Economia chinesa trilha caminho imprevisível em 2024

Economistas acreditam que a crise imobiliária na China vai continuar a pesar na recuperação económica do país. O foco das autoridades chinesas em 2024 deve passar por diminuir os níveis de dívida detidos pelos governos locais, e centrar-se em desenvolver novos motores de crescimento, como a indústria de alta tecnologia

por Gonçalo Lopes
Nelson Moura

Vários especialistas previam que o abandono da política de Covid-zero trouxesse de volta o consumo e o investimento estrangeiro. Esperavam também que as fábricas acelerassem a produção e que a instabilidade do setor imobiliário fosse passageira.

Porém, não foi bem isso que se observou. Os consumidores chineses retraíram-se e as empresas estrangeiras retiraram o investimento. Os produtores locais enfrentam uma diminuição da procura, as finanças dos governos locais oscilam e vários promotores imobiliários de peso entraram em incumprimento.

Em julho, a China contrariou a tendência global e entrou num período de deflação, do qual teve dificuldades em sair no segundo semestre do ano.

Os preços em novembro caíram 0,5 por cento em termos anuais – a queda mais acentuada em três anos.

A crise imobiliária da China continuou a agravar-se à medida que mais promotores se mantinham no limite do incumprimento e as vendas de casas permaneciam a metade dos níveis de dezembro de 2020.

Esta queda é um problema sério, para uma economia onde o imobiliário representa cerca de 30 por cento do produto interno bruto (PIB) e quase 70 por cento da riqueza familiar.

Embora o Fundo Monetário Internacional (FMI) espere que a economia chinesa termine o ano com um crescimento de 5,4 por cento, os economistas preveem um abrandamento em 2024 e nos anos seguintes, devido a problemas estruturais, como níveis recorde de dívida e uma baixa taxa de natalidade.

Imobiliário estraga

A recessão no setor imobiliário “é estrutural e provavelmente será permanente”, segundo um relatório do Centro de Economia e Negócios da China do Conference Board.

Em 2023, os principais promotores imobiliários chineses entraram em incumprimento ou declararam falência, e as tentativas das autoridades para estabilizar o setor não tiveram um impacto significativo.

“As famílias chinesas perderam a confiança no imobiliário como canal para a acumulação de riqueza. É difícil prever quando o setor irá estabilizar, mas, quando isso acontecer, não voltará a ser um motor de crescimento tão importante como nas décadas anteriores”, lê-se.

Carsten Holz, especialista em economia chinesa da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong, disse à Al Jazeera que o clima político do país dificulta a compreensão clara dos problemas económicos na China. Segundo o economista, o ambiente muitas vezes “quase anárquico das últimas duas décadas” conduziu a características como um setor imobiliário sobreendividado, um sistema de gestão de património parcialmente insolvente, finanças obscuras de governos locais, e carteiras de empréstimos de bancos comerciais de “qualidade questionável”.

“Nenhuma autoridade pode compreender a extensão total dos problemas económicos individuais, muito menos as suas interdependências”, apontou Holz.

Para Louise Loo, uma economista da Oxford Economics, o foco constante na estabilidade financeira significa que o Conselho de Estado vai manter um “tom agressivo” sobre as finanças dos governos locais durante 2024, numa tentativa de aliviar a pressão da dívida existente. Numa opinião publicada no China Daily, a economista considera que a aceleração dos esforços para resolver questões de dívida dos governos locais vai colocar o ónus cada vez mais no uso de instrumentos para financiamento por parte do Governo Central. Ao mesmo tempo, a pressão de cima para baixo para concretizar metas de crescimento será “provavelmente menos intensa” em 2024.

Uma abordagem mais disciplinada à alocação de capital conduzirá apenas a um pequeno aumento no impulso fiscal global, destaca a economista, enquanto a inflação deverá registar uma subida tímida à medida que as pressões desinflacionistas do lado da oferta desvanecem.

No que respeita à situação do setor imobiliário, Loo destaca que a economia chinesa vai ter que passar por um “processo de limpeza plurianual e rigorosamente gerida”.

“O antigo modelo de pré-vendas para habitação já não existe. A transição para um novo modelo que reforce o papel da habitação pública e social dirigida pelo Estado poderia levar a uma maior consolidação entre os promotores imobiliários no país. Pode haver crises de ‘stress’ de crédito, mas é pouco provável que sejam sistémicas”, defende.

O Governo chinês tem realçado um foco no aumento do consumo e de redução da dependência económica no setor imobiliário, com Pequim a orientar os bancos para emprestarem mais à indústria transformadora de alto nível.

Dívida para resolver

No entanto, o caminho a longo prazo para liquidar a dívida e reestruturar a economia permanece nublado.

De acordo com um relatório da Brookings Institution, a economia chinesa depende tanto do setor imobiliário que, se o setor diminuísse em apenas um terço, cerca de 10 por cento da produção chinesa teria de ser substituída por novas indústrias.

“Uma área onde se pode ver a mão [de Xi Jinping] na economia é o foco na política industrial e na visão que os decisores económicos estabeleceram de que não precisamos do imobiliário, e talvez até que já não precisemos tanto de exportações”, disse à Reuters Chris Beddor, vice-diretor de pesquisa da China na Gavekal Research. “Esses são os antigos motores do crescimento. Em vez disso, o foco vai estar na procura de novos motores de crescimento, especialmente em tecnologia.”

Segundo o Centro Chinês de Economia e Negócios do Conference Board, como a economia chinesa enfrenta problemas estruturais profundos, qualquer reforma ou pacote de estímulo de grande volume poderia abrir a “porta a uma catástrofe”.

“Há alguma margem para políticas que estimulem o crescimento do crédito e o investimento, mas quanto maior se torna a intervenção, maiores são as probabilidades de desencadear mais ineficiências económicas e investimentos especulativos”, destacou o think-tank.

“Mesmo assim, nos últimos meses, o Governo tem intensificado as medidas monetárias e fiscais para estimular o investimento ‘direcionado’, especialmente em infraestruturas para recuperação de inundações e prevenção de desastres. Como resultado, embora o forte pico de recuperação observado no terceiro trimestre de 2023 se dissipe, o crescimento em 2024 deverá permanecer estável.”

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