Os turistas que se quer na cidade de Macau

por Mei Mei Wong
Guilherme Rego e Nelson MouraGuilherme Rego e Nelson Moura

Autoridades do turismo apontam para uma média diária de 40 mil visitantes em 2023. Membros da indústria dizem que é possível trazer mais de 14 milhões de turistas até ao fim do ano. Mas o foco deve estar na qualidade dos mesmos e não na quantidade. Querem-se turistas que pernoitem e gastem mais

A estimativa foi lançada pela própria diretora dos Serviços de Turismo, Maria Helena de Senna Fernandes. Esperam-se 40 mil visitantes por dia em Macau, agora que já passou a “pior” vaga de Covid-19 na Região. Não é a primeira vez que este número é referido. Em setembro do ano passado o Chefe do Executivo, Ho Iat Seng, fez o mesmo, depois de anunciar a retoma dos vistos eletrónicos. Contudo, os sucessivos surtos no Continente e as restrições fronteiriças com a cidade vizinha de Zhuhai acabaram por fazer cair essas previsões.

O abandono da política de zero casos trouxe dificuldades acrescidas ao setor, que agora se recompõe e olha para o Ano Novo Chinês como a primeira prova de fogo. Há mais otimismo, e espera-se que 2023 contrarie os números registados entre setembro a novembro de 2022 (16.535 visitantes diários). Dezembro não foi um mês fácil, muito devido à propagação do vírus a nível local e nacional, mas o último dia do ano já mostrou sinais de crescimento, registando 28.103 entradas – apenas comparável à Semana Dourada de 1 de outubro.

PONTOS A FAVOR E UM ALERTA

Há mais de uma década que os visitantes do Continente chegam a Macau maioritariamente para realizar compras. Restaurantes é o que mais atrai os visitantes de Hong Kong e Taiwan. A herança cultural traz ocidentais e restantes turistas asiáticos. Infraestruturas que ainda se mantêm, mesmo com o abalo provocado pela Covid-19. “São as ofertas não jogo que temos neste momento”, diz Glenn McCartney, professor de Gestão Integrada de Turismo e Hotelaria na Universidade de Macau.

Para atingir os objetivos já no 1º trimestre do ano, o académico remete para a importância da gestão da ‘procura acumulada’ no Ano Novo Chinês.

“Temos testemunhado pelo mundo o fenómeno da ‘procura acumulada’, em que os aeroportos e as restantes infraestruturas de turismo são sobrecarregadas e têm dificuldades em lidar com o aumento do número de visitantes. O que podemos ver no Continente e em Hong Kong é que existe essa procura por Macau, mas ainda não se concretizou porque estamos a lidar com as consequências da propagação do vírus na comunidade. As agências de viagens já indicam um grande interesse dos viajantes do Interior da China. Portanto sabemos que vai acontecer, só não sabemos quando. Olhamos para o Ano Novo Chinês e sabemos que teremos de lidar com essa procura, apesar de neste momento estarmos a olhar para uma bola de cristal. Acredito que os roadshows de promoção que as autoridades locais e as concessionárias fizeram no Continente serão importantes para esta nova etapa”, acrescenta.

“Temos de trazer de volta os espetáculos, concertos, entre outros, e isso não se faz a curto- prazo, porque o talento tem de vir de fora”,
Glenn McCartney, professor de Gestão Integrada de Turismo e Hotelaria na Universidade de Macau

“Espera-se que haja um aumento da taxa de ocupação já no Ano Novo Chinês. Haverá ainda muitas condicionantes, pessoas em isolamento e recuperação, certamente muitos cancelamentos e reservas de última hora. A China é um enorme mercado e muitas das pessoas que estiverem capazes de viajar ou recuperadas irão certamente procurar as regiões mais próximas, dependendo se conseguem ou não obter o visto de entrada. Espera-se também o regresso do mercado FIT (Free Independent Traveller) de Hong Kong, muito importante e desejado, que pernoita e gasta bem em restaurantes, utiliza transportes e compra no retalho”, comenta Luís Herédia, presidente da Associação de Hotéis de Macau.

Ao Ponto Final, Rutger Verschuren, vice-presidente da de operações do dimensão do fluxo turístico, que pressionava demasiado os recursos da cidade, portanto temos de começar a olhar para métricas diferentes”.

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Macau recebeu cerca de 39.4 milhões de visitantes (108 mil visitantes diários) em 2019. A proporção entre residentes e turistas foi de um para 60. E mesmo perante um movimento abundante, desde 2013 que mais de metade dos visitantes não pernoita em Macau, segundo um estudo conduzido pelo Instituto de Formação Turística (IFT), em 2019. No mesmo ano, o período de permanência dos visitantes foi de 1.2 dias.

Por outro lado, apenas metade dos turistas do Continente admitiu viajar para a Região com frequência. Em 2019, este mercado representava 75 por cento das entradas, tendo-se acentuado essa dependência durante a pandemia.

“Não há nenhum problema em ter um grande número de pessoas que só vêm a Macau durante o dia. Mas tem ficado mais difícil prolongar a estadia, devido ao desenvolvimento dos transportes e do cenário hoteleiro de Zhuhai com preços competitivos”, reflete o académico. Foram quase 19 milhões de turistas que chegaram da Grande Baía no ano de 2019, ou seja, quase metade. Desde a formação da megametrópole que se tem acelerado a construção de um sistema de transportes moderno e abrangente, com o objetivo de atingir o “círculo de vida de uma hora” – estar em qualquer cidade da região em 60 minutos. Só em 2021, entrou em funcionamento um novo posto fronteiriço entre Guangdong e Macau (Qingmao) e aceleraram-se projetos como a 3ª expansão do Aeroporto Internacional Baiyun de Guangzhou, a Ponte Shenzhen-Zhongshan e a Passagem de Travessia Marítima do Mar de Huangmao. Todas estas infraestruturas trazem vantagens a Macau, facilitando os acessos, mas podem também afetar negativamente o nível do consumo e a duração das visitas.

PROLONGAR ESTADIAS SÓ COM MICE

Para garantir uma “estadia prolongada”, Herédia aponta para a indústria MICE, “a par de um bom produto de espetáculos e eventos”. McCartney concorda: “A indústria hoteleira gosta de MICE, porque garante uma estadia de três a quatro noites, em média. E uma das razões pelas quais as pessoas tendem a prolongar as suas estadias tem muito a ver com esse setor. Basta olharmos para Las Vegas, que garante uma média de quatro noites por visitante, em grande parte devido à dimensão da sua indústria MICE. Em Macau ainda não temos isso, porque o nosso mercado-alvo tem sido o de lazer”.

“Empregar residentes é uma prioridade nossa, no entanto, há dificuldades em encontrar pessoal adequado e formado em determinadas funções”,
Luís Herédia, presidente da Associação dos Hotéis de Macau

Macau ocupou o 48º posto no mundo com mais eventos em 2019, ocupando o 12º lugar na região da Ásia Pacífico, segundo um relatório da Associação Internacional de Congressos e Convenções (ICCA, na sigla inglesa). Mesmo assim, ficou atrás de Hong Kong, que ocupou o 22 e 7º lugar, respetivamente.

“Tem de se melhorar parte das infraestruturas, nomeadamente o aeroporto”, considera Herédia, para aumentar a competitividade de Macau nesta e noutras áreas do turismo. McCartney lembra que o isolamento causado pela política de zero casos provocou uma redução no número de serviços e que é preciso recuperar a atratividade. “Temos de trazer de volta os espetáculos, concertos, entre outros, e isso não se faz a curto-prazo, porque o talento tem de vir de fora”.

Para a cidade se aventurar no mercado MICE, é fulcral as entidades públicas e privadas passarem a “mesma mensagem” para potenciais clientes, porque as infraestruturas já existem, considera o académico. “Com base na nossa pesquisa, as grandes convenções e congressos dão muita importância a este ponto. Olham para o destino como um todo. Quando participava nas reuniões da ICCA, e ouvia os organizadores destes eventos, percebi que a proposta tem mesmo de ser muito atrativa, porque não és o único na sala. Tens de apresentar uma série de razões pelas quais Macau é o destino certo”.

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Durante a pandemia, promoveu-se a cidade como um “destino seguro”, fora do alcance do vírus, mas a realidade agora é diferente. “Faz parte, todos os anos tem de se refletir sobre a imagem e fazer as mudanças necessárias”, admite o académico.

HOTÉIS COM POSTOS POR PREENCHER

A pandemia também reduziu a força laboral do setor hoteleiro. Se entre setembro e novembro de 2019 esta indústria empregava 14,3 por cento da população, a verdade é que no mesmo período de 2022 já só empregava 12 por cento, ou seja, menos 12 mil trabalhadores em três anos. Uma mudança no tecido laboral motivada pela diminuição da procura, que agora volta a subir e força nova onda de contratações. Em declarações ao Ponto Final, Rutger Verschuren reconhece os desafios, lamentando as restrições à entrada de trabalhadores estrangeiros.

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“Sabemos que temos de contratar locais, mas não encontramos quem queira desempenhar funções de empregados de mesa, limpeza de quartos ou lavar a loiça. Estamos com falta de pessoal.” Herédia acrescenta que também há lacunas a preencher nos quadros de alto nível: “Empregar residentes é uma prioridade nossa, no entanto, há dificuldades em encontrar pessoal adequado e formado em determinadas funções”.

Uma preocupação que, segundo diz ao nosso jornal, está a ser coordenada com as autoridades.

“Há sempre essa comunicação, ainda que agora deva ser mais intensa, frequente e aberta, de forma a estarmos prevenidos e capazes de fornecer os serviços que nos tornam competitivos”. Para isso, “precisamos de quadros capazes de gerir ao mais alto nível”, vinca.

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