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The show goes on

Guilherme Rego*

Donald Trump assegurou o regresso à Casa Branca praticamente um dia depois das eleições, quando se previa que a confirmação só chegasse passado uma ou duas semanas. Como é do seu perfil, o discurso de vitória veio antes de alcançar os 270 votos eleitorais necessários para ser eleito – faltavam apenas três. Trump considera esta sua campanha “uma vitória política nunca antes vista”, que irá “ajudar o país a curar-se”. A equipa de Kamala Harris remeteu-se ao silêncio, afirmando que a candidata não iria tecer comentários na noite eleitoral. Já Pequim comunicou a necessidade de haver “coexistência pacífica” entre as potências.

Olhando para a perspetiva chinesa popular, Trump e Kamala são vistos da mesma maneira. Ambos pretendem manter o cerco a Pequim, ainda que não seja claro qual o mais perigoso. Trump já declarou que quer taxar em 60% os produtos chineses, mas Kamala significava uma aliança com a Europa que dificilmente Trump conseguirá. Nos media estatais chineses, não houve qualquer tendência para simpatizar com um ou outro candidato; salientou-se a divisão do país, e que o outrora “farol da democracia” era hoje palco de protestos violentos e agitação social. Tanto que nas redes sociais essa narrativa foi repercutida pelos internautas, afirmando que os Estados Unidos deviam ser divididos entre “US-A e US-B”, ou que “daria tudo no mesmo quer vencesse o candidato A ou B”.

Com Trump no poder é mais difícil vislumbrar uma reconciliação popular, mas o mesmo diria caso perdesse para Kamala

O que é certo é que Trump e Kamala não eram vistos da mesma maneira pela política chinesa, e já há muitos sinais de que Trump – que terá um Senado na sua maioria republicano – é considerada a pior escolha para a economia do país. A China está neste momento a negociar um pacote de estímulo fiscal que, segundo alguns especialistas, será 20% maior com Trump na Casa Branca. Por outro lado, o renminbi registou a maior desvalorização em dois anos, e as ações chinesas caíram, à medida que Trump se aproximava da vitória. O comércio terá agora de lidar com a possibilidade de Washington aplicar novas tarifas que visam enfraquecer ainda mais a segunda maior economia do mundo. “Trump pode introduzir mais tarifas e adicionar mais entidades às listas de entidades proibidas e/ou de títulos proibidos de forma mais rápida”, segundo Lorraine Tan, diretora de pesquisa de ações da Morningstar. Especula-se que a China poderá depreciar o renminbi para aliviar a tensão nas exportações, caso se verifique um aumento considerável das tarifas; outros esperam que o Banco Popular da China se mantenha fiel ao seu manual de moeda estável e reduza a volatilidade através da intervenção e gestão da taxa de referência diária da moeda.

Ainda não há garantias, até porque o aumento das tarifas sobre produtos chineses também prejudica os negócios norte-americanos e isso pode significar um recuo de Trump. Para já, é a preparação para o pior cenário que domina o mercado. Já a nível interno, com Trump no poder é mais difícil vislumbrar uma reconciliação popular, mas o mesmo diria caso perdesse para Kamala. Em 2016, Trump trouxe para a política um novo paradigma. Provou que não é preciso experiência governativa nem militar para chegar à Casa Branca, e que também na política se aplica o ditado “não há publicidade negativa”. Kamala tentou jogar no mesmo tabuleiro, mas faltou-lhe tempo e um programa político com personalidade própria, que não tivesse como base o combate a Trump. A política norte-americana mudou para sempre. O espetáculo interessa mais que as agendas políticas – pouco promovidas durante a campanha – e a vitória a todo o custo vale mais do que a alienação de grande parte dos quase 50% que votaram contra.

*Diretor-Executivo do PLATAFORMA

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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