Organizado pela Associação Audiovisual CUT! e com o apoio do Fundo de Desenvolvimento da Cultura, o Festival de Cinema Experimental que decorre até amanhã, tem como tema “A Relva é Sempre Mais Verde do Outro Lado” e propõe uma reflexão sobre o “poder da imagem em movimento e os mecanismos por trás da sua produção, convidando o público a repensar a tradicional relação entre o espetador e o ecrã”, explica Lao Keng U ao PLATAFORMA.
O programa inclui oito séries temáticas, que vão desde novas encomendas locais a sessões de cinema interativo e performances ao vivo na Cinemateca Paixão, no Centro de Cultura e Artes Performativas Cardeal Newman, e também no agora recuperado Convento da Ilha Verde.
“Numa cultura consumista saturada de imagens, o cinema experimental como forma de arte acaba muitas vezes ofuscado pelas práticas cinematográficas mainstream e institucionalizadas, especialmente em Macau, onde os filmes são rigidamente categorizados como ‘ficção’, ‘documentário’, ‘animação’ ou ‘irá vender?’, conta o curador do festival.
“Como pequeno festival em Macau, o nosso objetivo é promover um tipo de cinema que desafia a relação privilegiada entre o público e o ecrã, apresentando obras arrojadas que expandem os limites da forma cinematográfica e fomentam discussão crítica sobre questões contemporâneas”.
Um dos destaques da programação é a secção “Made in Macao”, com três séries que abordam questões identitárias, históricas e sensoriais da cidade.
“Ao contrário de Hong Kong, Macau pode muitas vezes parecer uma dimensão paralela, existindo dentro e fora deste mundo interligado. A cidade é uma bolha exótica. Neste contexto, tudo o que acontece fora da bolha de Macau parece algo alheio à própria cidade. É aqui que o nosso festival entra e grita ‘CORTA!’”, destaca U.
Segundo o curador, o conceito principal é não replicar o que a cena cinematográfica e de artes visuais de Macau está atualmente a produzir, mas “trazer uma contra-perspetiva à utopia de Macau”.
A sessão “New Vision”, por exemplo, aborda o “tema urgente da IA e o futuro cyborg”, exibindo curtas-metragens que criticam o “nosso romance tóxico com a tecnologia”. “Em “Made In Macao I — Transparent Landscape Project”, quatro artistas locais foram convidados a criar curtas-metragens baseadas em paisagens da sua escolha em Macau.
“As suas ideias abordam temas como o desaparecimento dos galgos, fitas Hi-8 das cerimónias da Macau portuguesa, selos do período colonial e imagens privadas de família — tudo refletindo identidade e amor por Macau num contexto pós-colonial”, aponta o curador.
Entretanto os programas “Artist Focus” e “Spotlight” apresentam artistas internacionalmente reconhecidos que exploram a ficção científica não convencional e a antropologia visual.
999 de volta mas com cortes
A segunda série de “Made in Macao” trouxe de volta o documentário 999, do realizador português António Nuno Júnior, filmado em Macau há 25 anos. A obra foi exibida em dois formatos distintos: uma sessão tradicional e outra interativa, com a participação remota do realizador, que viveu em Macau entre 1989 e 1992, onde trabalhou como fotógrafo e jornalista.
Filmado em 1999, este trabalho capta os momentos decisivos da transferência de soberania sob a forma de um diário de viagem, incluindo imagens de cidades vizinhas como Hong Kong, Taipei, Pequim e Tóquio.
Ao PLATAFORMA, o realizador destaca que o filme surge na sequência de um filme anterior – Macau Farm Notebook – rodado em 1997 e que nunca chegou a ver a luz do dia.
“Enquadram-se ambos obviamente num contexto histórico preciso, o retorno de Macau à administração chinesa. O primeiro tratava dessa questão de um ponto de vista interno, por assim dizer. Foi inteiramente filmado em Macau e tentava perceber que tipo de sensibilidades estavam em campo nos anos imediatamente anteriores à transição”, destaca Júnior.
“O segundo [999] tenta explorar a mesma situação de um ponto de vista exterior, contextualizando-a historicamente, geograficamente e politicamente”.
Para Júnior o que mais lhe interessou na inclusão do filme foi a ideia de o apresentar com uma performance musical ao vivo, neste caso do artista local Rui Rasquinho, transformando “um cadáver num zombie” através “de inscrição por terceiros”.
“Finalmente, outra coisa curiosa, foi o facto de o filme não ter sido exibido na íntegra por causa de sensibilidades políticas locais. É, talvez, mais uma forma de ‘inscrição’ por terceiros na superfície do filme. Neste caso, por apagamento”, comenta.
O documentário original foi alvo de cortes, nomeadamente uma cena filmada em Taiwan, e outra pelo seu conteúdo sexualmente mais explícito.
“Duas cenas foram cortadas por nós antes de serem submetidas aos comités de avaliação do departamento governamental pelo qual temos de passar sempre que há uma exibição pública”, conta U. “Pessoalmente, gostaria de ter mantido essas cenas no filme. Mas isso poderia causar-nos problemas ou até sermos proibidos de exibir o filme”, conclui.
Reaproveitamento do Convento da Ilha Verde
A terceira série de filmes, intitulada “Urban Illusion”, será apresentada amanhã, no evento de encerramento do festival, no Convento da Ilha Verde.
“A fachada do edifício, o jardim e o miradouro serão transformados num espaço experimental para os artistas, que apresentarão uma palestra, performance e instalação audiovisual para todos os participantes”, conta U.
Esta performance vai incluir o artista visual Jason Fong, o grupo musical ‘Guia Experimental’, e o animador John Wong.
Fechado durante anos, o Convento da Ilha Verde tem vindo a ganhar nova vida desde o início de 2024, na sequência de uma série de intervenções estruturais e de requalificação levadas a cabo pelo proprietário do imóvel, com acompanhamento do Instituto Cultural. A sua utilização para o Festival marcou um dos primeiros eventos culturais acolhidos pelo espaço após um longo processo de recuperação.
A Colina da Ilha Verde encontra-se classificada como “Sítio” e deste modo o convento é também protegido pela Lei de Salvaguarda do Património Cultural.
No entanto, o edifício construído em 1828 foi durante muitos anos votado ao abandono, sendo usado como parque de veículos abandonados, com acumulação de uma grande quantidade de lixo, substâncias inflamáveis e perigosas no seu interior, e chegando até a ser ocupado ilegalmente por trabalhadores da construção civil.
Em paralelo, o proprietário tem avançado com um plano de recuperação mais abrangente, apesar de ter anteriormente apresentado ao governo uma proposta de troca da colina por outro terreno, com sugestões polémicas para a construção de um hotel, e até duas rodas gigantes.
“O mosteiro está a ser renovado pelo seu novo proprietário, e estamos gratos pelo apoio que recebemos para acolher o nosso evento de encerramento neste espaço histórico”, termina U.