Início » Desconfiança trava criação de empresas e aumenta falências

Desconfiança trava criação de empresas e aumenta falências

No primeiro semestre de 2025, Macau registou 469 empresas dissolvidas — o valor mais alto da década — e apenas 2020 novas sociedades, o número mais baixo desde 2016. Para o economista Henry Lei, “os setores não relacionados com o turismo, em especial o retalho, continuam a enfrentar uma situação crítica, uma vez que a confiança dos consumidores permanece fraca”

Fernando M. Ferreira

O primeiro semestre de 2025 foi o mais negativo dos últimos dez anos no balanço da constituição e dissolução de empresas em Macau. Entre janeiro e junho, encerraram 469 empresas — mais 5% do que no mesmo período do ano passado — e foram constituídas apenas 2020 novas sociedades, o valor mais baixo desde 2016. Apesar disso, o saldo líquido manteve-se positivo, com mais empresas criadas do que dissolvidas.

Apesar do saldo positivo — mais empresas criadas do que dissolvidas —, o economista Henry Lei alerta que este dado não deve ser interpretado como sinal de vitalidade económica. “Algumas empresas optam por não cancelar o seu registo, mesmo após cessarem a atividade, porque manter o registo não implica custos e garante maior flexibilidade. É por isso que existe sempre um saldo positivo. Mas as estatísticas mensais mostram uma tendência de queda nas constituições e de aumento nas dissoluções, reflexo das incertezas económicas e da redução da confiança dos consumidores”.

De acordo com a Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC), o capital social das empresas criadas no primeiro semestre do ano totalizou 303 milhões de patacas.

A criação de empresas caiu 12% em comparação com 2024 e 38% face ao período pré-pandemia, em 2019, ano em que nasceram 3.278 sociedades. Desde 2023 que a tendência é de descida contínua.

Para o economista Henry Lei, estes números refletem um processo de recuperação económica desigual: “O desempenho global da economia de Macau mostrou sinais claros de recuperação no segundo trimestre e no primeiro semestre de 2025. No entanto, o desenvolvimento entre os vários sectores está desequilibrado, com o turismo e o Jogo a liderarem o ritmo de recuperação, beneficiando do aumento do número de visitantes e de receitas brutas de Jogo acima do esperado. Os setores não relacionados com o turismo, em especial o retalho, continuam a enfrentar uma situação operacional crítica, uma vez que a confiança dos consumidores permanece fraca”.

Enquanto pequena economia aberta e fortemente dependente da procura externa, Macau é sensível ao comportamento mais conservador dos turistas, que se traduz numa queda da despesa média por visitante. Isto reduz o rendimento da população local e deteriora a procura interna, afetando diretamente o número de empresas criadas e dissolvidas

Henry Lei, economista

Lei atribui a queda na criação de empresas às mesmas causas: “A diminuição do número de empresas recém-constituídas deve-se às incertezas no ambiente empresarial e à fraca confiança dos consumidores. Os fundamentos económicos sofreram alterações estruturais durante a pandemia, especialmente nos setores do Jogo e do turismo, com enfraquecimento da confiança de consumo interno e externo, maior incentivo para o consumo online e no exterior, e uma sensibilidade acrescida ao preço. Tudo isto fez com que o ambiente de negócios atual seja completamente diferente do período pré-pandemia”.

Henry Lei destaca ainda a importância dos fatores externos: “Enquanto pequena economia aberta e fortemente dependente da procura externa, Macau é sensível ao comportamento mais conservador dos turistas, que se traduz numa queda da despesa média por visitante. Isto reduz o rendimento da população local e deteriora a procura interna, afetando diretamente o número de empresas criadas e dissolvidas. Considero que os fatores externos têm mais peso do que os internos. As políticas e estímulos locais são implementados pontualmente para atenuar os efeitos adversos causados por perturbações externas, e há possibilidade de que certas orientações políticas do Governo da RAEM, para promover o desenvolvimento de determinados setores, possam estimular a criação de novas empresas nesses ramos”.

Quanto a soluções, o economista considera que “tudo se resume à questão fundamental de como melhorar o ambiente económico e empresarial global de Macau para apoiar as empresas, especialmente as PME, que são mais vulneráveis. Não se trata de uma tarefa simples ou imediata e exige um conjunto de políticas coordenadas para estimular a procura externa e interna — redução de impostos, subsídios financeiros, simplificação de políticas e procedimentos administrativos — acompanhadas de subsídios fiscais temporários para apoiar as empresas”.

Consumo em queda

A professora da faculdade de Economia e Direito da Universidade de São José (USJ), Florence Lei, analisa a situação a partir da evolução do consumo, citando o mais recente Inquérito às Despesas e Receitas Familiares da DSEC, relativo ao ano passado, que mostra que várias rubricas registaram quebras, incluindo vestuário e calçado, habitação e combustíveis, serviços e artigos domésticos, recreação, desporto, cultura e educação. Por outro lado, aumentaram as despesas em alimentação e bebidas não alcoólicas, bebidas alcoólicas e tabaco, saúde, transportes, informação e comunicação. Importante também salientar que o consumo dos residentes fora de Macau tem aumentado.

“Verifica-se uma diminuição no consumo de bens e serviços que não são considerados essenciais ou que chegam a ser vistos como artigos de luxo, uma tendência semelhante à observada a nível global”, explica Florence Lei. Segundo a académica, “a confiança dos consumidores nos principais mercados mundiais atingiu mínimos históricos e não regressou aos níveis anteriores à Covid-19”, devido a fatores como “tensões geopolíticas globais, incerteza financeira e riscos para a saúde”.

Se as perdas não superam os custos fixos, como a renda, as empresas mantêm-se a funcionar; no longo prazo, quando os contratos de arrendamento terminam, os negócios não rentáveis encerram

Florence Lei, professora na USJ

A académica sublinha também as mudanças geracionais: “A Geração Z sente-se menos atraída por produtos de luxo tradicionais e está mais envolvida no comércio eletrónico.” Em Macau, estes fatores juntam-se à “concorrência crescente das regiões vizinhas, tanto em preços como em qualidade”, o que “pode afetar gravemente o setor retalhista local”.

No curto prazo, diz Florence Lei, “se as perdas não superam os custos fixos, como a renda, as empresas mantêm-se a funcionar; no longo prazo, quando os contratos de arrendamento terminam, os negócios não rentáveis encerram”. Num mercado com entrada e saída livres, “não surgem novas empresas se as existentes estão a operar com prejuízo” e, em contexto competitivo, “apenas os mais fortes sobrevivem”.

Apesar do cenário adverso, a académica acredita que a diversificação económica pode criar novas oportunidades: “Enquanto alguns setores abrandam, outros podem emergir e trazer novas empresas em fase de arranque. As que se revelarem pouco competitivas num determinado setor terão de se adaptar e transitar para novos negócios. A capacidade de adaptação às mudanças constantes, sobretudo aos avanços tecnológicos, é a regra de sobrevivência no mundo empresarial atual”.

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website