
Neste dia há 134 anos nasceu em Lisboa Fernando António Nogueira Pessoa, criador do mais cinzento funcionário de escritório do patrão Vasques e simultaneamente um dos maiores génios da cultura mundial
Não perderei tempo a dissertar sobre a sua genialidade, quem a conhece não precisa que a explique, quem não a conhece cansa-me, estou farto de chamar a atenção para a crucial necessidade de nos mantermos ligados à corrente de conhecimento do passado, e não o fazendo merecermos o destino do peixe que não tem mais que 7 segundos de memória: ser comido de cebolada. Contudo julgar que temos capacidade para escapar do lume talvez seja uma presunção minha porque já Fernando Pessoa escrevia que “dar bons conselhos é insultar a faculdade de errar que Deus deu aos outros”… Direi apenas que reler uma obra como o “Livro do desassossego” compilada sob o heterónimo Bernardo Soares relembra uma definição de “clássico” de Italo Calvino: “clássico é um livro que, mesmo quando lemos pela primeira vez, dá a sensação de que estamos a reler algo familiar, e quanto mais pensamos que o conhecemos através de boatos, mais original, inesperado, e inovador o achamos quando realmente o lemos”. E assim verifico que o que penso, por exemplo, sobre a guerra da Ucrânia, que ando aqui há meses a buscar definir, foi escrito sem espinhas pela caneta do génio há mais ou menos um século; os sublinhados são meus, pontos que além de um neurónio me tocaram um nervo:
“A leitura dos jornais, sempre penosa do ponto de ver estético, é-o frequentemente também do moral, ainda para quem tenha poucas preocupações morais. As guerras e as revoluções – há sempre uma ou outra em curso – chegam, na leitura dos seus efeitos, a causar não horror mas tédio. Não é a crueldade de todos aqueles mortos e feridos, o sacrifício de todos os que morrem batendo-se, ou são mortos sem que se batam, que pesa duramente na alma; é a estupidez que sacrifica vidas e haveres a qualquer coisa inevitavelmente inútil. Todos os ideais e todas as ambições são um desvairo de comadres homens. Não há império que valha que por ele se parta uma boneca de criança. Não há ideal que mereça o sacrifício de um comboio de lata. Que império é útil ou que ideal profícuo? Tudo é humanidade, e a humanidade é sempre a mesma – variável mas inaperfeiçoável, oscilante mas improgressiva”.
Há uns 20 anos eu descrevia aspectos e situações de Portugal entre amigos de amigos brasileiros em S.Paulo; uma das presentes que depois me disseram ser médica ouvia-me fascinada e no fim comentou “que engraçado, ele vem lá da Europa, fala estrangeiro mas eu entendo tudo”. Na mesma altura conheci em Portugal uma mulher adulta pouco instruída que estava plenamente convencida de que o arroz era um tipo de massa, tal como o macarrão, cotovelos, penne, fusilli… A encantadora ignorância, uma característica que os europeus costumavam apontar a autóctones do Novo Mundo, na última década tornou-se cânone universal e entretanto perdeu a graça por ser um meio propício à difusão do orgulho e do ódio. Não sei se fui atingido pela genialidade do mestre ou se atingi a idade do desencanto porque mais uma vez sinto sincronizar-me com as suas dissertações de há cem anos:
“Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis, aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos por que se conquista o internamento num manicómio: a incapacidade de pensar, a amoralidade, e a hiperexcitação”.
O nível de evolução tecnológica que actualmente existe, junto com o nível de desconhecimento do que nos precedeu faz de nós uns idiotas tão engraçados como um robot inteligente despido de memória e moral, e tão perigosos como um robot inteligente despido de memória e moral. Quanto muito no futuro saberemos umas frases bonitas na forma, máximas apartadas do conteúdo de quem as pensou, quiçá reproduzidas no Twitter, e não saberemos fazer a conexão causa/efeito. De tão descontextualizadas algumas chegarão a sugerir conclusões opostas às enunciadas pelos autores. As gerações vindouras nem suspeitarão que essas frases foram pensadas por alguém que pensava e que isso servia para estimular o nosso pensamento, não servia para o substituir. Todos queremos que o peixe apareça no prato (não interessa como) e o que os mestres fazem é ensinar-nos a pescar, até para não sermos nós o pescado. É natural que não tenhamos interesse em saber, que justifiquemos a ignorância pela falta de tempo ou falta de propósito das coisas que “não servem para nada no nosso dia-a-dia” como a poesia, literatura, filosofia, história, matemática, etc, etc, e assim também é natural que no futuro o desligamento da corrente de conhecimento do passado produza conclusões do género:
Para que servem as sobrancelhas? Para prevenir que a espuma do shampoo vá para os olhos.
Porque que temos braços? Para poder tirar selfies.
Porque temos polegares oponentes? Para que o resto da mão segure o telemóvel enquanto os polegares escrevem.
Porque a mão se consegue fechar? Para poder encaixar sobre o rato do computador.
Porque as pessoas têm cara? Para terem pelo menos uma imagem disponível para usar no perfil das redes sociais.
Porque temos duas orelhas? Para poder usar auscultadores estereofónicos e para que os óculos se possam segurar.
Porque temos garganta? Para podermos expressar a nossa “personalidade”.
Porque temos nariz? Para o meter onde não somos chamados.
Porque temos pele? Para que ela exiba em tatuagens o que está encerrado dentro do cérebro. Se a pele é o maior órgão do corpo, então que sirva de montra dos nossos gostos e desgostos.
Porque temos baço? Porque sim.
Porque temos pulmões? Para nos lembrar de ter cuidado quando nadamos no mar.
Porque temos coração? Para dar trabalho aos letristas de música popular. Se não tivéssemos, 77,34% da produção nesta área não existiria da maneira que conhecemos, e se em vez de um coração tivéssemos um alicate escutaríamos mais palavras como tomate, abacate, combate… Uma das expressões máximas do amor seria algo como “o meu alicate corta por ti”.
Porque temos um cérebro enorme? Para justificarmos a nossa supremacia enquanto espécie. As baratas já existiam antes de nós e continuarão a existir depois porque não têm um.
Porque temos um dedo indicador? Para podermos accionar o gatilho de uma arma.
Porque as mulheres têm pelos? Para dar trabalho às esteticistas.
Porque temos dois grandes dentes à frente? Para poder dizer “foda-se”; não o poder dizer é a maior frustração dos desdentados.
Porque é que os homens jovens têm vários órgãos sexuais? Porque a pila serve para urinar, o pénis para fazer amor, e o caralho para foder. Eis a razão porque os velhos só têm pila.
Porque é que os mares ocupam a maior parte do globo? Para termos onde despejar o lixo longe da vista. Produzir lixo é natural daí não nos incomodar produzi-lo, incomoda-nos é quando ele é devolvido às praias que frequentamos.
Porque é que a vegetação da Terra é verde e o céu azul? Para nos tranquilizar. Se fossem vermelhos já teríamos rebentado com o planeta, aquilo que parece ter sucedido em Marte. Qualquer seguradora sabe que os automóveis de cor vermelha são mais propensos a acidentes.
Porque existe a Lua? Por tantos motivos… Eis dois: para proporcionar o período nas mulheres e esconder bases extraterrestres no lado oculto.
Porque as crianças são pequenas? Porque se fossem grandes quando fazem birras seriam monstros aterradores.
Porque temos animais de estimação? Porque também queremos participar no jogo que os outros jogam. O nosso animal é o nosso avatar nesse universo dos jogos de sociedade.
Porque existe pão? Para o cereal se guardar durante algum tempo. Porque agora se estraga tão rapidamente? Para ter que se comprar mais vezes.
Porque desenvolvemos miopia e surdez à medida que envelhecemos? Para manter o equilíbrio mental filtrando o excesso de informação do ambiente.
Porque existem religiões? Para descriminar e matar o outro por motivos nobres e inimputáveis.
Porque existe o ódio? Para impedir que nos tornemos demasiado humanos.
Porque temos doenças? Para que médicos, hospitais, farmacêuticas, laboratórios, curandeiros e actividades afins ganhem todo o dinheiro que for possível extrair de nós antes de nos finarmos.
Para que morremos? Para dar trabalho às funerárias e motivo para se publicarem mensagens com a legenda RIP.
*Músico e embaixador do PLATAFORMA