A linha ténue que separa apreciação de apropriação cultural - Plataforma Media

A linha ténue que separa apreciação de apropriação cultural

Aprender a apreciar, respeitar e compreender uma cultura diferente é um atributo necessário para qualquer cidadão global. No entanto, a linha que separa a apreciação pela cultura de outro país e a apropriação da mesma é, muitas vezes, ténue.  

Em 2018, uma estudante norte-americana do ensino secundário foi acusada de apropriação cultural por vestir um qipao na sua festa de finalistas. A publicação suscitou uma série de gostos, partilhas e comentários online, mas vários foram os que ficaram descontentes. “Tenho orgulho na minha cultura, incluindo as barreiras que o grupo marginalizado que a constitui teve de ultrapassar. Deixar que a nossa cultura sirva o consumismo americano e a população branca é continuar a promover uma ideologia colonial”, disse um dos revoltados. No lado oposto comentou-se: “Que mundo fantástico é este em que vivemos, onde podemos partilhar culturas de todo o mundo, incluindo as suas roupas e estilos. Todos somos representações da cultura global e arte humana.” Serão os comentadores demasiado sensíveis ou o comportamento da aluna foi, de facto, inaceitável? 

A apreciação cultural é a tentativa por um indivíduo de compreender uma cultura diferente, alargar os horizontes e estabelecer interações com outras culturas. Já a apropriação cultural diz respeito à adoção imprópria de costumes, práticas e ideias culturais por um membro de uma comunidade diferente – normalmente de uma dominante.  

É considerada apropriação cultural a participação numa cerimónia cultural apenas para tirar fotos e publicar nas redes sociais, com o objetivo de arrecadar gostos, ou comprar acessórios de uma cultura alheia, simplesmente por estarem na moda. O Halloween é uma das ocasiões onde este fenómeno é cada vez mais comum, dado que é uma altura onde algumas pessoas optam por utilizar elementos culturais para completar o seu disfarce, como roupa e acessórios, maquilhagem e peças artesanais de outra cultura. Considera-se que estes elementos – turbantes sikhs, acessórios de penas de nativos americanos ou maquilhagem indiana – reforçam estereótipos existentes e não têm em consideração o seu significado cultural. Desde o início do ano de 2011 que um grupo de estudantes da Universidade de Ohio tem organizado uma série de eventos para combater este tipo de discriminação. O slogan é “A minha cultura não é um disfarce” (My culture is not a costume), e utilizam-no quase todos os anos na véspera do Halloween, para alertar a população para o conceito de apropriação cultural.  

Significa isto que se usarmos vestuário de outra cultura estamos a fazer apropriação cultural? Em várias cidades turística, como Quioto, Guilin e Seul, há muitas lojas onde os turistas podem alugar trajes tradicionais. Até em Macau podemos encontrar lojas de trajes tradicionais portugueses. Será inadequado os estrangeiros utilizarem roupas tradicionais chinesas durantes festivais chineses ou em outros eventos? 

Analisemos então o conceito de apropriação cultural, começando pela sua definição. O fenómeno inclui a premissa de que grupos marginalizados, cuja cultura é vítima de apropriação, não têm uma voz. Os membros da comunidade dominante emprestam uma cultura estrangeira para fins de entretenimento ou moda, de forma ignorante, sem qualquer intenção de compreender melhor a cultura em questão. A apropriação é considerada nociva quando alimenta a marginalização dos grupos em minoria e reforça estereótipos, ignorando as suas origens e usufruindo dessa cultura na obtenção de benefícios sociais ou económicos (benefício que é adquirido pelo grupo marginalizado). Seguindo esta definição, quando lojas oferecem experiências à volta de trajes tradicionais a explicam a história que estes carregam, o impacto negativo mencionado anteriormente não está presente. 

Também podemos perguntar a nós próprios: “Ficaria ofendido se alguém usasse uma peça de vestuário simbólica para a minha cultura sem compreender o seu significado?” Através desta autorreflexão conseguimos compreender um fator importante do contexto cultural e da sua ligação à identidade de um indivíduo. Se nos sentirmos ofendidos quando alguém se apropria de parte da nossa cultura sem qualquer conhecimento da mesma, então devemos evitar causar o mesmo desconforto aos outros.  

A apropriação cultural não é raiva injustificada, mas ao fazermos acusações de forma tão casual, arriscamos criar alguma oposição ao conceito. Caso alguém se tenha apropriado da nossa cultura, é importante analisar o assunto de forma calma e procurar compreender os motivos da pessoa antes de os alertar para o facto de o seu comportamento poder causar desconforto aos membros da cultura em questão. É necessário criar uma harmonia cultural através da compreensão mútua, cultivando apreciação e não apropriação cultural.  

* Presidente da Associação de Intercâmbio Linguístico e Promoção Cultural (LECPA) 

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