguem este recurso precioso, deparam-se com escolhas impossíveis: “utilizá-lo para regar culturas prestes a morrer ou para beber e manter a higiene básica”.

Cozinhar tornou-se um risco para a saúde. Com a escassez de combustível, queimam “madeira, sacos de plástico e até roupa velha” como fonte de calor, enchendo os pulmões com fumo tóxico. Entretanto, os preços dos alimentos dispararam — uma refeição simples custa entre 50 e 60 dólares (400 e 500 patacas), enquanto um quilo de tomates pode custar entre 40 e 50 dólares (300 e 400 patacas).

“Os nossos corpos estão a ceder”, dizem @Two_Gazans.. “Não comemos uma refeição decente há meses — sem carne, sem frango, nem sequer proteína básica. Todos os dias acordamos exaustos, com dores e fraqueza. Por vezes, as pessoas parecem bem num momento e, no seguinte, colapsam — tudo por causa da fome, porque as nossas necessidades mais básicas estão a ser negadas”.

No meio da devastação, o apoio dos seguidores tem sido o maior conforto. “As mensagens de carinho e encorajamento lembram-nos que não estamos sozinhos nesta luta”, partilham @Two_Gazans. Ainda assim, dizem que a realidade torna cada vez mais difícil manter a esperança. “Todos os dias, mais pessoas a perdem. Para nós, a esperança é a única coisa que nos mantém vivos. Quando se perde a esperança, perde-se tudo”.

Fugir para sobreviver

O casal admite: “Se as fronteiras abrirem, sairemos de Gaza sem hesitar. Isto já não é um lugar para viver — apenas destroços, cinzas e areia. A cidade transformou-se num deserto”. Quando lhes perguntam para onde querem ir, respondem: “O que queremos é simplesmente viver uma vida normal, algo que já não é possível em Gaza neste momento. A nossa esperança é sair de Gaza, e estamos a tentar de todas as formas possíveis concretizar isso. Infelizmente, a única opção realista para nós é pedir evacuação e imigração… porque a vida aqui tornou-se insuportável. Pedimos aos países europeus que nos apoiem e ajudem, para termos uma oportunidade de segurança, dignidade e um futuro”.

Se as fronteiras abrirem, sairemos de Gaza sem hesitar. Isto já não é um lugar para viver — apenas destroços, cinzas e areia. A cidade transformou-se num deserto

Recentemente, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, anunciou planos para assumir o controlo total da Faixa de Gaza. Sobre este assunto, o casal afirma que é algo difícil de aceitar, mas que, ao mesmo tempo, já atingiram um estado de entorpecimento. “Honestamente, mesmo que nos dissessem que poderíamos morrer amanhã, não mudaria muito. No passado, sentíamos muito medo, mas agora o medo desapareceu; ficámos insensíveis. O que tiver de acontecer, acontecerá. Metade de Gaza já está ocupada, estamos sob cerco e sofremos de fome extrema. Neste momento, já nem temos energia para esperar por mais nada”.

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website