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Amai-vos uns aos outros

João Melo, músico e embaixador do PlataformaJoão Melo, músico e embaixador do Plataforma

Uma licenciatura em Teologia vale tanto como uma licenciatura em Guerra das Estrelas, ambas se dedicam a estudar criações mitológicas e a sua relação com as pessoas. A diferença é que as religiões levam um avanço de séculos em experiência de campo, mas é possível que daqui a cem anos a Guerra das Estrelas seja uma religião.

Naquela que formou a matriz do sítio onde nasci, os seus dirigentes passaram dois milénios a fazer o pino para fundamentar e ajustar relatos díspares, aperfeiçoando o modelo em concílios ao gosto das conveniências do momento, a sacrificar crentes e não crentes na guerra ou na fogueira, e no fundo os milhões que pereceram fizeram-no para defender impressões sobre uma fantasia em que “a minha é mais válida que a tua”, ou “o meu deus é mais poderoso que o teu”.

Claro que ao longo dos tempos as fantasias religiosas tornaram-se indissociáveis das culturas. Dentro das monoteístas do Médio Oriente, uma antiga religião constituiu-se para unir tribos dispersas sob um deus só para eles, outra mais recente fez o mesmo com tribos dispersas mas quer divulgar o seu deus ao mundo, e ainda é tão pobre de pensamento crítico que os códigos legislativos de muitos estados emanam dessas fantasias seculares.

Como disse em entrevista à Al Jazeera o embaixador da Arábia Saudita na ONU, “quem no seu país negar publicamente a existência de Deus é um terrorista”. “Terrorista” é um termo lato bastante em voga que serve a todas as religiões e sistemas socioeconómicos; neste caso define um herege, e o senhor embaixador, um homem de fato e gravata que pelos vistos pretende passar uma imagem moderna porém firme, implicitamente sugere que até tolera a hipocrisia desde que um não crente esteja caladinho. Tolerância q.b., mas não abusem…

Quando um dia, suficientemente doutrinados por o que quer que seja, morrermos a lutar inchados de docta ignorantia pelo nosso modelo cultural, uns contra os outros, contra máquinas ou entidades desconhecidas, ninguém se lembrará que todos os sistemas de organização económica, social, e religiosa são formas de nos controlar o complexo reptiliano, a região primitiva do cérebro que estimula a busca por protecção, alimento, abrigo e segurança.

Daí todos desconfiarem de quem usa o córtex pré-frontal que entre outras funções controla o raciocínio e a atenção, e as religiões de modo geral considerarem o capitalismo (e os seguidores deste novo deus) um dos seus piores inimigos, embora os líderes apreciem a satisfação material que ele proporciona.

No calor da luta pela sobrevivência também não nos lembraremos de pensamentos acertados que foram deturpados pelas religiões ou usados em proveito próprio. Na que melhor conheço, a figura que lhe deu origem nunca mostrou intenção de criar uma nova religião, viveu a tentar reformar a sua, e todo o folclore teológico montado sobre si se poderia resumir numa única frase genial, tão simples quão profunda: “amai-vos uns aos outros”.

Em vez de meditarmos nesta ideia, abdicamos de sequer pensar nela porque à primeira vista soa pacóvia ou utópica. Uma vez que parece indigerível acreditamos que alguém há muito tempo pensou em mastigá-la por nós, preferimos ser alimentados pela palha que nos vão fornecendo e nos desliga do seu real significado; nem percebemos que estamos a ser privados do seu sabor por outra ideia antiga “dividir para reinar”, originária do Império que a religião tomou.

Somos feitos de amor, amar é confiar, e o medo de perder é contrário à nossa essência, vejam as crianças, seres humanos em estado puro. Entretanto fomos sendo formatados no medo de perder, receamos mostrarmo-nos genuínos, vulneráveis, dedicamo-nos a ter mais que o suficiente e a tirar aos outros para antecipar um futuro confronto ou perda, julgando que assim dominaremos os nossos medos. Contudo cada vez que olho para um cemitério verifico a vã glória de tantos que tinham tanto e não levaram nada…

A perda faz parte da vida, não aproveitar a passagem pela Terra para a melhorar é mais que perda de tempo, é perda de propósito; mas havendo maior ou menor conflito em mais ou menos ano, há uma solução global viável para a humanidade, e penso que ela passa por experimentar amarmo-nos uns aos outros. Só não será no meu tempo.

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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