Em Moçambique, se falta dinheiro para o pão, não vai haver para sabão - Plataforma Media

Em Moçambique, se falta dinheiro para o pão, não vai haver para sabão

Lídia Cossa, 88 anos, tem máscara, mas falta-lhe dinheiro para comprar sabão ou desinfetante e cumprir as medidas de prevenção da covid-19 no precário e emblemático bairro da Mafalala, no coração da capital moçambicana, Maputo.

“Não trabalho, vou comprar com o quê? Pode ser só um metical que para mim já é caro”, diz, enquanto tenta ganhar alguma coisa a vender rapé à porta de casa, sentada do lado de dentro da porta, por prevenção.

Em frente, Fátima cruz, 28 anos, conta que perdeu o emprego na hotelaria quando a pandemia fechou tudo.

“Tive de cortar em muita coisa. O pequeno-almoço às vezes só chega para a criança. Os adultos vão se virando”, diz, com o olhar embargado.

Sai à rua com a filha Naira, oito meses, passeio que não vai longe, para “proteger a bebé do vírus”.

Vão até à esquina delimitada por uma vala nauseabunda à beira da qual Amina Sumalgy vende ‘bajias’, bolinhos de feijão, que também não lhe chegam para comprar o mínimo para prevenir a doença – já antes não chegaram para tratar das costas e das pernas.

“Se você ganha 70 ou 80 [meticais, cerca de um euro] por dia, aqui, faz o quê? Compra o quê com 80, aqui”, questiona.

“Controlar” a comida

Miraldo Arsénio, 22 anos, jogador de futebol da segunda liga moçambicana, procura “outras artes” para alimentar seis pessoas em casa, “sem caprichos” que tinha antes da pandemia, que o deixaram sem campeonato.

“Antes comia de qualquer maneira, agora tenho de controlar. Há outras pessoas que têm de comer”, descreve.

Amina Usseni, 25 anos, nascida e criada no bairro, assiste a este filme diário a partir do museu e casa de alojamento da Mafalala, seu local de trabalho, um edifício novo e diferente do resto do casario no bairro e que já deu abrigo a figuras históricas como a poeta Noémia de Sousa, o futebolista Eusébio ou primeiro Presidente moçambicano, Samora Machel.

“Acho que a principal dificuldade está no sabão e álcool. As pessoas usam mais a cinza”, substituto aconselhado, porque “muitas não têm dinheiro para comprar o pão do dia, que está a 10, imagine algo que custa 15 ou 20”.

A cura num ‘bafo’

Depois há falta de informação: “várias famílias não acreditam na covid”, acrescenta, “pensam que é negócio, que só pertence aos ricos e não afeta os pobres”.

Muitos pensam “que é uma doença que se pode curar com um bafo, com eucalipto ou que basta tomar banho” e nem usam máscara nas ruas do bairro.

“Acho que é preciso consciencializar as famílias, fazer campanhas. Não se fazem muitas, infelizmente”, alerta, e até sugere um guião: “chegar às casas e mostrar vídeos, mostrar o que é a realidade, um vírus fatal”.

O bairro, sem saneamento, é percorrido por um sistema de valas que Marco Matuli, 33 anos, já limpa desde 2012.

A água da chuva empurra o lixo e os vizinhos empurram o que não devem, queixa-se, pois alguns “até a água suja das casas de banho metem para a vala”.

Mais à frente colegas de equipa apitam, sinal de chamada para o carrinho de mãos ir carregar todo o tipo de resíduos que saíram de outra vala.

Distanciamento

Fátima Abibo, 30 anos, abre a porta de casa para um quarto inundado com infiltrações da fossa da casa de banho do vizinho.

“Eu tenho medo do coronavírus, nem saio ao quintal sem máscara”, conta, referindo que ao mesmo tempo não encontra maneira de resolver as infiltrações que são outro risco para a saúde.

Ali vive com um filho, uma tia incapacitada e um irmão, num espaço pequeno, com divisões esquálidas e partilhadas ainda com um vizinho e esposa, todos a tentar manter o distanciamento recomendado, com uma fossa a infiltrar-se pelo meio.

“Epá, o distanciamento não é fácil porque isto está cheio de pessoas, mas tentamos”, refere Luisa Severiano, 28 anos, vendedora de saquinhos de carvão no meio da rua.

A falta de condições de salubridade é agravada pelo facto de várias casas nem terem água.

“Nem todos têm água potável, uns vão a casa do vizinho, outros têm um poço no quintal”, conta Amina Usseni.

Enfrentar o medo

Zacarias Langa, 64 anos, tem água canalizada em casa, abastecida quase todos os dias durante várias horas: “abre de madrugada, pelas 03:00 ou 04:00 até ao meio-dia, é o tempo de encher garrafas, bidões, tudo”.

O museu e alojamento da Mafalala era um dos locais onde as crianças bebiam água, mas agora não é possível, por causa das medidas de prevenção da pandemia, para evitar ajuntamentos.

“Tudo mudou. Já nem há a foto com abraço ao visitante. Há distância”, lamenta Amina, hoje sem turistas para acolher.

“A covid veio para destruir tudo”, refere, acrescentando à descrição uma nota pessoal: “agora, ir para o trabalho, é enfrentar o medo, porque não se sabe se alguém nos infeta ou se nós infetamos a família”.

A covid-19 veio endurecer a lista de desafios diários de quem mora na precariedade e que segundo Zacarias Langa sempre começou da mesma maneira: “quando amanhece, cada um tenta desenrascar-se da sua maneira”.

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