Idoso atravessa a guerra todos os meses para levantar a pensão - Plataforma Media

Idoso atravessa a guerra todos os meses para levantar a pensão

Marcos Tandika, 77 anos, anda a atravessar a guerra em Cabo Delgado todos os meses para levantar o dinheiro da sua reforma e de outros ex-combatentes moçambicanos.

Tandika lutou pela independência contra as tropas coloniais portuguesas e é natural do povoado de Mandela, sul do distrito de Muidumbe.

Desde há um ano que se vê obrigado a fazer corta-mato para fugir aos ataques de rebeldes na província de Cabo Delgado.

Diz à Lusa que segue por “vias alternativas” para escapar à insurgência e chegar à capital provincial, Pemba, a uns 150 quilómetros em linha reta, muitos mais pelos caminhos que percorre.

É em Pemba que desde 2020 tem direito a levantar a sua pensão de 8.500 meticais (115 euros), a pedido das autoridades, devido à impossibilidade de os serviços públicos pagarem pensões nos distritos afetados pelo conflito desde 2017 – sobretudo em Muidumbe, onde os serviços básicos não funcionam porque os insurgentes atacaram e destruíram as infraestruturas do Estado.

Marcos Tandika percorre uma distância de pouco mais de 200 quilómetros, dividida em três dias: sai de Mandela, passa pela comunidade de Nkoé – uma zona que os rebeldes atacaram – até à localidade de Nguida, para depois sair junto à sede de distrito de Macomia, onde finalmente entra num transporte rodoviário.

Até Macomia, a viagem é feita a pé e sem certezas.

Tandika diz que tem sempre medo, sempre receio de cair numa “emboscada de terroristas”, mas “fazer o quê?”. “O dinheiro é preciso, já não consigo trabalhar a terra”, disse na língua shimakonde, uma das mais faladas em Muidumbe e Mueda.

Mesmo numa zona dilacerada, é com algum dinheiro que ainda se compram e vendem bens essenciais que permitem a sobrevivência.

Se Macomia estiver debaixo de fogo, como já aconteceu, o ex-combatente usa a via de Meluco, outra sede de distrito, mas esse percurso obriga-o a pagar a mototaxistas um valor de 1.500 meticais (20 euros), um rombo no orçamento que “não ajuda”.

Se tiver que seguir por Meluco na ida e volta são 3.000 meticais e da reforma não restam mais que 5.500 meticais (74 euros).

“Uma vez dormi dois dias nas matas porque, à minha frente, ouvia-se barulho de pessoas a chorarem”, recordou.

Horas depois ouviu o relato de que “sete pessoas da aldeia Paz, próximo de Macomia, tinham sido raptadas”.

“Eu arrisco porque é a minha única fonte de rendimento. A minha idade já não me permite trabalhar duramente”, no campo, única fonte de sustento por aquelas bandas.

A viagem do combatente é feita a cada final do mês e começa ainda de madrugada, mal o galo canta.

Na sacola leva mandioca seca misturada com gergelim, milho torrado e pilado e água, numa cabaça velha, mas que a mantém gelada.

“A distância é dura, faz-me lembrar os tempos em que íamos aos campos de Nachingwea” e ri-se, numa alusão aos campos de treino na Tanzânia em que os guerrilheiros da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) se preparavam para enfrentar as tropas coloniais portuguesas.

Além de temer a insurgência, Marcos Tandika tem enfrentado intempéries e cheias, sobretudo junto ao rio Messalo que o obriga a subir a troncos, tratados por jovens à beira das margens, como se de canoas de tratasse.

“Um dia caí, mas, graças a deus, a corrente não era forte e consegui salvar-me”, descreve.

Quando sai de casa não só vai atrás da sua pensão, como também leva documentos de pensionistas que não têm coragem de atravessar zonas que nalgum momento já foram ocupadas por rebeldes.

“Eu arrisco-me porque a vida é um desafio”, conclui.

A província de Cabo Delgado é rica em gás natural, mas aterrorizada desde 2017 por rebeldes armados, sendo alguns ataques reclamados pelo grupo extremista Estado Islâmico.

O conflito já provocou mais de 3.100 mortes, segundo o projeto de registo de conflitos ACLED, e mais de 817 mil deslocados, segundo as autoridades moçambicanas.

Desde julho, uma ofensiva das tropas governamentais com o apoio do Ruanda a que se juntou depois a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) permitiu aumentar a segurança, recuperando várias zonas onde havia presença de rebeldes, nomeadamente a vila de Mocímboa da Praia, que estava ocupada desde agosto de 2020.

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