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O fantasma da depressão

Paulo Rego

Tai Kin Ip enfrenta enormes fantasmas. Mais parece um filme de terror pensar na diversificação de uma economia rentista, cada vez mais dependente do jogo; ou na internacionalização de uma aldeia conservadora, nacionalista e protecionista. Entretanto, o consumo foge para o Continente; de onde vem um turismo de massas que mata o sossego – e enterra outros focos estratégicos – sem dar vida ao comércio local. Agudiza-se a crise das PME; o imobiliário cai por água abaixo… e, como se não bastasse, a guerra tarifária retrai investimento, emprego e consumo; em todo o mundo – necessariamente também na China. O sinal político está dado: vêm aí tempos difíceis.

As receitas da indústria que conta até estão relativamente bem: 57,6 mil milhões de patacas, no primeiro trimestre; quase em linha com a projeção oficial para este ano: 240 mil milhões. Ainda assim, em vésperas de apresentação das Linhas de Ação Governativa, na Assembleia Legislativa, o secretário para a Economia e Finanças lança o aviso: cuidado; isto não é o que se pensa; há o prenúncio das vacas magras. Do ponto de vista político, fá-lo para baixar expectativas – percebe-se a intenção. Mas também assusta os mercados e a sociedade civil; e ressuscita o fantasma do conservadorismo orçamental que assombrou o consulado de Ho Iat Seng.

Percebe-se o dilema: na atual conjuntura, as “visitas” perdem margem para queimar no bacará capital que lhes faz falta; e o consumo tende a cair – ainda mais o mais supérfluo, que sustenta Macau. Se o turismo tem hoje o perfil que tem; nada melhor se adivinha nos tempos mais próximos. Primeira contradição: diz a teoria que é precisamente em tempos de crise que faz mais sentido o Estado atirar dinheiro para o problema, reanimando a economia; por maioria de razão, quando a conta é superavitária. O foco deve ser no investimento produtivo, e no apoio à exportação de bens e serviços; mas importa também estimular o consumo, nos limites do controlo inflacionista. É também nesta altura que mais urgem apoios sociais, reformas na educação, saúde, e Função Pública… bem como investimentos estratégicos na diversificação e internacionalização da economia. Se o mundo está como está, resta apostar na forma mais inteligente de lidar com ele. Por último, mas não menos relevante: numa economia fragilizada, dependente do Governo e dos casinos, a narrativa da depressão não cura nem energiza – antes pisa na dor. Quanto mais cinzento for o diagnóstico, mais debilitado estará paciente.

Quando cá esteve, em dezembro último, certamente o Presidente Xi lia bem a conjuntura que os astros alinham para este ano. E, melhor que ninguém, sabe que a diversificação económica, e a internacionalização, carecem de investimento, condução política, coragem e ambição. Logo, a conjuntura não pode legitimar a negação do pensamento estrutural.

Não é com medo, muito menos paralisia, que a China cumprirá cinco por cento de crescimento do PIB – projeção para 2025. No caso de Macau, a questão central para o Governo de Sam Hou Fai é perceber como negociar, não só em Pequim e na Grande Baía, mas também na Europa e Lusofonia – estratégias claras para objetivos complexos, em contexto difícil. Certamente não é com retração do investimento público – e discursos de contenção – que se atrai investimento privado nem massa crítica; venham da China – ou de onde vierem. Os tempos vão ser difíceis; e grandes problemas exigem grandes soluções. Certo é que, se mergulharmos na depressão – como fez o Governo anterior – nela nos afogaremos.

*Diretor-Geral do PLATAFORMA

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