“A identidade é fluida. No fundo, o que queremos dizer é que este grupo de filipinos de segunda geração não é assim tão diferente de qualquer outro local,” explica a produtora do projeto ao PLATAFORMA, Connie Ao Ieong.
O projeto “Living Here, Living Together” divide-se em duas partes: um vídeo – lançado esta semana – com entrevistas aprofundadas e um percurso áudio guiado a pé. A primeira parte explora os percursos de vida de três jovens de origem filipina, todos de famílias imigrantes, cada um à procura do seu próprio sentimento de pertença. A segunda parte é uma experiência de caminhada áudio construída a partir das vozes e histórias de filipinos locais, fundidas numa personagem composta. O percurso centra-se na “Rua dos Filipinos”, na zona central da cidade, e será lançado no início de setembro.
Gary Ao Ieong, estudante de mestrado e assistente de investigação em Linguística Inglesa na Universidade de Macau (UM), tem-se dedicado nos últimos anos ao estudo da comunidade filipina em Macau. Diz que a inspiração para o projeto surgiu ao perceber que muitos dos seus amigos filipinos de segunda geração partilham experiências de vida e dilemas identitários semelhantes aos seus.
“Por exemplo, a procura de emprego é algo que a maioria dos jovens enfrenta, e nesse processo revelam-se muitos valores transmitidos pelas famílias — porque procuramos trabalho? Para ter rendimento estável e formar família. A cultura chinesa dá grande importância à família, mas a cultura filipina é bastante semelhante.” Gary Ao Ieong espera que, através de diferentes formas de contar histórias, o público em geral possa compreender melhor as experiências desta comunidade.
Em casa podem comportar-se de forma muito filipina — falar filipino com a família, comer comida filipina. No trabalho, podem agir como qualquer outro local, usando diferentes línguas e hábitos. A identidade é dinâmica e está em constante mudança
Gary Ao Ieong, estudante de mestrado e assistente de investigação em Linguística Inglesa na UM
“As pessoas tendem a rotular: ‘filipino’, ‘macaense’. É direto e apelativo, porque não se tem de pensar muito — basta rotular. Mas, por causa desses rótulos, muitas semelhanças acabam por ser ignoradas,” diz Gary Ao Ieong.
As entrevistas em vídeo focam-se em como três jovens constroem a sua identidade. Alguns sentem-se mais filipinos, outros mais locais, e outros oscilam entre ambos. Gary Ao Ieong e a produtora Connie Ao Ieong contam que um dos entrevistados disse que a sua comida preferida é canja de galinha chinesa. Até a famosa “Rua dos Filipinos”, vista por muitos como fortemente ligada à comunidade filipina de Macau, pode não significar o mesmo para a segunda geração. Connie descreve o conceito de identidade no projeto como “fluido”.
Gary acrescenta: “Por exemplo, em casa podem comportar-se de forma muito filipina — falar filipino com a família, comer comida filipina. No trabalho, podem agir como qualquer outro local, usando diferentes línguas e hábitos. A identidade é dinâmica e está em constante mudança.”
História oral

Jorge, Eunice, Sandy
A história apresentada na caminhada áudio é adaptada das experiências de várias famílias filipinas locais. Acompanha um jovem de segunda geração à procura de trabalho em Macau, com as vozes de filipinos de primeira geração entrelaçadas ao longo da narrativa. Gary Ao Ieong explica: “Ele vem de uma família imigrante monoparental e enfrentou muitas dificuldades e lutas com a sua identidade durante o crescimento.” Muitos dos papéis são interpretados por membros da comunidade sem experiência profissional em representação — por exemplo, o jovem é interpretado por um dos entrevistados. “Tentámos escolher não-atores, pois as suas interpretações são mais naturais e ajudam a transmitir a perspetiva da comunidade”, diz ao PLATAFORMA.
A produtora Connie Ao Ieong explica que, antes de participar neste projeto, a sua visão da comunidade filipina local ainda era sobretudo moldada pela “primeira geração”. Gary deu um exemplo: muita gente pensa que os filipinos estão sempre em videochamadas. “A segunda geração também faz videochamadas, mas normalmente não o faz na rua”.Ainda assim, acrescenta que é difícil generalizar. Connie recorda que uma entrevistada contou que, no trabalho, lhe perguntaram se tocava guitarra. “É uma impressão que as pessoas têm da primeira geração — que tocam guitarra, cantam e têm talento musical. Ela não ficou ofendida, mas ficou curiosa com a pergunta. Depois percebeu que, na verdade, toca guitarra e gosta decantar”.
Na perspetiva de Gary Ao Ieong, a identidade não é uma equação simples — é tudo o que está interligado. “A forma como tudo se liga vem, creio eu, das experiências de vida. Pode estar relacionada com a cultura, já que as famílias transmitem certos valores — como manter a cultura filipina, ou absorver a de Macau ou de outros lugares. Pode ter a ver com cultura ou etnia, mas também pode não ter nada a ver com isso. Por exemplo, os sentimentos de alguém sobre este lugar podem não ter muito a ver com a sua etnia”.
O título do projeto “Living Here, Living Together” tem dois significados: “Living Here” refere-se à vida quotidiana dos filipinos, e através dela, descobrir o quanto as suas experiências são semelhantes às nossas — e que estamos “Living Together”, explica. Acrescenta que, quando um lugar acolhe um novo grupo de pessoas, ambos os lados têm de se adaptar e encontrar uma forma de comunicação confortável para todos. “Haverá sempre alguma tensão nesse processo, porque ninguém tem muita experiência com isso. Mas penso que a comunicação é algo positivo — comunicação baseada no respeito mútuo. Se ainda não encontraram uma forma que funcione para todos, continuem à procura”.