Ho Iat Seng anunciou esta quarta-feira que não vai concorrer a um próximo mandato, alegando “problemas de saúde ainda não totalmente resolvidos, a bem do desenvolvimento a longo prazo de Macau e partindo do que corresponde ao melhor interesse desta Região”. Já se adivinhava o desfecho, depois de se perceber que contava com muito pouco apoio dos setores locais. Nas últimas semanas as declarações de alguns membros da Comissão Eleitoral sinalizavam o começo de um novo ciclo – e esse não podia começar com o velho. Também na Assembleia Legislativa, deputados reiteraram nos últimos dias a falta de transparência deste Governo, especialmente nas obras públicas. Nesta edição, o deputado Lei Leong Wong, em entrevista ao nosso jornal, fala sobre essa mesma questão, bem como todas as outras áreas onde o próximo Governo pode e deve fazer melhor (ver páginas 5 a 7). Para o membro da Assembleia Legislativa, e membro da Comissão Eleitoral, o próximo Chefe do Executivo deve ter consigo pessoas com “sentido de serviço”, mais até do que “capacidade”, de forma a recuperar a confiança da população.
Talvez a visita de Shi Taifeng, ministro do Departamento da Frente Unida do Comité Central do PCC, foi mesmo para comunicar a decisão final. Posto isto, oficialmente, Jorge Chiang continua a ser a única figura a publicamente anunciar a sua intenção de se candidatar ao cargo. Na Comissão Eleitoral, essa candidatura muito provavelmente não chegará aos 66 votos necessários para sequer ser considerado. Isto porque o candidato a eleger já foi escolhido. Vários nomes foram considerados: dentro do Governo havia a forte possibilidade de sucessão de dois secretários; fora da Administração também houve um nome com audição em Pequim. No fim, nenhum destes convenceu, e Sam Hou Fai tornou-se o predileto a ascender ao cargo. São várias as fontes que ao nosso jornal avançam o nome do presidente do Tribunal de Última Instância – umas muito próximas do processo eleitoral. dizem que já apresentou a sua demissão, e que o anúncio da candidatura chega já este fim de semana. Entretanto, ontem confessou estar a “ponderar” quando confrontado pela imprensa local. Estudou em Pequim, em Coimbra e em Macau, e tem um largo histórico de serviço público, sendo presidente do TUI desde 1999. Além disso, acumula os cargos de presidente do Conselho dos Magistrados Judiciais, membro da Comissão Independente Responsável pela Indigitação dos Candidatos ao Cargo de Juiz, membro do Grupo de Trabalho sobre a Cooperação Judiciária Inter-regional e Internacional e presidente honorário da Associação de Divulgação da Lei Básica de Macau. Com 62 anos de idade, seria o primeiro Chefe do Executivo bilingue da RAEM, um sinal positivo para o desenvolvimento da ponte com a Lusofonia.
Ainda é cedo para perfilar o novo Governo, ainda com muitas dúvidas relativamente à equipa de secretários que vai reunir à sua volta. Há também o confronto com uma nova conjuntura internacional a partir de 5 de novembro – eleições presidenciais nos EUA. O mais importante nesta altura, talvez, é perceber as razões que levaram os decisores a não votar na continuidade de Ho Iat Seng. Os erros identificados durante o mandato serão os primeiros a tratar pela nova equipa. No que toca à ponte com a Lusofonia, a estrutura francamente superificial merece revisão. Nesta e noutras áreas, uma coisa é certa: só com objetivos muito claros é que se traz a mudança, e só compreendendo e apoiando essa agenda pode a sociedade ajudar a torná-los realidade.
*Diretor-Executivo do PLATAFORMA