Não nos tirem o alimento da alma - Plataforma Media

Não nos tirem o alimento da alma

Esta semana cumpri o pedido da ministra da Cultura, Graça Fonseca, e fui a eventos culturais apoiar o setor e, já agora, o meu direito a ser feliz. Ambos, um filme e um concerto de piano, realizaram-se bem cedo, a horas antes impensáveis em dias de semana e no mesmo local, o teatro Tivoli, em Lisboa, integrados no Leffest 2020 – Lisbon&Sintra Film Festival. Fui porque gosto mas também porque tenho horários diferentes dos ditos normais e ainda consigo pagar bilhetes sem ficar com a consciência pesada de que depois não tenho para comer. Mas uma grande maioria de pessoas não conseguirá atender ao pedido da ministra, umas por falta de tempo, outras por falta de tempo e dinheiro, outras ainda porque já nem saem de casa com medo do vírus e outras porque se aborrecem perante o cenário de cumprir as regras de higienização no interior dos recintos culturais.
A tutelar da pasta em Portugal fala em apoiar a Cultura como se fosse fácil. Não é, mesmo para quem quer. Com o recolher obrigatório às 23h00 imposto pelo governo alguns teatros em Lisboa anunciaram logo que iam fechar até ao final do ano, como foi o caso do Politeama, de Filipe La Féria. Outros readaptaram-se a uma nova realidade como o Maria Matos, com novos horários, incluindo espectáculos de manhã. Com as salas com metade dos lugares disponíveis por causa das cadeiras de intervalo e com horários de manhã ou de tarde, ou à noite mas muito cedo, os poucos eventos que se realizam estão a meio gás.
No Tivoli, o concerto do pianista Piotr Anderzewski, no dia 17, começou às 16h00. Todos os funcionários, do que verificava o bilhete à entrada principal ao que nos conduzia ao lugar já na sala, passando pelo próprio produtor de cinema e organizador do festival, Paulo Branco, cumprimentavam o público com um natural “boa noite”. Era de tarde sim mas o antigo normal, de irmos ver espectáculos à noite, ainda está dentro de nós.
Para além do público, com a sua presença, é o governo quem tem o soberano dever de não deixar morrer a cultura. Com subsídios e com divulgação dos eventos sim mas também com o bom senso na aplicação de medidas . Decretar um recolher obrigatório às 23h00 sem implicar nas exceções uma ida ao teatro, ao cinema ou a um concerto mata o setor. A jusante mata também a restauração porque os prazeres da mesa estão ligados aos prazeres da alma.
E a Cultura é o alimento da alma. Num comovente texto do artista Nacho Pata, partilhado no Facebook pelo ator José Carlos Garcia, lê-se: “Para que servem os músicos de rua, artista de circo, palhaços, marionetistas, contadores de histórias, fotógrafos, mimos, acrobatas, cantores, dançarinos, cartoonistas, produtores e actores? Obviamente, para nada. Nada prático e mensurável. (Não conseguimos arranjar uma única máquina, nem resolver um problema de crédito bancário). A nossa única função nesta vida é tocar o coração e os pensamentos das pessoas”. Essa “única” função é a mais nobre de todas. Sem os artistas, a humanidade não sobrevive. Ou mesmo sobrevivendo, embrutece. O que retiraria todo o sentido às palavras “evolução” e “civilização”.

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