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Crónicas do reino – o discurso do óbvio

João MeloJoão Melo*

Venturus era um político ambicioso. Criara um partido alegadamente constituído por outras pessoas mas acabaria por se cansar de aturar opiniões diferentes das suas, o normal quando se enfiam vários gatos dentro de um saco. Demitiu-se e na semana passada submeteu-se a uma votação interna, ganhando com 99,1% dos votos! Num regime democrático, qualquer líder teria vergonha de apresentar tais números, significam algo profundamente errado, à maneira dos clássicos partidos comunistas, não representam uma vitória e sim uma aclamação apoteótica. Falta perceber se terá noção do absurdo ou se o resultado o envaidece, qual Napoleão tirando a coroa das mãos do Papa e colocando-a na própria cabeça: ninguém está acima de si. Na URSS ou na Rússia, é igual, são filhas da mesma Mãe, esses 0,9% em breve morreriam por ingestão acidental de veneno dos ratos… Enfim, em concreto ficou finalmente claro que o partido é ele. Não acreditam? Então digam-me o nome de outra figura do aparelho, quero apenas um. Pois, na prática não há partido nenhum, há Venturus, tanto quanto se chegasse ao poder haveria a tentação de o Estado ser ele, uma especulação sustentável em exemplos de percursos semelhantes do passado. 

Os adversários acusavam-no de praticar o “discurso do ódio”, um rótulo francamente frívolo; contudo servia às mil maravilhas aos objectivos de todos, uma vez que os adversários sabiam que Venturus praticava o “discurso do óbvio”. E o que é? É o discurso que reflecte o pensamento de qualquer Zé ou Maria depois de os neurónios ligarem a sequência de notícias da CMTV. Estes Zés e Marias não são de esquerda nem de direita, comete um erro fatal quem os julga desse modo; são os Fritzs e Heikes do reich que primeiro achavam os nazis ridículos e depois admitiram que eles diziam “as verdades”. No tempo da outra senhora muitos Zés e Marias eram os tipos vulgares da porta ao lado, delatando anonimamente à polícia política. O regime caiu e ficaram órfãos, juntando-se a partidos de uma ponta à outra do espectro. Após décadas de desencanto e o surgimento dos fóruns virtuais, novos e velhos tornaram-se activos nas redes sociais. A crescente revolta contra o politicamente correcto, a dissolução dos costumes do reino, e o ciúme pelos que aparentam “safar-se” na vida permitiu-lhes medrar, assumindo denodadamente os seus desabafos. Para os velhos, grande parte dos problemas do reino resolviam-se plantando um Salazar em cada esquina, e isto resume a densidade das soluções. Encontraram no Venturus o representante do seu ressentimento. 

Entretanto Anagomus anunciou candidatar-se a Belém e Venturus perdeu a cabeça, é habitual. Acusou-a de “cigana”, “histérica” e “obcecada” com os seus inimigos, uma narrativa interessante sob o ponto de vista da psicanálise: estaria a falar de quem? Pelo menos ficámos a saber que a considera uma rival da sua área política, e novamente se prova que Venturus não funciona na lógica das esquerdas e direitas, é algo difereeente, meus amigos. Ele foi o primeiro a urinar no território do “anti-sistema”, certo? Então o que vai para lá fazer outro, e reparem no atrevimento, uma fêmea? Tinha de mostrar os dentes, claro, ameaçando inclusivamente demitir-se do partido se arrecadar menos votos que a Anagomus. Ah valente! Demonstra a coragem dos que ficam a gritar “eh boi, eh boi” atrás de uma trincheira: pensa que ninguém percebeu que se ficar abaixo dela sairá para voltar, ou então formar outro partido, olha o problema… Vive no sonho de um mano-a-mano à segunda volta com Marcelus I mas desengane-se, a oportunidade para duelos virá daqui a quatro anos, por ora é partir pedra. A Presidência da República será o cargo mais ambicionado na presente organização administrativa, e o partido um meio de lá chegar. Não precisa de visões diferentes, precisa de seguidores, afinal a linha programática é a da sua cabeça, necessitando que esbirros encham o parlamento até existir quórum para um dia se mudar o sistema, dotando a presidência de prerrogativas que actualmente não possui. Referendos internos, sejam sobre a pena de morte ou quaisquer outros, são exercícios de show off destinados ao exterior, também para os de dentro se convencerem que seguem ideias, não uma pessoa. E aqui reside a sua maior fraqueza: precisa constantemente de personificar “ideias”, marcar presença no combate mediático, se relaxar outro ocupará o lugar. O mercado do óbvio existe, cresce a olhos vistos, o produto tanto podia ter a marca Venturus como outra qualquer, Joaquinus, Manuelis, porém há espaço somente para uma única marca; a concorrência neste modelo discursivo aniquila o propósito de se obter ganhos através dele, sobretudo perde credibilidade. Ou seja: se quiserem destruir o Venturus não é lutando contra ele, é criando um partido igual ao dele.   

O discurso do óbvio limita-se a constatar factos à superfície, manipula sintomas a seu bel-prazer, raramente toca a essência de qualquer problema, além disso seria incapaz de resolver algum, não opera a essa escala de poder. É um discurso unidimensional, atingindo clara e directamente os cérebros dos pequenos ditadores que todos somos. Quanto menos espírito crítico houver, ele está quase extinto, e quanto mais o “sistema” soçobrar na satisfação de anseios das populações, uma evidência, mais Venturus se fará ouvir. O reino vive num caldo socioeconómico favorável ao seu crescimento, dificilmente se conterá a dinâmica expansionista. As soluções que preconiza são reacções emocionalmente desassombradas perante a apatia generalizada, daí a impressão de “estar vivo”, toca o sistema límbico, ao contrário dos adversários, falhos na capacidade de gerar emoções fortes, excepto a repulsa por si. Venturus não resolveria problemas, aliás agravá-los-ia porque o mundo não se arruma em caixinhas, é demasiado complexo para espíritos maniqueístas. Assim espera que a classe dirigente erre, o sistema se vá esboroando, enquanto ele cresce e algum tipo de colapso ocorra na sociedade. Nessa altura já não parecerá tão oportunista, estará apto a incorporar uma revolução de contornos messiânicos ao género Bolsonaro – versão europeia (pedante), aproveitando a ocasião para lembrar que sempre disse o mesmo, o tempo só lhe deu razão. Eleitores moderados que hoje o repudiam sentir-se-ão atraídos pela sua “coerência”, justificando a mudança ao jeito de “nem simpatizo muito com o homem mas nisso concordo, é o único que diz as verdades, e nunca enganou”. Elementar caros Watsons, quatro/cinco anos separam esta história da realidade.

*Músico e Embaixador do Plataforma

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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