
Para os astrólogos o primeiro banho de luz ao nascer marca o indivíduo com as características do clima planetário do momento
Não sei se assim é, no entanto acho curioso que no espaço de 13 dias tenham nascido Charlie Chaplin, Hitler, Wittgenstein e Salazar, quatro figuras com poder de influenciar a vida e o pensamento de milhões de pessoas. Talvez o momento do nascimento seja significativo mas tão ou mais importante são as circunstâncias em que o carácter se molda. Vim ao mundo dois meses após o início da guerra colonial, e uma semana depois do início da corrida espacial. Uma das fases mais importantes da minha vida foi a época da revolução dos cravos uma vez que coincidiu com a passagem para a adolescência; a mudança que ia sentindo nas glândulas correlacionou-se com a efervescente atmosfera social, deveras distinta da vivida até à madrugada do dia da revolução. Vou relembrar alguns aspectos desse tempo e outros mais antigos referindo-me a eles como “dantes”, comparando-os com a actualidade a que chamarei “agora”. Nunca em momento algum desejaria voltar ao “dantes”; as conquistas de direitos e igualdades, as convicções, opções, condições físicas ou psicológicas de cada um deveriam manter-se respeitadas de forma irreversível. Também sou resultado da geração “Star Wars”, uma saga cinematográfica de aventuras em galáxias onde humanos convivem com uma miríade de espécies, de alienígenas a robots, e que foi lançada três anos depois do 25 de Abril, contribuindo para a minha formação numa fase crucial do desenvolvimento. Ser o resultado desta ambiência não é melhor nem pior, é o que é; talvez pensássemos à escala universal mas descurámos a Terra. Tínhamos poucas ferramentas e grandes sonhos, agora há muitas ferramentas e os sonhos parecem reduzidos ao quotidiano material. É natural, deixámos muita coisa estragada que precisa de conserto. Mas atenção, por ter vivido duas realidades distintas, a expansão e a contracção, tenho consciência de algumas conquistas serem falácias que não contribuíram para o avanço civilizacional; uma meia-dúzia de entidades conserva-nos num estado primitivo, o que mudou foi a sofisticação dos meios de controlo. As considerações que tecerei de seguida são constatações, digamos, “artísticas”, muitas despidas de juízos de valor, e quando o têm enquadram-se na perspectiva de entender como se chegou aqui, lidar com o que há, e olhar em frente, melhorando.
Dantes o passado parecia a preto e branco, o presente cinzento e o futuro colorido; agora o passado parece colorido, o presente (baseado numa radical polaridade) a preto e branco, e o futuro cinzento. No tempo de Salazar – um enfadonho burocrata – vivíamos orgulhosamente sós; agora no tempo da União Europeia vivemos orgulhosamente acompanhados de outros enfadonhos burocratas. Dantes as férias eram um mês num ano de trabalho; agora, com sorte, o trabalho é um mês num ano de férias. Dantes trabalhávamos para gozar a reforma, agora é a reforma que goza connosco. Dantes a televisão era um luxo, agora é um lixo. Dantes a publicidade era uma agradável pausa entre programas, propiciando cócegas ao espírito; agora os programas são pausas entre publicidade, uma praga voraz que interrompe tudo e causa uma irritante coceira no espírito. Dantes o natal era a 25 de Dezembro, o apogeu de uma festa religiosa aguardada todo o ano; agora são dois meses de frivolidade capitalista. Dantes havia quem casasse só para encobrir a homossexualidade; agora há quem case só para expor a homossexualidade. Dantes violavam-se mulheres em segredo, uma vergonha; agora as violações são filmadas e difundem-se com orgulho. Dantes ganhavam-se fortunas em negócios da China, agora os chineses ficam com o negócio todo. Dantes a água da torneira aparentava ser boa e bebia-se frugalmente; agora deve continuar boa mas compram-se e bebem-se litros de água engarrafada, obrigando-nos a andar acorrentados a um urinol. Dantes só nos despíamos perante um médico, agora até para entrar num avião nos despimos. Dantes fazíamos exames para descobrir a doença, agora fazemos exames para provar que somos saudáveis; por este andar qualquer dia voltamos a picarmo-nos e a pintar os lábios com sangue para não sermos eutanasiados.
Dantes viam-se fotos de mulheres nuas com farfalhudas pentelheiras expostas em calendários de garagens; agora veem-se fotos de abelhudas sem maneiras, expondo-se tapadas… de tatuagens. Dantes o bigode era uma galhardia na cara de uma velha ou de um macho qualquer; agora é uma bizarria, só existe na Turquia ou na vulva da mulher. Dantes havia a classe do cidadão, humanos individualizados, nomeados senhoras e senhores; agora somos carne pra canhão, só um número de desempregados, refugiados, consumidores. Dantes ficávamos à tona pouco tempo, a morte chegava a um doente ou naturalmente; agora afogados em medicamentos vivemos até estourar por dentro, subitamente. Dantes ninguém pensava na linha ou contava calorias no café da manhã; agora se comermos uma simples batatinha inchamos como o boneco da Michelin. Dantes toda a gente se preocupava com o importante, acima de tudo o mais notório; agora toda a gente se preocupa com o irrelevante, o supérfluo, o acessório. Dantes os deuses eram o único objecto de adoração, e nós os seus devotos seguidores; agora adora-se o diabo a sete, a vida do jet set e seguimos influenciadores. Dantes o futuro pertencia a Deus, representado na Terra por pontífices ou imperadores; agora pertence a cientistas ateus que trabalham para esses mesmos senhores. Éramos um rebanho controlado p’la ignorância, pelo medo, lutando por fronteiras nacionais; agora somos um cardume desorientado, lutando por um espaço nas redes sociais. Comunicamos de segundo a segundo, de minuto a minuto, a toda a hora; estamos ligados com amigos, com o mundo, mas a solidão não se vai embora. Dantes a palavra era sagrada e usada com moderação; agora que a palavra foi vulgarizada perdeu significado no meio da confusão. Mas o verdadeiro conhecimento mantém-se hoje e sempre oculto da população, entopem-se os ouvidos, vista e pensamento com muita distracção e muita informação. Dantes “cultura” era mais lavrar a terra que a memória e identidade de um povo, coisa pouca… Agora nem uma coisa nem outra.
*Músico e embaixador do PLATAFORMA