Lula da Silva quer aumentar relações bilaterais e Xi Jinping concorda: “Parceria estratégica importante”

por Mei Mei Wong
Gonçalo FranciscoGonçalo Francisco

Lula da Silva tomou posse no último domingo como novo presidente do Brasil. Na cerimónia, por questões de agenda, o presidente da China não pôde marcar presença. No entanto, numa mensagem ao seu homólogo brasileiro salientou a “grande importância” da “parceria estratégica”, algo que deixou Lula satisfeito, pois também este pretende aumentar ainda mais as relações bilaterais entre os dois países e resolver uma questão política que Jair Bolsonaro deixou na corda bamba.

Apesar de ser o principal parceiro económico do Brasil, atualmente, as relações políticas entre Xi Jinping e o antigo presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, não eram as melhores. Agora, contudo, tudo promete mudar, até porque a amizade entre Lula e Xi Jinping vem de há muito tempo atrás, com os primeiros encontros entre ambos a datarem de 2008 e 2009, aquando da primeira passagem de Lula pela presidência brasileira, entre 2003 e 2011.

A mensagem de Xi Jinping para Lula também transmite essa mesma ideia. “Desde que China e Brasil estabeleceram relações diplomáticas há 48 anos, o relacionamento bilateral desenvolveu-se em profundidade”, disse Xi, na mensagem difundida pela agência noticiosa oficial Xinhua. O líder chinês apontou ainda que os laços entre os dois países “são um modelo” para as nações em desenvolvimento, destacando que China e Brasil são países em desenvolvimento com “influência global” e “importantes” mercados emergentes com “interesses comuns”.

O Presidente chinês acrescentou que quer “levar a parceria entre China e Brasil para um patamar superior” e declarou estar “disposto a trabalhar” com o país sul-americano para “encontrar modelos de desenvolvimento que se encaixem nas condições de cada nação”.

E é também por este diapasão que Lula da Silva afina, o de querer aumentar as relações entre os dois países.

“Recebi do vice-presidente chinês, Wang Qishan, uma carta do Presidente Xi Jinping com seus cumprimentos e vontade de ampliarmos a cooperação. A China é nosso maior parceiro comercial e podemos ampliar ainda mais as relações entre nossos países”, disse o novo Presidente brasileiro numa mensagem no Twitter.

E para fortalecer a ligação entre os dois países, está já programada uma visita de Lula da Silva à China nestes primeiros meses de 2023.

“Da mesma forma que ele foi convidado para viajar aos Estados Unidos e não foi possível, mas irá, já está acertada, uma visita oficial aos Estados Unidos, da mesma forma que uma visita oficial à China, brevemente no início do seu mandato nos primeiros três meses, no máximo, imagino”, disse o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.

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Ausente no Brasil, Xi Jinping enviou então o seu vice Wang Qishan, que se reuniu com Lula da Silva, numa reunião que terá servido para construir os primeiros alicerces desta nova relação política e comercial. Antes desta viagem, contudo, também já o ministério das relações exteriores da China tinha destacado a relação entre ambos os países, salientando que a parceria terá tendência para atingir “novos patamares”.

“Somos parceiros estratégicos. Desde que os laços diplomáticos foram estabelecidos há 48 anos, as relações bilaterais têm desfrutado de um desenvolvimento sólido e estável, com cooperação prática frutífera em vários setores”, acrescentou o porta-voz Wang Wenbin, referindo depois que a natureza abrangente e estratégica da parceria está a tornar-se cada vez mais pronunciada.

“Acreditamos que esta visita dará um forte impulso à nossa parceria estratégica abrangente e a elevará a novos patamares, trazendo mais benefícios para países e povos e contribuindo para a paz, estabilidade e prosperidade regional e global”, concluiu.

RELAÇÃO POLÍTICA DO MAIS AO MENOS

Durante os primeiros dois mandatos de Lula, entre 2003 e 2011, a relação comercial e política entre Brasil e China intensificou-se, marcada, em particular, pela constituição do bloco de economias emergentes BRICS, que inclui ainda Rússia, Índia e África do Sul.

A relação entre Pequim e Brasília arrefeceu, no entanto, durante o mandato do anterior líder brasileiro Jair Bolsonaro, que assumiu o poder com a promessa de reformular a política externa brasileira, com uma reaproximação aos Estados Unidos, e pondo em causa décadas de aliança com o mundo emergente. Aliás, Jair Bolsonaro chegou mesmo a afirmar que a pandemia de Covid-19 teve um culpado deliberado, a China. As relações tensas chegaram também a envolver os filhos de Bolsonaro, que criticaram o Governo de Xi Jinping, mas após a saída de Donald Trump do Governo dos Estados Unidos o discurso começou a mudar.

Xi Jinping quer “levar a parceria entre China e Brasil para um patamar superior”

Não houve aproximação de líderes, mas as relações comerciais melhoraram. Prova é que apesar desta aproximação aos Estados Unidos por parte de Bolsonaro, sobretudo durante o mandato de Donald Trump na presidência, a verdade é que a China continuou como principal parceiro comercial do Brasil, algo que já acontece há quase uma década, tendo mesmo tornado-se uma das principais fontes de investimento direto estrangeiro no país.

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De acordo com dados divulgados pelo Governo, o Brasil teve um excedente comercial recorde de 62.31 mil milhões de dólares em 2022, graças em parte ao aumento do comércio com a China.

A China foi o maior destino das exportações brasileiras no ano passado, com vendas de 91.26 mil milhões de dólares, e também a maior fonte de importações do país, com compras de 61.5 mil milhões de dólares.

Muito atrás, a União Europeia foi o segundo maior destino das exportações brasileiras, com vendas de 51 mil milhões de dólares, e os Estados Unidos foram a segunda maior fonte de importações, com 51.31 mil milhões de dólares.

UMA NOVA RELAÇÃO COM ÁFRICA

Além da viagem à China, programada então para os primeiros meses deste novo ano, Lula da Silva tem também em agenda uma outra viagem, concretamente a África. A política de aproximação com o continente foi uma das marcas dos seus dois mandatos anteriores e acabou depois sendo enfraquecida pelos presidentes subsequentes. O novo líder brasileiro, aliás, pretende uma nova filosofia de relacionamento com este continente, especialmente os Países de Língua Portuguesa.

“A China é nosso maior parceiro comercial e podemos ampliar ainda mais as relações entre nossos países”
Lula da Silva, Presidente do Brasil

“Manifestei que o Brasil irá voltar a ter a África como uma prioridade nas suas relações com o mundo”, escreveu no Twitter. Lula enviou assim um forte sinal de que, como quando governou entre 2003 e 2011, a política externa será um dos eixos do seu terceiro mandato, após quatro anos de “isolamento” internacional com o agora ex-Presidente Jair Bolsonaro. Refira-se que nas primeiras horas após a tomada de posse, Lula da Silva reuniu-se, entre outros, com os presidentes da Guiné-Bissau e Angola, Umaro Sissoco Embaló e João Lourenço, respetivamente.

Um dos outros encontros com líderes europeus foi com o Presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, curiosamente o primeiro a cumprimentar Lula após a tomada de posse. O chefe de Estado português assinalou, aliás, que “nos cinco primeiros países a cumprimentar o Presidente Lula” houve “três da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) – além de Portugal, em primeiro lugar, Timor-Leste em terceiro, Cabo Verde em quarto”.

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