Festival Fringe em tempos de pandemia

Festival Fringe em tempos de pandemia

A 20.ª edição do Festival Fringe arrancou discretamente esta semana, sem grandes celebrações e prolonga-se até 31. O evento, que tem contado ao longo das anteriores edições com a participação de artistas internacionais vai ser este ano dominado pela presença de grupos locais, devido à situação epidémica que se vive a nível global. Mas estão asseguradas atuações gravadas préviamente. A organização espera trazer energia ao público

Apenas um número muito reduzido de artistas internacionais poderá cruzar a fronteira e entrar em Macau. Os restantes terão de assegurar as respetivas atuações remotamente, através de gravações prévias. Alguns grupos locais que estavam a trabalhar em conjunto com parceiros internacionais sustentam que a pandemia causada pela Covid-19 tem tornado todo o processo de preparação ainda mais difícil. Mas garantem que o objetivo continua a ser animar o público da cidade. Através do teatro, da dança, de exposições e encontros online.

Comunicação Online

Tal como no evento do ano passado, a edição deste ano do Festival Fringe continua a contar com a série “Crème de la Fringe” com dois sub-festivais, o “Todos Fest!” e o “On Site”.

O primeiro é organizado pela Comuna de Pedra e terá a atuação de três grupos: um de bailarinos locais, outro de idosos e um terceiro de portadores de deficiência que vão apresentar, respetivamente os espetáculos “A Tarefa Interminável do Momento”, “Treetalk” e “Dança Simbiótica em Plena Expansão”. Além destas atuações, o “Todos Fest!” contará ainda com uma série de workshops e seminários. A “Dança Simbiótica em Plena Expansão” teve origem no conceito de “DanceAbility” (dança inclusiva), criado por célebre Alito Alessi nos anos 80. Já “Treetalk” surgiu de um workshop de dança para idosos na danceteria Unlock, intitulado “Body in Time”. “A Tarefa Interminável do Momento” foi apresentada pela Comuna de Pedra em colaboração com a Associação dos Familiares Encarregados dos Deficientes Mentais de Macau. Cada uma destas atividades procura mostrar ao público que estes corpos raramente presentes no palco podem ser vistos de forma diferente e possuem também legitimidade artística.

Segundo Jenny, a criadora do “Todos Fest!”, existem várias oportunidades para idosos e portadores de deficiência atuarem, mas ainda continua a ser difícil expressarem-se livremente através da arte, sendo as respetivas apresentações, por vezes, questionadas por outros artistas.

A criadora explicou que a “Dança Simbiótica em Plena Expansão” é um espetáculo em colaboração com Yuenjie Maru, de Hong Kong, que já estudou com o próprio Alito Alessi e “Treetalk” é dirigido pelo diretor da danceteria Unlock, Ong Yong Lock. Devido à pandemia, ambos tinham de fazer isolamento durante três semanas para vir a Macau. Apesar de Yuenjie Maru ter manifestado disponibilidade para cumprir o período de quarentena obrigatório de 21 dias em vigor no território, Ong Yong Lock não pode estar fisicamente presente para dirigir os bailarinos mas, com recurso à internet estabeleceu comunicação com um diretor local que o substituiu e assim conseguiu trabalhar com os alunos.

Jenny, contudo, reconhece que neste meio nem tudo se consegue resolver online, através de uma ligação via internet. No próximo mês de maio a Comuna de Pedra e um grupo de bailarinos portadores de deficiência têm atuação prevista para Macau. Originalmente planeada para o mesmo mês, mas do ano de 2020, esta é uma continuação da colaboração entre um grupo local e o Teatro Hora de Zurique e dos diretores Michael Elber e Chris Weinheimer para o “Trabalho para casa no futuro” e que remonta a 2019. Com a pandemia, o festival de maio do ano passado acabou por ser adiado para o mesmo mês deste ano, tal como a atuação. No entanto, a situação atual leva a que Jenny continue pouco otimista acerca da possibilidade de a equipa suíça poder deslocar-se até Macau para realizar o espetáculo na cidade. “Estamos a tentar trabalhar pela internet, mas não se compara à comunicação presencial, entre as pessoas. Não há milagres”, diz.

Dificuldades para entrar em Macau

O outro sub-festival da “Crème de la Fringe” como se disse acima é o “On Site”, e a responsável pelo evento, Tracy, assinala que o aparecimento do vírus trouxe “muita instabilidade e incerteza” à organização de todo o festival.

Esta vai ser a segunda edição em que “On Site”, que apresenta como vertente principal a dança moderna, integra a rubrica “Crème de la Fringe”. A edição do ano passado contou com convidados do Reino Unido, Espanha, Hong Kong, Guangzhou e Macau. Este ano, visto que a situação epidémica na Europa e nos EUA continua fortemente instável, Tracy esclarece que se concentrou em convidar artistas asiáticos. Todavia, com a evolução da pandemia, o vírus voltou a ser um problema também em algumas províncias chinesas e o Governo de Macau estipulou que estes fizessem isolamento (quarentena de 21 dias) ao entrarem na cidade, o que levou a várias alterações na organização e programação do festival.

“Começámos a organização em maio, junho de 2020. Além das três produções nacionais e uma produção de Macau, tínhamos ainda planos com duas equipas de Taiwan e uma da Coreia do Sul para uma atuação ao ar livre. Mesmo com a pandemia, pensámos que não haveria problema desde que nos focássemos no continente asiático. No entanto, já em novembro passado acabámos por perceber que estes também, muito provavelmente não poderiam estar presentes no território. Mas não quisemos abdicar da respetiva participação, já que são produções que estivemos a preparar durante muito tempo e todos querem muito participar. Por isso pedimos que gravassem um vídeo em vários locais que considerassem característicos das respetivas regiões e o partilhassem connosco. Esta ideia vai também ao encontro do conceito “On Site”. Vamos exibir estes três vídeos durante a “On Site: Viajante do Corpo”, adianta.

A diretora reconhece que, com a incerteza trazida pela pandemia, isso acabou por resultar numa comunicação reforçada e permanente sobre todos os aspetos dos festival. Por exemplo, alguns artistas do continente estavam preocupados com a situação epidémica nas respetivas regiões e viram-se obrigados a substituir alguns dos participantes que integravam originalmente as produções. Devido aos requisitos de controlo epidémico para os locais de atuação, também não foi possível ter todos os lugares disponíveis para o público, e muitos potenciais espetadores não conseguiram comprar os respetivos bilhetes.

“A resposta a este evento foi muito boa. Desde o último espetáculo, em 2016, que não voltámos a Macau. Muitas pessoas estavam ansiosas por nos ver cinco anos passados. Contudo, a pandemia exigiu uma certa distância entre cada lugar e uma redução no número, fazendo com que os bilhetes se esgotassem em apenas alguns dias. Muitos reclamaram e disseram que não conseguiram comprar bilhete. Também a organização e os promotores queriam que fosse possível adicionar mais lugares, mas temos de seguir as regras. Discutimos várias formas de arranjar mais espaço e trazer mais pessoas, ou tornar o espetáculo mais acessível. Fizemos uma preparação muito extensa”, adianta.

As atuações ao ar livre do sub-festival “On Site” terão entradas gratuitas. Apenas a presença no workshop “On Site: Um Passo para o Teatro” terá de ser paga.

Tracy refere que, assim como aconteceu no ano passado, a equipa do “On Site” conseguiu obter um patrocínio para o evento, mas com a permanência da situação pandémica, que torna tudo mais difícil para várias indústrias, o valor desse apoio poderá ser inferior ao concedido na edição anterior.

“Compreendemos que todos estamos a passar por dificuldades”, diz. O “On Site” este ano irá ainda lançar uma série de recordações de edição limitada, e os seus lucros serão utilizados para financiar o festival.

Os votos e as expetativas para a edição deste ano é de que “tudo corra sem problemas, mas nunca se sabe o que pode acontecer”, lança.

Outro dos objetivos é trazer alguma motivação e esperança ao público com a realização do festival.

“Esperamos poder oferecer performances e atividades e dar-lhes a conhecer um pouco da arte moderna. É esse o nosso objetivo”, assegura.

Em relação ao desenvolvimento futuro do “On Site”, Tracy admite que poderá haver dificuldades para uma futura presença e participação no Festival Fringe do próximo ano.

“Com a pandemia, mesmo discutindo participações com diferentes organizações, ninguém deixa promessas ou está em condições de o fazer. Nada nem nenhum plano é ou está garantido. Por isso estamos preparados para qualquer eventualidade. Mas tudo será feito passo a passo”, conclui.

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