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Carmen Amado Mendes: “Temos capacidade para reunir a massa crítica dedicada à Ásia”

Gonçalo Lobo Pinheiro

Carmen Amado Mendes, académica de carreira, tomou posse como presidente do Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) em Lisboa, substituindo Luís Filipe Barreto, no início deste ano. O Governo português espera que a especialista em Relações Internacionais posicione o CCCM como centro de referência internacional em estudos asiáticos e interculturais e de atividades científicas de referência na cooperação e relação Europa-Ásia. A Professora Associada com Agregação da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, igualmente membro-fundador do Observatório da China em Portugal, acedeu a conversar com PLATAFORMA sobre o Plano Estratégico da instituição para 2020-2030 e, claro, sobre Macau e sobre a China

Que balanço faz da discussão pública da proposta de Plano Estratégico do CCCM para 2020-2030 apresentada no dia 18 de Setembro?

A sessão correu muitíssimo bem, com a intervenção de investigadores de várias Universidades, jovens e seniores, que demonstraram interesse e empenho em trabalhar connosco na implementação do Plano Estratégico ao longo da próxima década. O debate foi dinamizado por estudantes de mestrado e doutoramento, alguns deles interessados nas bolsas de investigação sobre a Ásia – financiadas pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia – que o CCCM irá anunciar em breve. Assinámos protocolos com diversas instituições de ensino superior, incluindo de Macau e da China, e com fundações, agências e associações, com quem estamos a trabalhar. A sessão foi encerrada pelo Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Professor Manuel Heitor, muito empenhado em apoiar o CCCM na prossecução da sua missão.

Deverá dar-se particular destaque ao Japão, Coreia do Sul e Índia, mas também considerar a Malásia, tendo em conta a relevância que em Macau é dada a Malaca

Como estava o Centro quando chegou. Porque razão o CCCM priorizou, nos últimos anos, os estudos histórico-culturais de Macau durante os sec. XVI e XVII? Que outras prioridades podem surgir?

Penso que essa característica foi atingida na área da história, mas há margem para o desenvolvimento de investigação em diversas vertentes: se anteriormente se colocava o enfoque no passado, atualmente os estudos devem ser aprofundados e alargados para a contemporaneidade. Neste sentido, a atividade de investigação prioritária para os próximos anos será enquadrada na perspetiva das Relações Internacionais, embora privilegiando projetos que apresentem ligações a outras áreas, como a História, a Economia ou o Direito. As prioridades incluem ainda a promoção do Museu e a divulgação da Biblioteca e das suas coleções, integrando-as em redes nacionais e internacionais. Vamos, por exemplo, criar uma linha de investigação dedicada ao espólio museológico e documental. Na verdade, o principal obstáculo à implementação de novos projetos é o reduzido número de pessoas que atualmente trabalham no CCCM, mas considero que temos capacidade para reunir a massa crítica dedicada à Ásia existente em Portugal e até nos Países de Língua Portuguesa. A médio e longo prazo, o Centro deverá posicionar-se como um think tank da Ásia em Portugal, um dos principais pontos de encontro das várias entidades públicas e privadas que trabalham estas temáticas, incluindo investigadores e elementos da sociedade civil.

Fotografia de Gonçalo Lobo Pinheiro

No que é que o CCCM pode contribuir para a lusofonia, em latu sensu?

O Centro, posicionando-se como uma instituição nacional e transnacional, deverá ser percecionado pelas entidades dos Países de Língua Oficial Portuguesa como uma instituição de referência na investigação sobre o Oriente. Poderemos criar uma espécie de observatório para o Mundo Lusófono, que também inclua investigadores desses países. Entre as linhas de investigação a desenvolver, inclui-se o estudo do papel de Macau enquanto plataforma de ligação entre o Ocidente e o Oriente e, mais recentemente, entre a China e o Mundo Lusófono. Em suma, a dinamização de programas de ação científico-cultural que contribuam para o aprofundamento do conhecimento das relações entre a Europa e a Ásia, e entre a China e o Mundo Lusófono.

Transformei-me numa gestora pública e a vida académica ficou suspensa

Em que ponto estão os Estudos Asiáticos em Portugal e, em particular, o estudo da China. Há interesse das pessoas?

Em Lisboa, para além do Mestrado em Estudos Asiáticos da Universidade Católica e da Licenciatura em Estudos Asiáticos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, há alguns programas de Mestrado e Doutoramento que têm tipicamente uma ou duas disciplinas sobre a Ásia. Aveiro, em colaboração com o ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, tem o Mestrado em Estudos Chineses. Na área da tradução português/chinês, a Universidade do Minho tem o Mestrado em Estudos Interculturais e o Politécnico de Leiria tem a Licenciatura de Tradução e Interpretação. Este ano, a procura por cursos na área dos estudos asiáticos aumentou e noto uma crescente curiosidade pela China na sociedade civil em geral, pelo que decidimos divulgar no site do CCCM uma oferta formativa avançada e contínua bastante diversificada, para além da área obrigatória da língua e cultura chinesa, claro.

Como está a relação do CCCM com o Governo de Macau? E com organismos de matriz portuguesa em Macau como o IPOR, IIM, entre outros.

O CCCM tem boas relações com a Delegação Económica e Comercial de Macau em Lisboa, que transmitiu o incentivo a que o Centro, com o seu estatuto e posição privilegiada, alcance os meios para o impulsionarem como centro de referência internacional em estudos asiáticos e interculturais. Com o Instituto Internacional de Macau, que tem representação em Lisboa, a relação é de grande proximidade. Em Macau, temos também demonstrado disponibilidade para cooperar com as instituições de ensino superior, e já assinámos um protocolo com a Universidade de Macau.

A procura por cursos na área dos estudos asiáticos aumentou e noto uma crescente curiosidade pela China na sociedade civil em geral

Haverá um aumento de recursos humanos e financeiros no CCCM?

O protocolo que assinámos com a Fundação para a Ciência e a Tecnologia no dia em que apresentei publicamente o Plano Estratégico do CCCM, a 18 de Setembro, vai permitir termos mais investigadores a dinamizar projetos de investigação no CCCM e atribuir bolsas de doutoramento a estudantes que colaborem nesses projetos. Por outro lado, a ocupação de alguns dos edifícios do CCCM por entidades externas, relacionadas com a Missão do Centro, vai permitir-nos ter recursos financeiros, não só para reabilitar o património, mas também para expandir o Museu e o Centro de Documentação. A existência de um polo de Macau, ou mais ainda, de uma plataforma Europa-Ásia, no espaço do CCCM, vai permitir criar massa crítica resultante do convívio diário de pessoas de entidades empresariais, académicas e governamentais. O CCCM é o único sítio do país com capacidade de reunir este grupo de especialistas e interessados na Ásia provenientes das várias dimensões governamentais e societais, de Portugal e do estrangeiro.

Com esta responsabilidade acrescida na sua vida, a sua vida académica fica suspensa nestes 10 anos, ou pondera continuar a produzir trabalhos académicos e/ou livros?

O balanço destes primeiros meses reflete precisamente isso: transformei-me numa gestora pública e a vida académica ficou suspensa, com exceção de questões pendentes que vinham de trás e às quais tive de dar continuidade, por exemplo a orientação de duas doutorandas chinesas. Esta fase tem sido muito absorvente porque implicou, por um lado, a definição dos objetivos – estampados no Plano Estratégico – e, por outro, negociações com várias entidades interessadas em instalar-se no CCCM, bem como a definição das obras a executar para recuperar o edificado e dinamizar o espaço. Assim que a implementação do plano diretor esteja bem encaminhada, espero voltar à investigação, mais numa perspetiva de coordenação de projetos, atraindo para o CCCM investigadores nacionais e internacionais de excelência.

Poderemos criar uma espécie de observatório para o Mundo Lusófono, que também inclua investigadores desses países

O CCCM tem algum tipo de relações institucionais com organismos da República Popular da China?

O Memorando de Entendimento, assinado em 2018 entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior português e o Ministério da Ciência e Tecnologia da República Popular da China, sobre a Promoção das Atividades de Cooperação para a Implementação da Parceria China-Portugal Ciência e Tecnologia 2030, refere a promoção da colaboração da China e de instituições chinesas com o Centro Cultural e Científico de Macau. No quadro desta Parceria, o CCCM deve então afirmar-se como uma das principais instituições de ligação entre os dois países. As relações com a Embaixada da China em Portugal são boas e temos proximidade com algumas instituições chinesas. Por exemplo, com a Universidade de Shanghai, com quem estabelecemos um protocolo, já organizámos um workshop conjunto sobre a história dos intercâmbios culturais sino-europeus – disponível para visualização no site do CCCM -, área em que demonstraram grande interesse em explorar futuros projetos de cooperação.

Fotografia de Gonçalo Lobo Pinheiro

Sendo um centro científico dedicado a Macau e, por conseguinte, à China, que outros países ou regiões asiáticas podem caber nas relações que a vossa entidade pode vir a ter no futuro?

O estatuto do CCCM enquanto produtor e disseminador de conhecimento sobre Macau e o seu contributo para as relações luso-chinesas determina que o foco principal seja Macau e a China continental. Em relação aos outros países asiáticos, poderão ser alocados alguns recursos para acolher iniciativas propostas e identificar oportunidades que contribuam para evidenciar o dinamismo do Centro e aumentar a sua visibilidade. Deverá dar-se particular destaque ao Japão, Coreia do Sul e Índia, mas também considerar a Malásia, tendo em conta a relevância que em Macau é dada a Malaca, e Singapura, expoente máximo do conceito de “modernidade asiática”, bem como o Vietname, o Sri Lanka, a Tailândia, Indonésia e Timor-Leste. A Rússia deverá ser considerada numa abordagem mais geopolítica, no contexto da Eurásia.

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