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Muito ligados ao umbigo

Os discursos de fim de ano, quer de Xi Jinping, quer do Chefe do Executivo de Macau, não trazem grandes novidades, tendo ambos optado pelo autoelogio no desenvolvimento económico, com foco na recuperação pós Covid e na estratégia de diversificação económica, com base na aposta em setores de ponta. A “inevitável reunificação” de Taiwan, mais uma vez repetida pelo Presidente chinês, mereceu destaque na imprensa internacional. Contudo, o papel da China no cenário internacional, bem como a missão de Macau, na ponte para a Lusofonia, primam pela ausência em ambos os discursos.

Há uma contradição constante na análise ocidental ao tom incisivo de Xi sobre Taiwan, e a globalidade do seu discurso. Porque a “inevitabilidade da reunificação”, regra geral, é interpretada como uma ameaça de invasão pela força das armas. Contudo, como é também seu hábito, o líder chinês repete o lamento por haver “lugares no mundo em plena guerra”, garantindo que o povo chinês “está muito consciente do valor da paz”, razão pela qual está “disposto a trabalhar com a comunidade internacional para promover a construção de uma comunidade com um futuro partilhado para a humanidade”. O que não bate certo com o fantasma militarista acenado sobretudo por Washington.

Foi aliás a única menção de nota de Xi Jinping sobre a política internacional, nunca abordando a importância da recuperação dos mercados internacionais e a luta contra as barreiras protecionistas erguidas a ocidente na ressaca do Covid-zero. Mais estranha ainda é a concentração quase exclusiva na política interna, quando Xi Jinping tinha o trunfo do encontro com Joe Biden, de longe o evento mais relevante do ano. Quer para a economia, quer para a paz e a sustentabilidade ambiental.

No caso de Ho Iat Seng, a visita a Portugal – a única ao estrangeiro neste seu primeiro mandato – bem como as promessas de ambição na ponte lusófona, foram também esquecidas no seu discurso. Para além da recuperação do turismo e do jogo, que é real, o Chefe do Executivo focou-se na integração regional e na Grande Baía, deixando claro que a estratégia de desenvolvimento de Macau é subsidiária do plano nacional. Já no campo da diversificação económica, tema central da mensagem de fim de ano, a extensa lista mencionada está ainda muito ao nível dos planos e promessas. Não há, de facto, avanços assinaláveis.

A importância da globalização económica, quer para a recuperação chinesa, quer para a afirmação de Macau, vive em contradição com este mindset nacionalista – que não é novo. As oportunidades que aí joga a segunda maior economia do mundo, mas também uma região autónoma vocacionada para ajudar a China a abrir portas, é também essencial para mostrar a Taiwan que uma relação mais próxima com Pequim não implica virar costas ao mundo.

A prática chinesa é depois bem mais internacionalista do que mostram estes discursos, mas a verdade é que Xi Jinping não tem aproveitado a instabilidade mundial para afirmar a China como líder de um novo ciclo de paz e desenvolvimento. A sua força é incontornável, pelo que é sempre possível retomar essa linha. Já no caso de Ho Iat Seng, que lidera uma pequena região autónoma, que se faz grande pela conjugação entre as receitas do jogo, e a sua histórica abertura ao ocidente, essa oportunidade não cai do céu. A prática de Ho Iat Seng tem sido particularmente frágil a esse nível, razão pela qual é precisamente na força de um discurso consciente sobre essa missão que a oportunidade pode ser recuperada.

Não se percebe, nesta altura, se há falta de vontade e de know-how para o fazer, ou se Ho Iat Seng entende que o caminho para um segundo mandato está exclusivamente ligado à recuperação económica e ao discurso patriótico. Certo é que a corrida de Macau – e da própria China – em direção ao futuro não se ganha sem a globalização do seu mindset político.

*Diretor-Geral do PLATAFORMA

Tags: Paulo Rego

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