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O mundo que Saramago podia criar a partir desta pandemia

Rute Coelho

Passaram dez anos sobre a morte do nosso único prémio Nobel da Literatura. Nesta década sem José Saramago, o mundo mudou e muito. O aquecimento global, as alterações climáticas, a emergência da China como super potência, o “Big Brother” planetário via redes sociais e tecnologia avançada de dados biométricos e reconhecimento facial. E agora, a Covid-19, a pandemia global que está a mudar a humanidade tal como a conhecemos através do maior inimigo de todos: o medo.

Tanto que Saramago poderia criar a partir deste mundo em que já não viveu. Ainda que ideologicamente afastado do escritor britânico George Orwell, criou, tal como o visionário britânico, distopias que ainda hoje nos ajudam a perceber melhor o grotesco na sociedade desequilibrada e desigual que criámos.

No romance “Ensaio sobre a Cegueira”, de 1995 (e que lhe garantiu o Nobel três anos depois), inventou uma epidemia silenciosa, como a do coronavírus, mas no caso uma cegueira branca que se vai espalhando, um a um, abalando as estruturas sociais e criando o caos. O mote, antes de entrar na história é esta frase, retirada do Livro dos Conselhos: “Se podes olhar vê. Se podes ver, repara”.

O livro foi, dez anos depois do Nobel, passado a filme de Hollywood através do realizador brasileiro Fernando Meirelles. Mas é pela pena de Saramago que temos verdadeiro acesso à angústia que só as suas palavras conseguiram transportar. O próprio o admitiu, quando explicou o que tentou passar: “Através da escrita tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso”.

De cego, Saramago não tinha nada. Em 2005 voltaria a fustigar-nos com a publicação do romance “As Intermitências da Morte”, onde criou outra distopia brilhante. A primeira frase é: “No dia seguinte, ninguém morreu”. E se em Portugal a morte tivesse sido suspensa mas fosse possível continuar a morrer em Espanha e em todos os outros lugares do mundo? Esta é a premissa para imaginar uma sociedade corrupta e que mais corrompida ficou quando a mafia passou a controlar o negócio da morte.

Ainda que ideologicamente afastado do escritor britânico George Orwell, criou, tal como o visionário britânico, distopias que ainda hoje nos ajudam a perceber melhor o grotesco na sociedade desequilibrada e desigual que criámos

Neste livro, o mote, antes de entrar nele é: “Saberemos cada vez menos o que é um ser humano”, do Livro das Previsões.

Saramago sabia o que é um ser humano e mostrou-nos a humanidade em toda a sua crueza. Lamento muito que não esteja aqui para elevar ao terrível o que estamos a vivenciar, para nos dar aquele “murro no estômago” que acorda consciências. Porque depois dele não voltámos a ver desta maneira. De uma certa forma, parece que a nossa consciência ficou suspensa. Intermitente.

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