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“Começam a ser criadas condições para o desenvolvimento do ‘think tank’ sobre a Ásia”

Catarina Brites SoaresCatarina Brites Soares

As Conferências da Primavera – que arrancam no próximo mês – é um dos exemplos que a presidente do Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) destaca. Nos dois anos que leva à frente da instituição em Portugal, Carmen Mendes realça a aposta em fazer do Centro um pólo de excelência. Cruzar a investigação com setores como o diplomático e o empresarial tem sido uma das prioridades para lograr o ‘think tank’ que definiu como meta em 2020. O Patuá, crioulo de Macau, e o Cantonês não foram esquecidos 

As Conferências da Primavera – que terão lugar até abril – são uma das traves mestras do Centro. De que maneira contribuem para o objetivo de fazer dele um pólo de excelência?

Carmen Mendes – Criámos um portal académico no site do CCCM com informação sobre todos os portugueses que trabalham a Ásia, e que mostraram interesse em aqui divulgar os projetos e publicações. Simultaneamente, temos promovido o encontro académico de todos eles. Na Primavera passada isto foi feito online, mas este ano já vai decorrer num formato híbrido. Temos optado pela divisão em três temas: Macau, China e a restante Ásia, mas no futuro poderemos ter a autonomização de outras zonas do continente, dependendo do número de participantes. As conferências vão ser de 9 a 12 de março, sobre Macau; de 28 a 2 de abril, China; e entre 18 e 23 de abril, dedicadas à Ásia. Nos sábados das três conferências a língua de trabalho será o inglês, abrindo a participação a estrangeiros que não sabem português, permitindo ao Centro assumir um papel chave no intercâmbio de conhecimento sobre estas matérias também a nível internacional.

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– Afirmou que o Centro tem capacidade para reunir a massa crítica lusófona dedicada à Ásia. Como se pode tornar no ‘think tank’ que ambiciona?

C.M. – É um projeto de médio ou longo prazo, um caminho que se vai construindo lentamente na ligação à sociedade, às empresas e aos diplomatas. Temos desenvolvido ações ao nível do espaço comunitário, como a colaboração com a Universidade Alcântara Sénior na lecionacção da disciplina de Cultura Chinesa e História de Macau, e planeamos a oferta de cursos para a divulgação da história e cultura de Macau, da China e restante Ásia. Estamos em conversações com uma rádio local para a criação de visitas de estudo online ao Museu, bem como um programa de ensino da cultura chinesa através da língua chinesa, que será falada em Mandarim, Cantonense e Patuá. Também estamos a organizar uma Oficina do Patuá. Além das iniciativas dirigidas ao público, planeamos continuar a organizar eventos dirigidos ao tecido empresarial e a oferecer formação. Da parte dos diplomatas portugueses na Ásia e dos asiáticos em Lisboa também tem havido grande recetividade. Isto só foi possível com o apoio permanente da Fundação Jorge Álvares, que tem sido o mecenas principal do CCCM.

– O estudo de Macau como ligação entre o Ocidente e o Oriente, e entre a China e o Mundo Lusófono tem sido uma das linhas primordiais do Centro. Em que temas quer que se centre?

C.M. – As Coleções que criámos permitem-nos acolher propostas em várias áreas. Por exemplo, lançámos no mês passado o Referencial: Ensino de Português Língua Estrangeira na China (Maria José Grosso, Jing Zhang, Catarina Gaspar e Madalena Teixeira), um livro editado com a Universidade de Macau. Temos outros para sair nesta área da Língua e Cultura, mas também de História e Estudos Contemporâneos. Para além dos livros, estamos a organizar números especiais em revistas nacionais e internacionais, com algumas das comunicações apresentadas nas Conferências da Primavera. Temos painéis sobre o papel de Macau enquanto plataforma de ligação Oriente/Ocidente e entre a China e o Mundo Lusófono, com muitos investigadores envolvidos, incluindo da região e restante Lusofonia.

– Está satisfeita com o resultado?

C.M. – As Conferências da Primavera, mobilizando a generalidade dos investigadores sobre Ásia, China e Macau, são um exemplo da capacidade agregadora e mobilizadora do CCCM, e do papel central que tem nos estudos asiáticos em Portugal. O alargamento a investigadores estrangeiros, como está previsto, permitirá ao Centro assumir um papel-chave a nível internacional. Cruzando a vertente de investigação com outros setores da sociedade, como o diplomático e o das empresas, começam a ser criadas as condições para o desenvolvimento a médio, longo prazo do ‘think tank’.

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– Além de Macau como centro de intercâmbio, que outras áreas de investigação assumem predominância?

C.M. – O CCCM tem como áreas privilegiadas as relações internacionais, a história, a filosofia, a língua e a tradução chinês/português, bem como as línguas minoritárias, como por exemplo o crioulo macaense. Tal não significa que não possa abrir-se a outros campos de investigação tais como o científico, e o diálogo entre as medicinas ocidental e chinesa ou outro tipo de ciências, matemáticas ou humanas.

– Outra das prioridades quando assumiu a liderança foi o de atrair investigadores nacionais e internacionais de excelência. O que tem sido feito nesse sentido?

C.M. – A definição de uma política editorial, com a criação de um Conselho Editorial internacional, garantindo um sistema de revisão por pares, a negociação de números especiais junto de revistas científicas e a criação de várias coleções de livros têm atraído muitos investigadores a publicar o trabalho no CCCM, pelo que temos várias obras no prelo. Outro aspeto essencial é o facto do CCCM promover o acesso a bolsas de investigação de Doutoramento, com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Desenvolvemos também um programa de estágios curriculares e de voluntariado. Por fim, não podemos esquecer que o CCCM tem a melhor e mais completa biblioteca de obras asiáticas em Portugal e isto, por si só, traz os melhores aqui.

– Há dois anos, realçava também a importância da instituição estar próxima da comunidade.

C.M. – Entre outras apostas – como os programas de voluntariado e de estágios curriculares – tem-se procurado o envolvimento do setor empresarial em ações de mecenato, como é o caso do catálogo do museu. Pretende-se que seja uma obra de referência da história das relações entre Portugal e China e das condições que levaram ao estabelecimento da cidade de Macau, assim como da arte chinesa, com base nas coleções do museu. O livro fará um enquadramento histórico, cultural e artístico. O catálogo, além de dar a conhecer a coleção, pretende fazer uma reflexão sobre Macau no passado, presente e futuro. A componente da formação também tem sido privilegiada.

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– A par dos já mencionados, há mais projetos com entidades de Macau?

C.M. – Outro que temos em mãos é a criação da Portuguese Asian Digital Archives Network, em parceria com a Universidade de Macau e com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. A rede visa dar a conhecer e facilitar o acesso a investigadores e estudantes, a materiais históricos dos arquivos fundamentais sobre a longa e contínua história das relações de Portugal com a Ásia.

– Na Europa, quer que o CCCM continue a trabalhar com parceiros em várias redes académicas como a European Association for Chinese Studies, a EastAsiaNet e a European Alliance for Asian Studies, para desenvolver novos rumos de investigação. Que novos rumos são esses?

C.M. – Organizámos eventos online nas várias áreas e, depois de alguma reflexão, acabámos por reformular a política editorial e criar várias Coleções para as nossas publicações, incluindo História, Estudos Contemporâneos, e Língua e Cultura.

– Já sobre Portugal, afirmou que interessava a colaboração interinstitucional – essencial para potenciar o estatuto neutro do CCCM. A que se refere com neutro?

C.M. – O Centro de Macau não pode oferecer cursos conferentes de grau, por isso não concorre com as instituições de ensino superior. A questão que habitualmente se coloca aos professores sobre se devem envolver-se em projetos noutras instituições e se estar a contribuir para o sucesso da “concorrência” lhes vai colocar problemas “em casa”, aqui não se coloca. É muito importante em Portugal termos um espaço com esta neutralidade, porque as pessoas que trabalham a Ásia, sobretudo na área dos estudos mais contemporâneos, estão dispersas por diferentes instituições a trabalhar em departamentos que nada têm a ver com a Ásia. Isto dificulta o juntar de massa crítica para concorrer a financiamentos, desenvolver projetos e organizar publicações conjuntas. O Centro de Macau oferece um espaço neutro onde se juntam investigadores de várias partes.

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