Início » Identidade em construção

Identidade em construção

Os filipinos representam cerca de 1% da população local — sendo o maior grupo asiático não chinês na cidade, de acordo com os censos de 2021. Cerca de 30% desta comunidade tem menos de 24 anos. Alguns residentes filipinos criaram raízes e constituíram família em Macau, mas como se sentem os seus filhos de segunda geração em relação à cidade? O coletivo artístico local PO Art Studio aborda esta questão com o projeto “Living Here, Living Together” (“Viver Aqui, Viver Juntos”), que explora a fluidez identitária e as histórias do quotidiano de filipinos de segunda geração através de meios criativos

Carol Law

A identidade é fluida. No fundo, o que queremos dizer é que este grupo de filipinos de segunda geração não é assim tão diferente de qualquer outro local,” explica a produtora do projeto ao PLATAFORMA, Connie Ao Ieong.

O projeto “Living Here, Living Together” divide-se em duas partes: um vídeo – lançado esta semana – com entrevistas aprofundadas e um percurso áudio guiado a pé. A primeira parte explora os percursos de vida de três jovens de origem filipina, todos de famílias imigrantes, cada um à procura do seu próprio sentimento de pertença. A segunda parte é uma experiência de caminhada áudio construída a partir das vozes e histórias de filipinos locais, fundidas numa personagem composta. O percurso centra-se na “Rua dos Filipinos”, na zona central da cidade, e será lançado no início de setembro.

Gary Ao Ieong, estudante de mestrado e assistente de investigação em Linguística Inglesa na Universidade de Macau (UM), tem-se dedicado nos últimos anos ao estudo da comunidade filipina em Macau. Diz que a inspiração para o projeto surgiu ao perceber que muitos dos seus amigos filipinos de segunda geração partilham experiências de vida e dilemas identitários semelhantes aos seus.

Por exemplo, a procura de emprego é algo que a maioria dos jovens enfrenta, e nesse processo revelam-se muitos valores transmitidos pelas famílias — porque procuramos trabalho? Para ter rendimento estável e formar família. A cultura chinesa dá grande importância à família, mas a cultura filipina é bastante semelhante.” Gary Ao Ieong espera que, através de diferentes formas de contar histórias, o público em geral possa compreender melhor as experiências desta comunidade.

Em casa podem comportar-se de forma muito filipina — falar filipino com a família, comer comida filipina. No trabalho, podem agir como qualquer outro local, usando diferentes línguas e hábitos. A identidade é dinâmica e está em constante mudança

Gary Ao Ieong, estudante de mestrado e assistente de investigação em Linguística Inglesa na UM

As pessoas tendem a rotular: ‘filipino’, ‘macaense’. É direto e apelativo, porque não se tem de pensar muito — basta rotular. Mas, por causa desses rótulos, muitas semelhanças acabam por ser ignoradas,” diz Gary Ao Ieong.

As entrevistas em vídeo focam-se em como três jovens constroem a sua identidade. Alguns sentem-se mais filipinos, outros mais locais, e outros oscilam entre ambos. Gary Ao Ieong e a produtora Connie Ao Ieong contam que um dos entrevistados disse que a sua comida preferida é canja de galinha chinesa. Até a famosa “Rua dos Filipinos”, vista por muitos como fortemente ligada à comunidade filipina de Macau, pode não significar o mesmo para a segunda geração. Connie descreve o conceito de identidade no projeto como “fluido”.

Gary acrescenta: “Por exemplo, em casa podem comportar-se de forma muito filipina — falar filipino com a família, comer comida filipina. No trabalho, podem agir como qualquer outro local, usando diferentes línguas e hábitos. A identidade é dinâmica e está em constante mudança.”

História oral

Jorge, Eunice, Sandy

A história apresentada na caminhada áudio é adaptada das experiências de várias famílias filipinas locais. Acompanha um jovem de segunda geração à procura de trabalho em Macau, com as vozes de filipinos de primeira geração entrelaçadas ao longo da narrativa. Gary Ao Ieong explica: “Ele vem de uma família imigrante monoparental e enfrentou muitas dificuldades e lutas com a sua identidade durante o crescimento.” Muitos dos papéis são interpretados por membros da comunidade sem experiência profissional em representação — por exemplo, o jovem é interpretado por um dos entrevistados. “Tentámos escolher não-atores, pois as suas interpretações são mais naturais e ajudam a transmitir a perspetiva da comunidade”, diz ao PLATAFORMA.

A produtora Connie Ao Ieong explica que, antes de participar neste projeto, a sua visão da comunidade filipina local ainda era sobretudo moldada pela “primeira geração”. Gary deu um exemplo: muita gente pensa que os filipinos estão sempre em videochamadas. “A segunda geração também faz videochamadas, mas normalmente não o faz na rua”.Ainda assim, acrescenta que é difícil generalizar. Connie recorda que uma entrevistada contou que, no trabalho, lhe perguntaram se tocava guitarra. “É uma impressão que as pessoas têm da primeira geração — que tocam guitarra, cantam e têm talento musical. Ela não ficou ofendida, mas ficou curiosa com a pergunta. Depois percebeu que, na verdade, toca guitarra e gosta decantar”.

Na perspetiva de Gary Ao Ieong, a identidade não é uma equação simples — é tudo o que está interligado. “A forma como tudo se liga vem, creio eu, das experiências de vida. Pode estar relacionada com a cultura, já que as famílias transmitem certos valores — como manter a cultura filipina, ou absorver a de Macau ou de outros lugares. Pode ter a ver com cultura ou etnia, mas também pode não ter nada a ver com isso. Por exemplo, os sentimentos de alguém sobre este lugar podem não ter muito a ver com a sua etnia”.

O título do projeto “Living Here, Living Together” tem dois significados: “Living Here” refere-se à vida quotidiana dos filipinos, e através dela, descobrir o quanto as suas experiências são semelhantes às nossas — e que estamos “Living Together”, explica. Acrescenta que, quando um lugar acolhe um novo grupo de pessoas, ambos os lados têm de se adaptar e encontrar uma forma de comunicação confortável para todos. “Haverá sempre alguma tensão nesse processo, porque ninguém tem muita experiência com isso. Mas penso que a comunicação é algo positivo — comunicação baseada no respeito mútuo. Se ainda não encontraram uma forma que funcione para todos, continuem à procura”.

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website