A “curva J” da pandemia

A “curva J” da pandemia

Nos cursos de economia existe uma tese clássica de recuperação económica. No virar dos ciclos económicos, é preciso bater no fundo, limpar gorduras, inovar na produção e na distribuição, adaptar o financiamento… para recuperar. Essa é hoje a tese nos Estados Unidos, como é na estratégia europeia. E esse movimento é feito com a injeção de fundos estatais na economia. Primeira consequência da pandemia: a “curva J”, sendo pilar das teses liberais, com fé no mercado, é guardada na gaveta. Renasce a escola keynesiana de intervenção estatal – até com certa ironia, versão mista de economia planificada com liberdade económica.

Há muito esta realidade estava anunciada, tendo as empresas sufocado à espera da decisão política e da abertura bancária. Contudo, na Europa, a cultura burocrática continua a privilegiar as contas do Estado e os sistemas financeiros, deixando as empresas, sobretudo as de pequena e média dimensão, à mercê daquilo que sobra – que é sempre muito pouco. Esse é o debate que hoje domina as sociedades europeias – já tarde, porque as decisões estão tomadas.

Nos Estados Unidos a estória é diferente. A contração de dívida privada faz parte da cultura de negócios e a banca está mais habituada a correr riscos para alavancar a economia. Por isso a velocidade da recuperação nos Estados Unidos será mais veloz e eficaz.

O novo problema chinês é o bloqueio ocidental à internacionalização da sua economia.

A China é outra questão. A planificação económica faz parte da cultura política, bem como as injeções de capital estatal em empresas públicas – ou privadas, dominadas por empresários ligados ao poder. O novo problema chinês é o bloqueio ocidental à internacionalização da sua economia. A economia interna tem segurado a crise, mas há limites a esse crescimento, estando ainda afetados interesses estratégicos que não se esgotam na exportação de bens e serviços. Esse é hoje o maior desafio chinês: encontrar formas de ser novamente aceite o seu crescimento global, como foi nas duas últimas décadas e agora é mais preciso, para que se cumpra a “curva J” da pandemia.

*Diretor-Geral do PLATAFORMA

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