2021 visto por jornalistas de Macau - Plataforma Media

2021 visto por jornalistas de Macau

Macau 2021

O ano termina, mas as memórias ficam. Num exercício de reflexão, jornalistas locais de língua portuguesa, inglesa e chinesa falaram ao PLATAFORMA e destacaram alguns dos momentos pelos quais Macau passou, bem como algumas das mudanças mais significativas para a cidade em 2021.  

Gonçalo Lobo Pinheiro, fotojornalista do Ponto Final: 

– “O último número do jornal de Hong Kong, Apple Daily, esgotou às primeiras horas da manhã do dia 24 de junho na região vizinha e chegou a Macau ao final da tarde, onde esgotou igualmente. Algumas centenas de exemplares não chegaram para a procura. Pessoas formaram filas para adquirir um exemplar. Por apenas 11 patacas, um único exemplar foi permitido ser levado por quem fez questão de guardar, para sempre, o último suspiro daquele jornal, um pedaço de história”.  

Apple Daily
Venda da última edição do jornal Apple Daily

Pedro Arede, jornalista do Hoje Macau: 

– “Diria que a desqualificação de candidatos, foi um acontecimento marcante por definir as regras através das quais os detentores dos cargos políticos e legisladores devem respeitar a partir de agora para participar na vida política. Na base do novo paradigma, está a concretização dos princípios “Macau governado pelas suas gentes” e “Macau governado por patriotas” na implementação correta do princípio “Um País, Dois Sistemas” e a alteração à Constituição da República Popular da China aprovada em 2018 e que acrescentou que “a liderança do Partido Comunista da China é a essência do socialismo com características chinesas”. A materialização de novos critérios patrióticos teve efeitos imediatos na composição das forças políticas em sede de plenário e teve o condão de deixar de fora deputados históricos e com dezenas de anos de serviço como Ng Kuok Cheong e Au Kam San ou o jovem Sulu Sou, que ficaram assim arredados do espetro político, não apenas agora, mas também, aparentemente, em futuras eleições.  

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Sulu Sou e Scott Chiang

Acerca da detenção de Alvin Chau, julgo tratar-se de uma clara demonstração de que o setor do jogo está a caminhar para mudanças de fundo. Aliado ao discurso da diversificação da economia de Macau, à elaboração da nova lei e da necessidade de “crescimento saudável do setor do jogo”, a detenção de Alvin Chau (símbolo máximo dos promotores da indústria do território) precipitou o encerramento de várias salas VIP. O efeito do caso Suncity não só levou ao encerramento de salas do grupo e de outros junkets, como também fez tremer alicerces que julgávamos ser inabaláveis durante décadas. O futuro parece incerto para o setor, ao mesmo tempo que a aclamada diversificação parece inevitável. No entretanto, muitos trabalhadores perderam os seus postos de trabalho num ajuste de contexto adensado pela pandemia da Covid-19 como pano de fundo. Parece ser a “tempestade perfeita” para empurrar/forçar definitivamente a economia de Macau para a exploração de novos horizontes”. 

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Keng Ma, jornalista (pediu para não identificar o local de trabalho) 

– “Com o fim de 2021, olhando para trás, a vida sob a pandemia tornou-se no novo normal. Escolho destacar dois eventos: 

Em primeiro lugar, a taxa de afluência nas eleições da 7.ª Assembleia Legislativa de Macau, realizadas a 12 de setembro, foi a mais baixa de sempre, o que está indissociavelmente ligado à desqualificação do campo pró-democracia de se candidatar às eleições. Após a “segunda transferência” de Hong Kong, deixou de haver lugar para os “vasos da democracia” na Assembleia de Macau. Depois deste campo político ter sido excluído da legislatura, a função de controlar o Governo ficou muito enfraquecida, e os “moderados” assumiram agora essa função de criticar. No entanto, a ausência do campo democrático na Assembleia Legislativa marca basicamente o fim da consciência democrática em Macau. Claro que não podemos excluir a possibilidade de sufrágio universal no futuro, mas é certo que os candidatos serão examinados pelas autoridades pelo seu passado político, e que a democracia com “características chinesas” se tornará uma realidade. 

Eleições legislativas de Macau

Destaco também o caso de Alvin Chau, no seguimento do seu mandado de detenção aprovado pela Procuradoria Popular Municipal de Wenzhou por suspeita de estabelecer casinos ilegais. No dia seguinte à notificação das autoridades chinesas, a polícia da RAEM deteve-o, juntamente com outros suspeitos. O líder das salas VIP de Macau foi reduzido a nada em poucos dias, com uma série de operadoras de jogo a estabelecerem uma linha quanto à participação dos junkets na indústria. O incidente está relacionado com a escassez de capital estrangeiro no Partido Comunista Chinês e a necessidade de colmatar a saída de fundos, pelo que Alvin Chau foi utilizado como “efeito dissuasor”. Este acontecimento teve um enorme impacto em toda a indústria de Macau. Primeiro, porque um grande número de pessoas irá para o desemprego; segundo, as salas VIP costumavam ser responsáveis por 70 a 80 por cento das receitas de jogo no seu pico. Agora que as salas fecharam, é difícil ser-se otimista quanto ao que irá acontecer ao setor, lembrando que as concessões expiram em junho de 2022”. 

José Carlos Matias, diretor da Macau Business: 

– “2021 é o segundo ano da Era Covid. A gestão da pandemia e o impacto socioeconómico da doença são aspetos omnipresentes ao longo do ano. Se por um lado, Macau conseguiu prolongar por vários meses a ausência de casos, mesmo importados – o que constitui um registo absolutamente notável e invejável – a segunda metade do ano trouxe à tona insuficiências ao nível do ritmo de vacinação, colocando a cidade numa situação embaraçosa, que tem vindo gradualmente a ser corrigida. 

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A cidade viveu vários momentos em que a recuperação económica estava em marcha, graças ao regresso do turismo do interior da China, antes de um novo surto; primeiro do outro lado da fronteira; depois, dentro de portas, descarrilar esse processo.  

O impacto da pandemia na economia e nas empresas faz-se sentir por todo o mundo. Em Macau também é visível a olho nu – com o aumento do desemprego e sobretudo do subemprego e o encerramento de muitos pequenos negócios. Essa é outra das histórias do ano. A gestão da pandemia e do impacto social e económico trouxe exigência e grandes desafios ao Governo. 

Mas a nível económico e empresarial, a manchete escreve-se com a indústria do jogo. Num ano em que a melhoria do setor foi inferior ao que tinha sido projetado, as autoridades começaram a desenhar a nova fase daquela que tem sido a indústria-chave da cidade ao longo das últimas décadas. O documento de consulta pública sobre a revisão da lei do jogo – apresentado em setembro – deu os sinais de uma viragem no modelo, rumo a um claro reforço da supervisão e regulação a vários níveis e uma proposta de via para a tão almejada diversificação económica. Todavia, o “abalo” no modelo de jogo vigente veio no final de novembro com a detenção de Alvin Chau e o colapso do setor junket. As mudanças resultantes deste desenvolvimento ainda só agora se estão a manifestar. 2022 vai trazer à tona essa mesma transformação.  

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Setembro foi também o mês do anúncio do muito aguardado “Projecto Geral de Construção da Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin” – um novo modelo de gestão e integração cujo objetivo principal anunciado é alavancar a diversificação económica de Macau com destino marcado para 2035. Hengqin, que já era um desígnio, é agora uma missão para a RAEM. Um projeto que vai seguir em frente e que será ele também propulsor da transformação da região e do modelo de integração regional mais amplo da Área da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau”. 

Esclarecimento do PLATAFORMA:

Vários jornalistas de língua chinesa responderam ao PLATAFORMA, pedindo que as suas opiniões fossem publicadas sob anonimato. Compreendemos as razões, contudo, entendemos que a proteção das fontes não deve ser estendida à opinião que, para ser válida, deve ter rosto. Pedimos por isso desculpa a quem quis colaborar connosco, bem como aos leitores que assim ficam privados da relevante opinião dos nossos colegas jornalistas. Mas neste contexto, entendemos ser nosso dever não as publicar. 

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