A lentidão do papel - Plataforma Media

A lentidão do papel

Carlos Morais José

Queria ser lento como o papel mas tudo me ultrapassa. Tudo se esvai, tudo se esgaça. As coisas tendem a desaparecer no digital. Passar como se não tivessem importância, apesar de transportarem os sentimentos mais básicos. Lembro-me de uma carta que nunca cheguei a escrever. Era suposto que ela deslizasse pelo mundo devagar. Que fosse de barco pelos oceanos, que fosse entregue em mão por um carteiro. E gostava da ideia de uma carta te perseguir, meu amigo, ainda que eu não soubesse bem onde realmente estás e qual a tua verdadeira morada — eu escrevi “João em Almada”, como se fosse para mim. Mesmo que a carta nunca te chegasse, talvez te perseguisse, talvez te procurasse e, por um acaso mero, te encontrasse. Aí talvez a lesses e nela ainda reconhecesses o teu amigo, ainda que ferido do muito tempo que a carta demorou para chegar.

Sim, eu gostava desta ideia: da impossibilidade da certeza, da carta que viaja de navio, de avião, de comboio, de carrinha. Talvez a carta nunca te encontre, talvez tudo o que eu escrevi nunca seja lido e a tua vida não mude realmente. Mas, penso eu delicado, talvez o carteiro saiba onde geralmente te deitas e das maleitas que a missiva talvez pudesse evitar.

Podia mandar-te um email – e entredentes o faço – mas preferia a carta lenta, paciente nos transportes, manuscrita verdadeira, sem a versão altaneira que pela net te envio. Isto não passa de um rio onde nunca pela segunda vez me banharei. E assim pretendo ser rei de um reino já esgotado. A carta segue e eu espero, tu talvez esperes, ainda que o faças sentado, distraído, entretido a dobar, para sempre o mesmo novelo. Queres lá tu saber de mim, a não ser no digital e na rede social que tão depressa nos une como o vento nos esquece. Dá para negócios, bem sei. E não tens de me lembrar. Estou aqui a afinar a minha certa fortuna. Existem as apostas, o lance da sorte pedante, impante de ter certezas que se afundam pelas mesas.

Agrada-me a ideia de uma carta minha a perseguir-te, a procurar-te pelas cidades, pelos campos, pelos quartéis, já suja de carimbos vários, de mãos generosas de gorduras, do latido irado dos cães do outro lado dos portões.

Mas existe aquela parte esquecida que o papel dava à vida. A parte táctil, o toque da árvore nos dedos, o deslizar da faca a rasgar o envelope. A folha que ainda pouco se mostra, a caligrafia adivinhada. A tua letra, a minha letra. “Espero que esta carta te encontre bem de saúde”, dizia-se. Assim começava o discurso. Lento. Pausado. Por vezes apaixonado. Mas com ritmo de mar que avança e se despenha em sucessivas ondas de encontro à falésia. Sem pressas. Seguro de ter o seu lugar, de sempre acabar por abraçar a costa.

A carta que nunca chegou e, por essa simples razão, houve um mundo que mudou. A carta – lida à luz da tocha, do candeeiro hesitante, vela bruxuleante, sol de inverno magoado. A carta que há-de chegar; da espera, na estação férrea, no cais marítimo, no terminal de autocarros. E ela por ali virá, dia há que chegará e nas mãos de alguém brilhará tanto que será dia de lua noiva e não a noite rente da solidão. “Ainda penso em ti, meu amor. Fazes-me falta. E esta guerra que não termina.”

Não terminou nunca. “A política é a guerra por outros meios.” Interminável. Mas o papel cumpre-se como cegamente se cumpre um destino. O papel é lento, sedento de leitura e a caligrafia incerta uma prova de vida torta. A vida descrita, a tinta azul ou negra, a vida possível de descrever a quem se gosta. A mão já trémula, hesitações. Risco ainda uma palavra mas esse risco é a prova do meu cuidado por ti porque, por vezes, saem ásperas as palavras. E não é isso que eu quero. Quero-te dizer que estou bem, ainda que chore sobre o papel, que penso em ti, que és importante para mim. E a carta leva os meus beijos. Vai lenta, talvez não chegue. Não sei. Algo de mim vai nela e deste lado fico morto, despido nas frases que te escrevi.

O papel viaja lentamente e repete-se. Provavelmente, nunca te encontrará, meu amigo. Agrada-me a ideia de uma carta minha a perseguir-te, a procurar-te pelas cidades, pelos campos, pelos quartéis, já suja de carimbos vários, de mãos generosas de gorduras, do latido irado dos cães do outro lado dos portões. A minha carta é lenta e, provavelmente, nunca às tuas mãos chegará. Mas nela mora ainda a beleza das coisas impossíveis. E todas as crenças digitalmente perdidas.

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