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Hoje quero ser mulher

Paulo Rego*

De repente, cai-me o queixo. Bernardo Ribeiro, diretor do desportivo “Record”, pede desculpa pelos comentários trogloditas na sua edição online, na sequência da entrevista a uma jogadora da seleção portuguesa de futebol. Aplaudo o discurso – é obrigatório. Também quero pedir desculpa.

Como um raio em cima da cabeça, assalta-me a luz da consciência: ainda andamos nisto? A este nível? A questão, crucial, como a põe o Bernardo, é que sabendo que o machismo anda aí; permanente, assumido ou dissimulado – sempre consequente – lamentamos e deixamos andar. Não pode ser. Se me atrofia a mim a alma, como se sentem as vítimas desta grunhisse? Hoje quero ser mulher – sentir a dor.

Os comentários falam por si: “Hoje tás toda boa”; “Até falas bem, deves ter ido à escola”; “Gostava de te ver a fazer uma sopa de feijão com mogango para te ver esses dotes”; “Agora têm a mania que são vedetas de futebol, vão mas é aprender a cozinhar”; “a menina que vá mas é trabalhar na passerelle, mas sem roupa”; “Eu queria um poster dela, mas sem roupa, claro”. Qual é a vantagem disto? Entra pelos olhos adentro, é tão básico que se torna incontornável. Estou com isto na cabeça e mandam-me uma lista de possíveis vencedores do Prémio Pritzker, expoente da arquitetura mundial: 11 arquitetos proeminentes (incluindo mulheres). Assim mesmo… entre parêntesis. Pode ser a elite mais canhestra?!

Lembro-me da primeira vez que me insurgi contra o machismo. Em Coimbra, no café da Universidade, amigos em farra vangloriavam-se com as conquistas da noite anterior. E gozavam com elas, as put… que connosco dormiam. Irritei-me; com o pior de todos os argumentos; também ele machista, como hoje percebo: se pensarmos isso delas, deixarão de andar connosco. Depois calei-me. Era mais fácil; queria ter amigos. Como quase todos os homens que, mesmo sendo contra, relativizam; limitam-se a lamentar, a dar o ombro a quem se queixa.

A questão nem é de igualdade. Essa, já nem se devia discutir. É mesmo de decência, de humanidade. Porque o homem que só sabe ser animal, não pode ser Homem. Obrigado às mulheres por existirem; por nos aturarem.

*Diretor-Geral do PLATAFORMA

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