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É sintomático nos momentos de transição civilizacional, a exploração desregrada por parte dos proprietários das soluções i+DT que melhor anteciparam as oportunidades que os sucessivos “choques tecnológicos” trouxeram.

Mas, se as cadeias de valor desses bens e serviços inovadores, para estes se fixarem nos consumidores como “uma nova necessidade”, passam por etapas de proteção, aperfeiçoamento e sedução, cuidadosamente subsidiadas e conduzidas pelo poder no sentido de estimular a sua utilização; os ciclos-de-vida e o trabalho, são deixados num vazio regulamentar para não “pesarem no custo final” desses produtos. Isso resulta numa série descontrolada de externalidades e impactes que ficam sem a orientação apropriada.

Assim, depois das etapas de criação e escolha das tecnologias basilares da 4ª etapa desta Revolução Industrial, a introdução dos bens e serviços dessa transição, estão já a pressionar globalmente os “berços dos recursos naturais” necessários para satisfazer as necessidades requintadas duma procura sedenta de inovação.

Tendo em conta que o capital disponível está a ser afunilado na mudança de paradigma; sobra depois pouco para a justa retribuição aos países que fornecem os recursos humanos e naturais, e até a terra, para alimentar esse modelo de crescimento.

Este fenómeno incremental característico das etapas da história fortemente inovadoras, tem sido profundamente estudado para ser prevenido. 

Mas entra repetidamente em “roda-livre” como se a passagem da invenção para a utilização estivesse destituída de qualquer racionalidade, para além da necessária fundamentação científica, técnica e tecnológica que a I&D das novas tecnologias exige! 

Ora, das fases do ciclo-de-vida dos bens e serviços (introdução> crescimento> maturidade> declínio), Interessa-me nesta primeira reflexão analisar em particular dois fenómenos de rotura na etapa “CRADLE to GATE” do processos de produção, e que são sintomáticos do aumento da entropia nos momentos de transição:

– A desterritorialização que leva ao rompimento da relação ética Homem /Natureza/Habitat e à consequente quebra da solidariedade geracional;

 – O abrandamento da “transferência de tecnologia” com os países em desenvolvimento, subjugando-os.

Se a desterritorialização resulta em algumas geografias das sucessivas globalizações e migrações, e da colonização progressiva dos “territórios selvagens” transformando essa “terra de ninguém” em “propriedade soberana” tomando posse dos seus recursos; já em países como o Brasil pex. (a comemorar 200 anos de independência), essa crise de “não pertença” ainda continua – apesar da distância temporal da descolonização, a afetar as sucessivas gerações de brasileiros, que ao contrário das sociedades indígenas que evoluíram para uma “espiritualidade territorial”, vão dando continuidade ao espirito do colono de “enriquecer rapidamente e a todo o custo, para regressar a casa”… Ao contrário do sentido de pertença ao território e de preservação sustentável dos recursos que as antigas ocupações humanas desenvolveram no tempo, aprendendo com os ciclos escassez/abundancia da natureza; no modelo colonial moderno – não há tempo para projetos complexos ou prolongados no tempo, ou vontade de poupar a natureza no tempo salvaguardando o progresso das gerações vindouras!

O mesmo processo de “espremer a natureza selvagem”, está também a acontecer, por razões próximas, noutros redutos de natureza ainda por colonizar – da Sibéria até aos EUA e China, onde se vão desclassificando os “Santuários Naturais”.

Entretanto, a incapacidade de evoluir os embrionários Mecanismos Flexibilização e de Ajuda ao Desenvolvimento de Kyoto (1) nos sucessivos COP até ao Acordo de Paris (2), criando verdadeiras ferramentas de apoio ao desenvolvimento e proteção do Património Natural da Humanidade, tem levado em tempos de transição de exploração de novos recursos, a um gravíssimo vazio operativo deixando partes fundamentais do Planeta sem qualquer tipo de proteção legal.

Por isso, sem a essencial “Transferência de Tecnologia”, recursos financeiros, ou mecanismos que ajustem as prioridades entre países com capacidade de CRESCIMENTO ou países que devem DECRESCER, tal como Kyoto antecipou em 1997 mas não soube resolver, só assim conseguiremos impedir a total destruição da “Natureza Selvagem” que está em curso, com consequências imprevistas para a humanidade.

Entretanto a Sibéria e a Amazônia ardem, o Alasca está ameaçado e a China acaba com milhares dos seus rios e procura terrenos agrícolas em África…

*Arquiteto

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