“Desabafo” pessoal origina projeto para sensibilizar sobre excesso de peso em Cabo Verde

“Desabafo” pessoal origina projeto para sensibilizar sobre excesso de peso em Cabo Verde

Nathaly Soares encontrou num blogue o meio para desabafar e fazer a sua terapia, mas aquilo que era pessoal rapidamente ganhou mais seguidores, tornando-se num projeto para sensibilizar sobre o excesso de peso e outros problemas em Cabo Verde

Aos 34 anos, Nathaly Soares, natural da ilha de São Vicente e residente na cidade da Praia, tem uma grande autoestima, diz que consegue se desafiar e ultrapassar os obstáculos, mas nem sempre foi assim.

Nascida numa família com “todos acima do peso”, recordou que a fase mais difícil foi na escola secundária, com “adolescentes terríveis, bastante cruéis”, que apontavam o seu corpo como um problema e criavam limitações.

“Hoje eu não vejo que tinha limitações, mas a sociedade em si acabava por me criar limitações, dizendo que eu não conseguia fazer as coisas por causa do peso, do meu tipo de corpo, da minha fisionomia. Tudo se resumia ao corpo”, recordou Nathaly Soares, à agência Lusa.

E para exteriorizar e registar tudo o que sentia, em 2014 criou um bloque, onde desabafava, contava as suas histórias, tudo em busca da autoestima. “Chegou uma altura em que tive de resgatar bem lá do fundo”, contou.

Mas aquilo que era uma página pessoal, rapidamente se transformou num projeto maior, com uma página na rede social Facebook criada em 2015, “Plus Size life”, onde divulga as atividades, publica fotos, interage com outras pessoas, para falar de outros temas, o último foi o assédio, moral ou sexual, em que o convidado foi o procurador da República Vital Moeda, e que decorreu no Palácio da Cultura Ildo Lobo, no Plateau, na capital cabo-verdiana.

“Inicialmente a ideia não era ser um projeto, mas era mais uma terapia pessoal, só que com o tempo algumas pessoas foram-se identificando, foram comunicando um pouco mais comigo, mostrando que estavam a ter muitos problemas e que se identificavam e aí é que começou a ganhar forma de projeto e foi crescendo, e acabei por tentar trazer para o projeto algumas coisas que eu fui utilizando para mim”, descreveu a fundadora do projeto.

Em conversa com a Lusa no terraço de casa, em Palmarejo Baixo, cidade da Praia, onde realiza a maior parte dos encontros com outros membros do grupo, a jovem relembrou que outra experiência que teve impacto positivo foi quando pela primeira vez se fotografou usando roupas de cor clara, já que dantes vestia apenas roupas escuras.

“E para quem está a resgatar a sua autoestima a opinião dos outros acaba por ter um peso muito grande, como costumo dizer muito mais do que merecia, mas tem esse peso e nessa fase é importante”, salientou, dizendo que hoje vê sempre o lado positivo de tudo o que antes considerava limitações e que a estava a levar para “o fundo o poço”.

Nathaly Soares disse que tenta sempre responder a todas as pessoas que chegam de novo ao projeto e salientou que quando ela precisou quem lhe estendeu a mão foi a blogueira brasileira Mel Soares.

“Para mim foi muito bom e durante muito tempo fui tentando seguir os passos que ela também foi fazendo para recuperar a sua autoestima. Tínhamos motivos diferentes para ter autoestima destruída, apesar de gorda, os motivos eram diferentes, mas o objetivo era o mesmo”, disse.

O projeto ‘Plus Size Life’ “cresceu bastante” e conta com quase 30 membros, entre mulheres e homens, que participam nas conversas-abertas e em palestras nas escolas, entre eles o denominado “grupo de trabalho”, com cinco pessoas.

No início, disse que foi muito criticada e acusada de estar a incentivar “os gordos”, mas explicou que o objetivo é respeitar as pessoas, que acabam por engordar por diversas causas, como stresse, depressão, problemas de saúde ou alimentação em excesso.

“Já têm mil e uma batalhas para estarem a enfrentar todos os dias e nós vamos lá cair em cima, criar mais um ou dois problemas. Então foi um trabalho bastante árduo, de fazer as pessoas aceitarem-se como elas estão e se não estiverem satisfeitas, tentar mudar”, aconselhou.

“Foi mais difícil no início, agora está a ser um pouco mais fácil, as pessoas estão a começar a entender qual era a real intenção do projeto, não era vangloriar ou incentivar o gordo, mas sim fazer as pessoas acreditarem no seu valor, independentemente da sua forma física”, terminou, dizendo que a ideia é levar o projeto a todas as ilhas de Cabo Vede.

Quem também abraçou o projeto, primeiro como espetadora e agora como ativista, foi a irmã Lídia Soares, médica, que considera que nos casos em que as pessoas se sintam excluídas ou discriminadas, o apoio da família é determinante para se alcançar a autoestima.

“O apoio deve começar de casa, porque nós, como seres humanos, infelizmente não pensamos só por nós mesmos, a opinião da sociedade influencia infelizmente, em maior ou em menor grau, o que nós somos e a forma como nós nos sentimos”, considerou a membro do grupo.

“O apoio é mesmo incondicional”, garantiu a irmã, de 28 anos, recordando que o projeto começou por ser da Nathaly, mas agora é de todos, tendo ganhado uma grande dimensão.

“E estamos muito agradecidos por isso, porque conseguimos ajudar muitas pessoas, que hoje andam de cara levantada e enfrentam a vida de outra forma”, terminou Lídia Soares.

Um estudo sobre o estado nutricional da população cabo-verdiana, publicado em abril de 2019 pelo Instituto Nacional de Estatísticas (INE), revelou que 24,4% da população tem excesso de peso, 7,9% são obesas, 6,2% são magras e 65,5% tem um peso normal.

O mesmo estudo concluiu que a prevalência de excesso de peso na população cabo-verdiana é significativamente superior no sexo feminino (22,8%), contra 17,7% no sexo masculino, e em todos os grupos etários, exceto nas crianças.

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