Portugal desperta para uma nova configuração do seu destino político. A vitória da Aliança Democrática (AD), liderada por Luís Montenegro, revela mais um impasse do que uma consagração: venceu sem governar, triunfou sem convencer. O Partido Socialista (PS), por sua vez, registou uma queda que não é apenas eleitoral — é estrutural. E o Chega, comandado por André Ventura, já não pode ser considerado como um fenómeno lateral – é um eixo incontornável da nova geometria parlamentar.
Com 58 deputados, igualando os socialistas, o partido de extrema-direita consolidou a sua posição e tornou o país tripartidário. E ainda falta contabilizar os votos da emigração – mais favoráveis ao Chega. O verdadeiro problema não reside na sua ascensão, mas na persistente recusa da elite política em antecipá-la.
As sondagens falharam redondamente — mais uma vez. Durante semanas, estimavam ao Chega percentagens entre os 14% e 18%. Acabou com mais de 22%. Não é uma questão de incompetência técnica, mas sim cegueira. O “voto envergonhado” — que levou Trump à Casa Branca e Bolsonaro ao Planalto — alastra-se em Portugal. Não se trata apenas de ocultação, mas de desconfiança e ressentimento. Há dois países a coexistir: o que responde às sondagens e o que vota nas urnas.
O ciclo que se inicia é marcado por tensão institucional, choques ideológicos e um risco crescente de erosão política. A democracia portuguesa resistiu, mas está debaixo de fogo
A AD venceu, mas sem força para governar sozinha. Montenegro recusou alianças à direita com o Chega, o que torna o equilíbrio parlamentar um campo minado para qualquer projeto de estabilidade. Pode surgir a tentação de cedência ao extremismo, sob a capa de responsabilidade institucional. Mas, por outro lado, normalizar o Chega dilui as fronteiras da democracia constitucional. Os partidos populistas não se moderam com o poder — radicalizam-se com ele.
Do outro lado, o PS atravessa a sua maior crise. A derrota eleitoral veio acompanhada de um vazio estratégico, sobretudo para com o eleitorado jovem. Pedro Nuno Santos colocou o cargo à disposição, e bem. É um falhanço enorme não conseguir capitalizar do colapso de confiança sobre um Executivo com relações pouco transparentes entre uma empresa familiar e adjudicações públicas. Para se manter como alternativa à governação, é preciso uma mudança grande.
Este parlamento reflete um país fraturado, exausto de promessas e impaciente com o compasso lento da política tradicional. O ciclo que se inicia é marcado por tensão institucional, choques ideológicos e um risco crescente de erosão política. A democracia portuguesa resistiu, mas está debaixo de fogo. Não se trata apenas de governar; tem de compreender para onde o país se move — e, sobretudo, de decidir se o queremos acompanhar ou contrariar.
Talvez só uma aliança entre os dois principais partidos democráticos — PSD e PS — poderá travar a consolidação do Chega como força dominante. A ideia, embora sensível e controversa, impõe-se pela gravidade do momento. A manutenção da cultura democrática poderá, num futuro próximo, depender mais da convergência responsável entre adversários do que da repetição de antagonismos históricos que já não respondem à nova realidade sociopolítica.
Ventura promete uma purga simbólica, um novo começo assente em exclusão e força. A grande força do Chega é que ganha sempre que a política convencional se mostra incapaz de resolver os problemas do povo. E sem um PS forte, as próximas eleições podem muito bem ser uma guerra à direita, com o Chega a ombrear com um PSD enfraquecido por uma Comissão de Inquérito.
O pior ainda pode estar para vir. Circula a ideia (perigosa) de que o Chega já terá atingido o seu patamar máximo. Se a liderança do PSD e PS partilharem dessa convicção, continuarão a cair no mesmo erro: subestimar um movimento que cresce justamente na ausência de respostas estruturais. A ilusão de um plateau reforça o imobilismo. E o imobilismo é o que tem feito Ventura crescer.
*Diretor Executivo do Plataforma