“A minha casa tem um terraço. Houve momentos em que olhei para o céu e pensei: continuar assim é mesmo difícil…”, confessa o Sr. Chan (nome fictício) ao PLATAFORMA, revelando que, nos momentos de maior pressão, teve pensamentos negativos. No entanto, ao olhar para a família, desistiu dessas ideias. “Vou continuar a tentar, mas já estive nesse estado”.
A sua principal fonte de stress é financeira, uma vez que é o único sustento da família e já discutiu essas pressões com a esposa, mas “não há uma solução concreta.” Nos dias normais, procura fazer coisas que lhe dão prazer para aliviar o stress, como montar maquetes, mas admite com um sorriso amargo: “Comprei-as, mas nunca as montei (…) Se não consigo aliviar o stress, não há nada a fazer. Vou aguentando, por agora,” concluiu.
Pun Chak Kuan, conselheiro da linha de apoio Caritas Life Hotline, explica que os homens, consoante a idade, enfrentam diferentes fontes de stress. Para os adultos, as principais causas são as finanças, o trabalho e a família. “Muitas vezes, ouvimo-los dizer que têm medo de não ter dinheiro, medo de não conseguirem sustentar a família. Quando se tornam pais, sentem que devem ser o pilar da casa, mesmo que o rendimento da esposa seja semelhante”, explica Kuan.
Chegou a estacionar o carro durante horas, apenas para ficar ali a processar as emoções antes de entrar em casa, sem querer levar energia negativa para a família
Pun Chak Kuan, conselheiro da linha de apoio Caritas Life Hotline
Explica ainda que os homens preferem aliviar o stress sozinhos. Um homem que está a ser acompanhado pelo serviço, partilhou que gostava de fazer um desvio no caminho para casa: “Chegou a estacionar o carro durante horas, apenas para ficar ali a processar as emoções antes de entrar em casa, sem querer levar energia negativa para a família”, diz Kuan ao PLATAFORMA.
O Centro de Apoio à Família e Aconselhamento sobre Jogo da SKH observou situações semelhantes. A subdiretora da unidade, Cathy Wong, nota que, por vezes, os casais enfrentam uma dinâmica em que “um evita, o outro fica ansioso”: o marido pode querer ficar sozinho e escolhe fazer horas extra antes de regressar, enquanto a esposa espera, ansiosamente.
Saúde mental

Dados do Gabinete do Secretário para a Segurança indicam que, entre 2020 e 2024, o número de suicídios entre homens foi significativamente superior ao das mulheres, com 232 casos registados no sexo masculino e 161 no feminino. Ao mesmo tempo, as Estatísticas de Saúde de 2024, da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos, revelam que apenas cerca de 28% das pessoas que procuram cuidados psicológicos são homens, e apenas 37% na área da psiquiatria.
Receber elogios traz felicidade; é uma necessidade natural do ser humano. Mais elogios, mais aceitação, mais ação — independentemente do género ou da idade — ajudam muito a aliviar o stress
Cathy Wong, subdiretora do Centro de Apoio à Família e Aconselhamento sobre Jogo da SKH
Quanto ao facto de “os homens procurarem menos ajuda do que as mulheres”, Kuan acredita que isso pode dever-se ao facto de “a sociedade tradicional esperar que sejam proativos, fortes, cuidem dos outros — por isso, alguns sentem que não podem pedir ajuda” e têm “receio de serem vistos como fracos”.
Jackie Wu, diretora da unidade, do Centro de Apoio à Família e Aconselhamento sobre Jogo da SKH, acrescenta que, enquanto as mulheres tendem a desabafar falando, os homens são mais silenciosos e o problema só se torna visível quando o stress “explode”. “Por isso, às vezes, quando alguém parece não apresentar sinais antes de uma tentativa de suicídio, na verdade não é bem assim”.
Não estão sozinhos
As representantes das duas instituições notam que há homens que participam nas atividades de alívio de stress, por vezes incentivados pelas esposas. Cathy Wong refere que, apesar de o rácio entre homens e mulheres ser desequilibrado, as atividades que interessam aos homens conseguem atrair participantes do sexo masculino: “Nos últimos anos, sinto que os pais estão bastante proativos e querem participar em atividades parentais”. Jackie Wu acrescenta que, por vezes, os homens percebem as suas próprias necessidades e passam a procurar ajuda após participarem nestas iniciativas.
Para Cathy Wong, as necessidades dos homens são, na verdade, necessidades humanas comuns, independentemente do género. O papel do pai, atualmente, vai muito além do de mero provedor, abrangendo várias dimensões. No entanto, ser um “super pai” não significa ser excelente em tudo.
Trata-se, sim, de reconhecer que cada pai tem as suas qualidades únicas e que é importante que a família valorize essas competências. “Receber elogios traz felicidade; é uma necessidade natural do ser humano. Mais elogios, mais aceitação, mais ação — independentemente do género ou da idade — ajudam muito a aliviar o stress”, afirma Wong.
Nos últimos anos, várias organizações de serviços sociais têm promovido atividades dedicadas aos homens, oferecendo-lhes um espaço para libertar o stress acumulado. A SKH organizou uma atividade de pais e filhos para o Dia do Pai, e a Caritas promove, este fim de semana, uma aula para homens. Kuan concorda que os homens são “um grupo que precisa de atenção, mas raramente a recebe”.
Jackie Wu e Cathy Wong também acreditam que a atenção aos homens “pode ser maior” e está “a crescer.” Cathy Wong afirma que “esta preocupação social também leva as pessoas a olharem para si próprias e a perguntarem se também têm essas necessidades”.
“O alívio pessoal do stress é uma parte. A psicologia fala também em ‘apoio externo’, que significa simplesmente apoio interpessoal. E o apoio interpessoal é muito importante”, diz Kuan. A supressão emocional constante afeta o discernimento:
“Quando te sentes sozinho, sentes que não há outra saída e tendes a resolver os problemas sozinho — o que pode facilmente levar a situações graves,” afirma, concluindo que “resolver os problemas é importante, mas é necessário primeiro estabilizar a mente — depois disso, resolver os problemas torna-se muito mais fácil”.